O mistério dos ossos de São Valentim

No Dia de São Valentim, pessoas de lugares que vão desde Itália até à Irlanda visitam igrejas que supostamente contêm os restos mortais do santo padroeiro dos namorados. Mas onde foi realmente enterrado São Valentim?

Por Ronan O’Connell
Publicado 14 de fev. de 2022 12:12 BRT
foto da suposta caveira de sao valentim em um relicário dourado

Mito e mistério envolvem o mártir católico do século 3, São Valentim, que se acredita ter sido executado em 14 de fevereiro. Diz-se que o seu crânio está em exibição na basílica de Santa Maria em Cosmedin, em Roma, Itália, uma das várias igrejas europeias que reivindicam a posse dos seus restos mortais.

Foto de Getty Images, iStockphoto

Todos os anos, no dia 14 de fevereiro, milhões de pessoas nos Estados Unidos e na Europa celebram o Dia dos Namorados com caixas de chocolates, refeições à luz de velas e cartas de afeto. Mas, por trás da fachada alegre da data, reside um misterioso – e terrível – conto de uma decapitação e partes corporais espalhadas por toda a Europa.

O mártir católico São Valentim foi decapitado no dia 14 de fevereiro no século 3, supostamente por ter quebrado uma lei romana que proibia a realização de casamentos. Agora, em Dublin, uma igreja afirma exibir o coração de São Valentim; o seu suposto crânio está em exposição numa basílica de Roma; um convento em Glasgow exibe o seu esqueleto num expositor dourado; uma basílica em Praga tem como atração um osso dos ombros; e, numa igreja em Madrid, os seus restos mortais estão envoltos em vidro.

Visitantes fazem uma oração num santuário que supostamente contém os restos mortais de São Valentim, na Igreja de Whitefriars, em Dublin.

Foto de PA Images, Alamy Stock Photo

Depois, temos Terni, que supostamente é a cidade natal italiana de Valentim. Aqui, as suas alegadas relíquias atraem os fiéis para a basílica di San Valentino, cuja versão mais antiga foi supostamente construída sobre seu túmulo. Ao todo, uma dúzia de igrejas católicas por toda a Europa apostam vivamente na alegada posse dos restos mortais do famoso santo.

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Porém, não se sabe exatamente onde estão os seus restos mortais. Esta falta de consenso é um exemplo dos mistérios que rodeiam Valentim. Sua história é tão obscura que, em 1969, apesar de ser um santo reconhecido, foi apagado do Calendário Romano Geral – o almanaque litúrgico que assinala as datas das celebrações dos santos – devido à escassez de informações genuínas sobre a sua vida.

Quem era São Valentim?

A lenda de São Valentim provavelmente é uma mistura de histórias de vários santos italianos chamados Valentim – e provavelmente nenhum deles inspirou realmente a celebração anual dos namorados. Os textos históricos mostram que três santos chamados Valentim morreram no dia 14 de fevereiro durante o século 3, e sabe-se pouco sobre a vida de cada um, de acordo com Lisa Bitel, professora de religião e história da Universidade do Sul da Califórnia e uma das maiores especialistas mundiais em São Valentim.

Esta gravura do século 19 especula como seria São Valentim, o mártir católico do século 3.

Foto de PHAS, Universal Images Group/Getty Images

Um destes três santos faleceu na África, o outro era um padre que foi decapitado pelo imperador romano Cláudio Gótico e, por fim, havia um bispo na cidade de Terni, perto de Roma, na região do centro de Itália, que também foi decapitado a mando do mesmo imperador. É pouco provável que dois santos com o nome de Valentim tenham sido decapitados; o mais provável é que esse incidente horrível tenha sido uma só lenda que se fragmentou, diz Lisa Bitel. Também não há evidências de que algum desses santos tenha realizado atos que promovessem o romance. Resumindo, o dia 14 de fevereiro começou por ser uma festa religiosa que assinalava a execução de um São Valentim.

A primeira menção ao Dia de São Valentim enquanto celebração amorosa só foi feita mais de mil anos depois, pelo autor britânico Geoffrey Chaucer, diz Henry Kelly, professor de história e teologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Henry Kelly, autor de Chaucer and the Cult of St. Valentine (Chaucer e o Culto a São Valentim, em tradução livre), diz que foi a escrita de Geoffrey Chaucer que fomentou a tradição dos namorados nesta data. E acrescenta que muitas das histórias coloridas agora ligadas a São Valentim eram ‘fictícias’.

A Igreja de Santo Antão, em Madrid, é um dos vários lugares que alega ter os restos mortais de São Valentim. Os ossos e o crânio exibidos nesta igreja foram descobertos em catacumbas romanas no final do século 18.  

Com tanta incerteza, é compreensível que muitos locais reivindiquem para si a posse dos restos mortais de Valentim. As igrejas beneficiam obviamente com qualquer ligação concreta a um santo, explica Lisa Bitel. “Quanto mais conhecido for o santo, mais peregrinos irão visitar determinada igreja para o venerar. E também foi fácil reescrever a hagiografia do santo para incluir a sua presença num determinado lugar.”

Aparentemente, nem todas esas igrejas possuem realmente os restos mortais de Valentim, mas não existe qualquer tipo de competição ou animosidade conhecida entre elas, acrescenta Lisa Bitel. E a Igreja Católica Romana permanece silenciosa.

