Mergulhando no primeiro museu subaquático da Grécia

Um parque marinho nacional protege animais aquáticos e agora oferece passeios pelo “Partenon dos naufrágios”, perto da ilha de Alonissos.

Por Maria Atmatzidou
Publicado 30 de dez de 2020 09:00 BRST
No novo museu subaquático da Grécia, com inauguração oficial prevista para junho de 2021, os mergulhadores ...

No novo museu subaquático da Grécia, com inauguração oficial prevista para junho de 2021, os mergulhadores poderão explorar um antigo local de naufrágio e uma infinidade de ânforas de vinho no Mar Egeu.

Foto de Timo Dersch

“GRÉCIA, SEMPRE ABERTA” anunciava, em janeiro passado, a campanha publicitária de turismo dessa nação ensolarada. O slogan refletia a realidade, pois em 2019, cerca de 34 milhões de visitantes passaram pelo país. Mas então veio a pandemia de covid-19 e arrasou a indústria do turismo.

No entanto há uma luz no fim do túnel: a inauguração do primeiro museu subaquático da Grécia. O local peculiar, que preserva um antigo navio naufragado, tem como objetivo atrair futuros visitantes e poderia se tornar um modelo de turismo sustentável após a pandemia.

​​Localizado no Parque Nacional Marinho de Alonissos e Espórades do Norte, no Mar Egeu, o museu integra a maior reserva marinha de proteção na Europa. Devido à preocupação com roubos, apenas arqueólogos e pessoas com autorização especial tinham acesso às relíquias submarinas. Agora, mergulhadores amadores podem explorar as águas e, a uma profundidade de cerca de 24 metros, conhecer os destroços do naufrágio de Peristera, batizado em homenagem à ilhota vizinha, que é desabitada. Como o naufrágio ocorreu aproximadamente em 425 a.C., mergulhar no local é como viajar em uma máquina do tempo.

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Mergulhador passa por parede subaquática ornamentada com corais coloridos perto de Alonissos, ilha próxima à embarcação naufragada.

Foto de Timo Dersch

Descoberta complexa

Em 1985, Dimitris Mavrikis, pescador da região, encontrou os destroços na costa oeste de Peristera. Sete anos depois, escavações subaquáticas lideradas pela arqueóloga Elpida Hatzidaki revelaram mais detalhes. A embarcação foi um dos maiores navios mercantes do Período Clássico (entre os séculos 5 a.C. e 4 a.C.) e transportava uma carga impressionante: quatro mil ânforas de vinho (grandes jarras com duas alças) originárias das antigas cidades gregas de Mende e Pepareto, além de tigelas pretas de cerâmica, xícaras, pratos e talheres — artigos essenciais aos suntuosos banquetes ou simpósios da época.

O naufrágio do navio, provavelmente ateniense, ocorreu no fim da Guerra do Peloponeso – durante as décadas turbulentas da batalha entre duas superpotências: Atenas e Esparta. Os arqueólogos extraíram apenas fragmentos de madeira queimada do casco do navio, mas as ânforas empilhadas levaram a uma grande descoberta.

“Acreditava-se que grandes navios como esse (medindo aproximadamente 12 por 25 metros) haviam sido construídos pela primeira vez na época romana. O naufrágio de Peristera, entretanto, documenta sua existência já nos últimos 25 anos do século 5 a.C.”, afirma Pari Kalamara, diretor do Eforato de Antiguidades Subaquáticas da Grécia.

Os artefatos do naufrágio também são alguns dos mais bem preservados. “A carga de ânforas manteve o mesmo posicionamento e disposição em camadas em que havia sido depositada no porão, indicando o formato da embarcação”, explica Kalamara. “É uma experiência bastante única para os mergulhadores visitantes que podem observar uma embarcação do Período Clássico.”

Passados vinte anos após a última escavação, o local apelidado de “o Partenon dos naufrágios” ainda guarda alguns segredos: como era o comércio antigo, como o navio foi construído e por que afundou. E talvez a pergunta mais lembrada de todas: o que há embaixo das ânforas?

Abertura ao público

Após receber recentemente o título de museu subaquático, mergulhadores amadores acompanhados por instrutores certificados começaram a visitar o local do naufrágio durante uma fase piloto, que ocorreu de agosto a outubro de 2020.

Alonissos, conhecida por suas paisagens exuberantes e ambiente descontraído, é o ponto de partida para visitar o museu subaquático.

Foto de Georgios Tsichlis, Alamy Stock Photo

“Tem havido um bastante interesse do mundo todo. É a primeira vez que o local recebe tantos mergulhadores experientes”, afirma Kostas Efstathiou, do Centro de Mergulho Alonissos Triton, um dos operadores turísticos credenciados na região. Para mergulhadores avançados, estavam disponíveis quatro visitas por dia, e aqueles sem experiência em mergulho podiam fazer aulas para conhecer o local. “Acredito que, nos próximos anos, Alonissos ocupará seu lugar no mapa de mergulho global”, conta Efstathiou.

