Múmias mexicanas atraem multidões e controvérsias

Exploradas e prezadas, as múmias de Guanajuato estão no centro de um debate sobre a exibição de restos humanos.

Por Jennifer Barger
Publicado 28 de out. de 2022 11:05 BRT
Menino mumificado no Museu de Múmias em Guanajuato, no México

Menino mumificado no Museu de Múmias em Guanajuato, no México, está vestido de santo, uma prática comum para enterros infantis na América Central e do Sul. O corpo está entre as 100 múmias preservadas naturalmente dos séculos 19 e 20 exibidas no museu popular.

Foto de Michael James Wright

Guanajuato, no México, está na lista de Patrimônio Mundial da Unesco desde 1988, graças à sua arquitetura colonial espanhola, sua história da mineração de prata e locais relacionados à Revolução Mexicana. Suas igrejas barrocas, ruas estreitas de paralelepípedos e casas coloridas são dignas de cartões-postais. Mas a maior atração turística da cidade central do México é mais sombria e macabra do que tudo isso: um museu subterrâneo que contém 100 múmias.

Homens de queixo caído, bebês de pele curtida e outros cadáveres atraem viajantes curiosos há mais de um século. Inicialmente, os visitantes pagavam alguns pesos para ver as múmias em uma cripta subterrânea. Desde 1969, eles são exibidos de maneira assustadora sob holofotes no Museu de Múmias.

Muitos dos corpos no Museu de Múmias de Guanajuato são exibidos em pé, o que alguns estudiosos acreditam que interfere em sua preservação.

Foto de Robert Harding Alamy Stock Photos

Esses cadáveres dos séculos 19 e 20 preservados naturalmente (sem curativos ou embalsamamento) são uma fonte de lucro e orgulho local para esta cidade localizada aproximadamente a uma hora de carro no oeste de San Miguel de Allende. “As múmias de Guanajuato trazem a maior renda econômica para o município depois do imposto predial”, diz o antropólogo mexicano Juan Manuel Argüelles San Millán. “É difícil extrapolar sua importância.”

As múmias também são controversas. Viajantes de outras culturas não conseguem compreender por que uma das cidades mais bonitas do México exibe restos humanos macabros. Alguns estudiosos acham que os corpos estão armazenados e rotulados incorretamente. No início deste ano, foram descartados os planos para um novo e extravagante museu de múmias logo que acadêmicos e representantes da Unesco recusaram sua localização no topo de um shopping center no centro da cidade.

 Tudo isso levou novamente a atenção para esses restos frágeis. O Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah) lançou recentemente um estudo, liderado por San Millán, para determinar as identidades dos corpos que em sua maioria são anônimos. De 13 a 30 de outubro, uma exposição de fotografias delicadamente elaboradas das múmias pelo artista local Michael James Wright será a atração principal do respeitado Festival Internacional Cervantino anual de Guanajuato, e depois sairá em turnê no México e no exterior. “Esses projetos podem dignificar os mortos e transformá-los em algo educacional, em vez de um espetáculo secundário”, acredita Wright.

Aqui, desvendamos como surgiram as múmias e seu museu, e por que continuam atraindo multidões para Guanajuato.

Origem das múmias e seus mitos

Apesar do espetacular centro histórico da cidade de Guanajuato, o museu das múmias na periferia da cidade é frequentemente o primeiro lugar que os turistas visitam. “Vou ver as tias”, brincam os mexicanos a caminho de Guanajuato. As pessoas fazem fila durante horas para entrar no museu, lado a lado com os vendedores ambulantes que vendem charamusca, um doce de canela local em forma de múmias, claro.

Uma foto de 1911 mostra as múmias de Guanajuato em seu espaço de exibição original, uma cripta sob o cemitério da cidade. Os corpos naturalmente preservados foram desenterrados uma vez que suas famílias não pagaram as taxas de manutenção dos túmulos.

Foto de Classic Image Alamy Stock Photos

Para os turistas mexicanos a exibição dos cadáveres representa uma mistura de interesse e respeito, e não repulsão – afinal, esta é a origem do Dias dos Mortos. “Mas para viajantes de outras partes do mundo, eu realmente devo contextualizar o museu”, explica Dante Rodriguez Zavala, nativo de Guanajuato e guia da Mexico Street Food Tours. “Para os mexicanos, isso não é bizarro ou estranho. Temos um nível de conforto com a morte – no Dia dos Mortos, levamos comida para nossos entes queridos falecidos e convidamos mariachis para o cemitério.”

Ao redor de Guanajuato, você ouvirá diferentes relatos fantasmagóricos sobre a origem das múmias: algumas foram enterradas vivas, outras morreram em um surto de cólera, todas foram preservadas devido ao solo rico em minerais. “Além disso, para deixar as pessoas interessadas em ver as múmias, os funcionários do cemitério começaram a contar histórias sobre enforcamentos, bandidos e bruxas”, diz Gerald Conlogue, professor emérito de diagnóstico por imagem da Universidade Quinnipac, que estudou extensivamente as múmias.