“O Vaticano não toma posições em relação aos restos mortais”, diz Lisa. “A chefia da igreja praticamente deixou a aquisição e o uso de relíquias sem grande regulamentação. É algo que atrai pessoas para estes locais, peregrinos para as cidades e dinheiro para os cofres das igrejas. Tanto teólogos com outros especialistas têm sido críticos desde o início sobre o comércio de relíquias, que já vem desde os tempos de [Santo] Agostinho, se não antes”, diz Bitel. “As pessoas sabiam que os comerciantes de relíquias vendiam falsificações. Mas também estavam dispostas a acreditar que os santos podiam originar relíquias em proporções milagrosas, para que muitas igrejas pudessem reivindicar a posse do corpo de um santo em particular.”

O estranho caso dos restos mortais de Valentim

Hoje em dia, porém, os restos mortais de São Valentim têm muito menos apelo. Em Roma, multidões de estrangeiros fazem fila todos os dias na basílica de Santa Maria em Cosmedin. Aqui, no interior de uma caixa dourada, vemos uma caveira decorada com uma coroa de flores. No entanto, as hordas de turistas não têm interesse ou qualquer conhecimento sobre esta relíquia de São Valentim e, em vez disso, visitam o local para colocar os dedos numa antiga tampa de esgoto, embora famosa, chamada Boca da Verdade.

A Basílica de Santa Maria, em Cosmedin, em Roma, é famosa por uma antiga atração chamada Boca da Verdade, mas também tem um santuário de vidro que contém o que alguns afirmam ser o crânio de São Valentim.

Foto de M. Ramirez, Alamy Stock

“Quando vamos lá, os meus clientes não pedem para ver o corpo de São Valentim”, diz Sara Verde, guia turística de longa data em Roma. “Eles nem sequer sabem que o corpo de São Valentim está lá dentro.”

A relíquia santa também desperta pouco interesse entre a maioria dos habitantes de Roma, que são céticos sobre sua autenticidade. “Em Roma, acreditamos que este crânio, que ainda é venerado pelos peregrinos, pertencia a um mártir cristão diferente, que também se chamava Valentim”, diz Sara Verde. “Já estive em Terni para ver o corpo verdadeiro de São Valentim.”

Em Glasgow, por outro lado, alguns casais escoceses fazem questão de visitar os restos mortais de São Valentim em 14 de fevereiro. Os ossos do mártir chegaram a essa cidade portuária no final da década de 1870, de acordo com o padre George Smulski, do Convento Duns Scotus de Glasgow. Os ossos foram doados por uma família católica francesa muito abastada e estão agora num relicário ornamentado atrás de um vidro na entrada do átrio do convento.

“Todos os anos, no Dia de São Valentim, os visitantes – principalmente casais – visitam o santuário”, diz George Smulski. “Alguns vêm para renovar os seus votos de casamento e, num caso que ficou conhecido, fazer uma proposta de casamento.”

O padre John McGrath, da igreja do Beato John Duns Scotus em Glasgow, na Escócia, acende uma vela ao lado de um caixão, que dizem conter os restos mortais de São Valentim – relíquias que atualmente são disputadas por igrejas em Dublin e Roma, que afirmam ser o local de descanso final do santo.

Foto de Jeff J. Mitchell UK, Reuters/Alamy Stock Photo

A oeste, do outro lado do agitado mar da Irlanda, Valentim tem de competir por atenção com um santo igualmente famoso. Uma das atrações principais de Dublin é a majestosa catedral com o nome do patrono da Irlanda, São Patrício, repleta de visitantes durante o ano inteiro.

Ali perto, no interior da quase esquecida Igreja da rua Whitefriar, São Valentim permanece em relativo anonimato. Aos pés de uma enorme estátua do santo tem um baú de madeira que contém o seu coração. Em 1836, este órgão sagrado foi trazido de Roma numa “procissão solene”, segundo as informações apresentadas numa placa da igreja.

Um casal de noivos após as suas alianças serem abençoadas na igreja da rua Whitefriar, em Dublin.

Foto de Julien Behal, PA Images/Getty Images

Alan Byrne, guia turístico de Dublin formado em história cuja dissertação versa sobre a Igreja Católica, diz que os restos mortais de Valentim são bem conhecidos entre os habitantes locais, mas que estão ausentes da rota turística da cidade. Alan diz que o Dia de São Valentim é o único momento em que as suas relíquias recebem muitos visitantes. “As pessoas escrevem mensagens de amor e deixam-nas no santuário. Os casais que ficam noivos costumam ter as suas alianças abençoadas na igreja nesse dia; e também há propostas de casamento no santuário.”

Ainda assim, os jovens casais irlandeses preferem passar o Dia de São Valentim em locais mais fotogênicos de Dublin, locais que oferecem cenários mais bonitos para postar nas redes sociais. “Talvez São Valentim precise de uma conta no Instagram para atrair mais visitantes a esta igreja”, brinca Alan Byrne.

O humor irlandês tem um fundo de verdade. No dia 14 de fevereiro, as pessoas têm mais propensão para publicar um emoji alusivo ao Dia dos Namorados do que visitar o suposto coração – crânio ou ombro – do santo que estão a celebrar.

Ronan O'Connell é um jornalista e fotógrafo australiano que vive entre a Irlanda, a Tailândia e a Austrália Ocidental.

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