Com a descida a níveis mais profundos, a luz do sol diminui e as cores desaparecem. Mas as lanternas trazem de volta as tonalidades e os visitantes vislumbram as colorações verde, vermelha e laranja dos corais, cardumes e esponjas — e as moreias que colocam a cabeça para fora das ânforas. A uma profundidade de cerca de 15 metros, os mergulhadores têm uma vista panorâmica dos destroços antigos que se transformaram em um ecossistema moderno. “É inspirador”, afirma Efstathiou. “O que é observado... tem 2,5 mil anos, é uma viagem no tempo.”

Os entusiastas de naufrágios não precisam mergulhar para espiar esse reino submarino. No local, cinco câmeras subaquáticas transmitem imagens em tempo real e uma é aberta ao público (atualmente, apenas cientistas têm acesso às demais). “É uma inovação mundial que faz uso de sofisticadas tecnologias”, afirma George Papalambrou, professor da Escola de Arquitetura Naval e Engenharia Marinha da Universidade Técnica Nacional de Atenas e membro da equipe do projeto. “Ao assistir ao vídeo, pessoas de todo o mundo, mergulhadores ou não, podem compartilhar da experiência de mergulho.”

Além disso, na ilha de Alonissos, o Centro de Informação e Conscientização na vila de Chora, localizada em uma encosta, oferece aos visitantes que preferem não mergulhar óculos especiais para um passeio em realidade virtual 3D pelo local do naufrágio.

Mesmo com restrições de viagem em vigor impostas pelo coronavírus, a fase piloto do museu atraiu 66 visitas subaquáticas programadas e 246 mergulhadores visitantes, um cenário inicial otimista para a inauguração oficial, prevista para junho de 2021.

Protegendo a cultura — e a natureza

As relíquias não são os únicos tesouros preservados na região. As iniciativas para proteger espécies terrestres e marinhas raras ou ameaçadas de extinção começaram na década de 1970. Em 1992, uma área de quase 2,6 mil quilômetros quadrados — incluindo Alonissos, seis ilhas menores e 22 ilhotas — foi declarada o primeiro parque marinho nacional da Grécia.

Foca-monge-do-mediterrâneo descansa em praia de Alonissos, parte de um parque marinho nacional que protege focas criticamente ameaçadas de extinção e centenas de outras espécies.

Foto de Timo Dersch

Hoje, mais de 50 focas-monge-do-mediterrâneo ameaçadas de extinção encontram refúgio na reserva natural de Gioura e na área de proteção de Piperi, além de falcões-da-rainha nas ilhotas de Skantzoura, Strogilo e Polemica e plantas raras como o lírio-das-areias em Psathoura. O parque também abriga uma raça rara de cabras-selvagens, 300 espécies de peixes e mais de 80 espécies de aves, bem como répteis, golfinhos, baleias, flora terrestre e a alga marinha Posidonia oceanica, conhecida como grama-de-netuno.

“Nossos visitantes apreciam o mar, a natureza, a navegação. Aqui é possível se integrar à natureza, já que se está em um ambiente intocado”, afirma Yiannis Nikolopoulos, associado especial do prefeito de Alonissos. “É uma ilha bastante ecológica, coberta por vegetação abundante, a primeira ilha grega que proibiu sacos plásticos em 2015. Felizmente, não foi descaracterizada pelo turismo.”

Na metade do ano, a pandemia fez o turismo despencar em 85% em relação ao ano anterior, conta Aggeliki Malamateniou, presidente da Associação de Proprietários de Hotéis de Alonissos. “Mas nossos visitantes são fiéis”, diz ela. “Apreciam muito o que Alonissos tem a lhes oferecer.”

E o que tem a oferecer — o museu e parque marinho — é único. Para se manterem sustentáveis, os tesouros da ilha precisam ser preservados por muito tempo. “Todos na região e nos centros de mergulho partilham uma grande responsabilidade”, conta Efstathiou. Se mergulhos turísticos puderem ser mantidos e ao mesmo tempo preservar os artefatos e a natureza, “poderão oferecer experiências únicas aos visitantes, promover ainda mais o interesse pelo patrimônio subaquático e oferecer novas fontes de receita à comunidade local”, afirma Kalamara.

Em 2019, mais quatro locais de naufrágios na região foram designados como sítios arqueológicos subaquáticos acessíveis, com a intenção de serem transformados em futuros museus, o que pode sinalizar uma nova tendência em um país com cerca de 16 mil quilômetros de litoral e centenas de locais de naufrágios.

“O maior desafio do primeiro museu foi torná-lo holístico e funcional em longo prazo para que pudesse servir de modelo a iniciativas semelhantes em outros locais”, conta Kalamara, “E acredito que tivemos êxito.”

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