A verdade é mais simples e tem a ver com a atitude concreta da cultura do México em relação à morte. Como muitos cemitérios públicos, o Pantéon Santa Paula, por volta de 1861, tinha uma política em que as famílias dos falecidos pagavam uma taxa anual de sepultamento para manter os restos mortais de seus entes queridos enterrados em tumbas ou nichos acima do solo, semelhantes a cubículos de estante de pedra. Em 1865, trabalhadores de cemitérios começaram a remover os corpos de pessoas cujos parentes não podiam pagar as taxas ou que não tinham família viva.

Quando abriram os túmulos, os trabalhadores esperavam encontrar ossos empoeirados. Em vez disso, eles descobriram muitos corpos surpreendentemente intactos, com pele, cabelo e até línguas. O ambiente quente e seco acabou sendo ideal para a preservação dos restos humanos. “Quando o sol atinge os nichos o dia inteiro, como é o caso de Santa Paula, faz com que os corpos se desidratem rapidamente”, diz Maria del Carmen Lerma Gómez, antropóloga forense que trabalha no estudo do Inah.

Surge uma aterradora atração turística

A notícia se espalhou sobre essas múmias milagrosas, que os coveiros sustentavam ao longo das paredes em um ossuário subterrâneo. Alguns cadáveres ainda conservavam suas roupas de enterro, sapatos de botões altos ou etiquetas indicando seus nomes e datas de morte. Eles rapidamente se tornaram uma curiosidade e uma fonte de dinheiro para os trabalhadores do cemitério.

Um cadáver preservado naturalmente no Museu de Múmias de Guanajuato que parece estar gritando, como resultado da liberação dos músculos da mandíbula após a morte.

Foto de Diego Jesus Sanchez Torres Alamy Stock Photos

“Por uma pequena taxa, o funcionário admitirá o visitante na 'câmara dos horrores'”, segundo um artigo de viagem da revista National Geographic em julho de 1916. Uma escada em caracol leva à cripta, onde horríveis restos mumificados são colocados em uma fileira fantasmagórica, sorrindo com ressentimento para os curiosos”.

Ao longo dos anos, os turistas levavam os crachás das múmias como lembranças, roubando a identidade da maioria dos corpos. Guias de museus e moradores preencheram a lacuna com novos apelidos e narrativas mágicas – um corpo feminino deformado por uma escoliose grave chamado La Bruja (A Bruxa), outro cadáver conhecido como El Ahogado (O Afogado).

Um novo estudo das múmias de Guanajuato visa identificar os restos mortais dos séculos 19 e 20 e determinar a melhor forma de conservação.

Foto de Craig Lovell Eagle Visions Photography, Alamy Stock Photos

Eles se tornaram embaixadores culturais da cidade, tanto atrações da vida real quanto musas da ficção. As múmias lutaram contra os luchadores (lutadores mexicanos) mascarados e encapuzados em dois filmes de terror dos anos 1970 e assombraram um casal americano problemático no conto de 1955 de Ray Bradbury, The Next in Line. No próximo ano, estreia uma nova série de streaming, Pinches Momias (Malditas Múmias).

O que fazer com as múmias

O estudo do Inah foi lançado em fevereiro, estimulado por reclamações sobre o novo museu proposto e supostos maus-tratos às múmias. Os críticos não concordaram com a decisão do governo local de transportar os corpos frágeis para convenções fora da cidade e – escandalosamente – de exibi-los em um dos túneis subterrâneos de Guanajuato durante uma competição de automobilismo.

A equipe de San Millán envolvida no projeto do Inah está investigando e procurando certidões de óbito dos séculos 19 e 20, documentos da igreja e jornais com o objetivo de identificar as múmias. Métodos forenses (raios-X, análises de DNA de cabelos, dentes ou pele) podem até conectar os restos mortais aos atuais moradores de Guanajuato.

“Eles devem ser tratados como corpos humanos”, crê San Millán. Isso significa que se uma múmia anteriormente desconhecida for o tataravô de alguém e os descendentes desaprovarem sua exibição, ela será reenterrada “imediatamente e sem nenhum problema”, acrescenta ele.

Estudiosos do Inah e outros especialistas esperam que o novo estudo melhore a forma como as múmias são exibidas e lhes dê um novo reconhecimento como elementos culturais. Atualizar o controle climático do museu e armazenar os corpos horizontalmente em vez de verticalmente também pode ajudar na preservação.

“São apenas pessoas comuns que contém informações sobre o período em que viveram”, diz Conlogue. “Eles andaram por essas ruas e pelo antigo mercado. Eles não deveriam ser uma atração de circo.”

Jennifer Barger é editora sênior de viagens da National Geographic e escreveu sua primeira história sobre múmias na escola primária. Siga-a no Instagram.

Susannah Rigg contribuiu com a pesquisa para este artigo.

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