Como animais que trocam de cor se rebelam contra mudanças climáticas

Um novo estudo descobriu lugares onde os animais que ficam brancos para o inverno podem se desenvolver em um mundo com menos neve.

Por Liz Langley
Publicado 26 de fev. de 2018 15:56 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
A lebre-americana vai vencer a corrida entre mudanças climáticas e evolução?
Com a redução da neve no mundo, animais com pelagem especial de inverno vão precisar se adaptar rápido.

É um fato da moda que quanto mais frio for o ambiente que você estiver, mais acessórios de inverno você precisa.

Até alguns animais têm dois pelos: um para o verão, para combinar com a paisagem, e um para o inverno branco, para combinar com a neve.

Mas e se não houver neve e você não trocar esse pelo?

Em um novo estudo da revista Science, cientistas examinaram 21 espécies em 60 países que trocam a pelagem marrom por branca para camuflar na neve. Como as mudanças climáticas causam menos neve, muitos desses animais estão ficando brancos quando não tem neve, o que os deixa mais vulneráveis.

Mas o estudo descobriu alguns refúgios possíveis para essas criaturas: regiões geográficas que abrigam espécies com as duas cores (imagine uma floresta cheia de lebres-americanas, algumas marrons e outras brancas).

Ao proteger tais áreas, os humanos deixariam as espécies espalharem os seus genes de pelos mais escuros e enganariam as mudanças climáticas.

Pelos para o inverno

Algumas espécies usam uma camuflagem sazonal, como a lebre-americana, a raposa-do-ártico, e o lagópode-branco.

Essa habilidade de mudar de cor é “uma característica que a evolução fez para que esses animais pudessem passar pelas mudanças climáticas nos tempos mais difíceis”, disse o líder do estudo L. Scott Mills, um biólogo da vida selvagem da Universidade de Montana.

Lebres-americanas, por exemplo, já chegaram até o sul da Carolina do Norte, mas agora só existem até a Virgínia Ocidental por causa da redução da neve. Esse foi um padrão que os pesquisadores encontraram em outras espécies que mudam de cor, disse a co-autora Jennifer Feltner, doutoranda da Universidade de Montana.

A quantidade de luz solar em um dia é o que determina a mudança de pelos, independentemente se tem neve ou não. E se não há neve e as lebres estão completamente brancas, elas se tornam alvos fáceis para predadores.

Uma lebre-americana pula pela paisagem com neve com sua pelagem de inverno.
Foto de Robbie George, National Geographic Creative

Feltner diz que os seus amigos de laboratório as apelidaram de “os X-burguers da floresta”, porque todos as querem, desde corujas até onças pardas.

Segundo Mills, as lebres também não sabem que trocaram de pele e não mudam o comportamento mesmo depois de perder a camuflagem. Uma característica que provavelmente se repete entre outros animais que mudam de cor.

Os lagópodes-brancos são outra história. De acordo com Mills, os pássaros contam com a cor para atrair parceiros e os lagópodes-brancos machos ficarão brancos, com neve ou sem, até se acasalarem.

Depois disso, “eles encontram um buraco de lama ou até fezes e ficam rolando lá até ficarem marrons”, recuperando a camuflagem depois de usar a cor para atrair fêmeas, disse Mills.

Lagópodes-brancos com a plumagem de inverno no Parque Nacional de Sarek, na Suécia.

Estímulo à evolução

Mills propõe que, uma vez que as mudanças climáticas acontecem tão rapidamente, “as mesmas forças seletivas que induziram a transformação do marrom e do branco no inverno poderiam ser ferramentas para a conservação”.

Por exemplo, os lugares quentes que a equipe identificou, incluindo muitas partes do norte da América do Norte e da Eurásia, como o Noroeste Pacífico, são melhores candidatos para a proteção e, portanto, uma chance para as espécies que mudam de cor se recuperarem.

“A evolução acontece mais rápida quando as populações são maiores e quando elas estão conectadas”, disse Mills.

Uma raposa-do-ártico segue a costa de Churchill, em Manitoba.
Foto de Matthias Breiter, National Geographic Creative

Manter as populações de animais brancos e marrons de inverno conectados lhes permitiria “dispersar genes mais protetores e de pelo mais escuro para as populações próximas de animais brancos no inverno, para ajudá-los na adaptação quando a cobertura da neve se tornar cada vez menos frequente.”

Estimular o tamanho das grandes populações e a conectividade natural por essas paisagens “deveria ser o nosso primeiro e maior esforço”, acrescentou Mills.

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