Por que as ostras fecham durante a Lua cheia – e outros efeitos lunares curiosos nos animais

Novas pesquisas mostram que a Lua produz impactos inusitados e fascinantes nos animais marinhos, como ostras, anelídeos e até o plâncton.segunda-feira, 3 de junho de 2019

Lua cheia exerce um grande impacto sobre os animais, sobretudo os marinhos.

Estudos recentes mostram que muitos tipos de animais têm relógios biológicos estreitamente sintonizados com as fases da Lua, o que provoca padrões de comportamento fascinantes e, por vezes, bizarros.

Além de revelar aspectos desconhecidos da vida animal, a pesquisa ainda tem implicações para um melhor entendimento dos relógios circadianos presentes em todos os animais, inclusive no homem.

A evolução dos primeiros relógios circadianos ocorreu no oceano, então estudá-los em animais marinhos pode nos revelar muito sobre sua evolução, funcionamento e interação uns com os outros, explica Kim Last, pesquisador da Associação Escocesa de Ciências Marinhas.

Zooplâncton

Os zooplânctons, que são minúsculos, participam da maior migração do mundo, que ocorre todas as noites quando nadam em direção à superfície para se alimentar de algas. Essas minicriaturas são a presa de animais muito maiores que caçam por meio da visão. Dessa forma, para evitar sua predação, o zooplâncton mergulha nas profundezas ao amanhecer.

“Os predadores os seguem até acabar a luz”, afirma Last. Isso requer um intricado ritmo circadiano, geralmente regulado pelo sol. No entanto, no Ártico, onde o sol do inverno não pode ser visto por meses a fio, alguns zooplânctons também possuem um relógio interno ajustado à Lua. Dois, para ser exato.

Quando a Lua do inverno está cheia na região do Ártico, ela fica acima do horizonte por alguns dias (conforme a latitude) e, durante esse período, o zooplâncton mergulha para se proteger de predadores. Contudo, enquanto a Lua está visível, ela também nasce e se põe — e o zooplâncton reage subindo e mergulhando no transcorrer desse ciclo, que leva 24 horas e 50 minutos.

Ostras

Ostras, que abrem as conchas para se alimentar e se reproduzir, também possuem um ritmo lunar, mostra um novo estudo.

Em um experimento recente, pesquisadores franceses monitoraram de perto a largura de abertura das conchas de uma dezena de ostras durante um período de 3,5 meses. A equipe utilizou um dispositivo de alta tecnologia que media a abertura da concha a cada dois segundos, conforme descrito em um estudo publicado no periódico Biology Letters.

Eles descobriram que dois tipos de ostras na Baía de Arcachon, no sudoeste da França, abriam expressivamente mais durante Luas novas e fechavam mais quando a Lua estava cheia. Além disso, as ostras eram capazes de distinguir o quarto crescente e o quarto minguante e abriam significativamente mais (quase 20%) na última fase.

Não se sabe por que as ostras fazem isso, embora poderia ser porque mais algas ou outros alimentos ficam disponíveis durante a Lua nova e no decorrer do ano, afirma Damien Tran, líder do estudo e pesquisador da Universidade de Bordeaux.

O ciclo lunar poderia influenciar a disponibilidade de alimento por seu impacto sobre as marés e, portanto, sobre as correntes marítimas. Quando a Lua está cheia ou nova, ela fica diretamente alinhada entre a Terra e o Sol, exercendo forte atração sobre o oceano e causando assim marés mais pronunciadas, explica David Wilcockson, biólogo marinho da Universidade de Aberystwyth no País de Gales, que não participou do estudo.

Por outro lado, quando a Lua está na fase de quarto minguante, fica bem desalinhada em relação à Terra e ao Sol, produzindo a chamada maré vazante, a mais fraca do ciclo de marés.

Os ritmos das ostras também poderiam estar relacionados a condições favoráveis para a cópula. A Lua, com seu impacto correspondente nas marés e correntes marítimas, faz com que muitos tipos de organismos marinhos copulem em épocas específicas do mês e do ano.

Anelídeos Palolo

Por exemplo, ostras, corais e muitos tipos de animais marinhos procriam com uma “ampla desova” em que liberam esperma e ovos juntos em uma explosão abundante precisamente sincronizada.

Os anelídeos Palolo, que vivem em águas marítimas mornas no mundo todo, praticam um exemplo bem extremo disso.

Os anelídeos Palolo siciliensis, por exemplo, passam a maior parte da vida se alimentando de matéria-orgânica no fundo do mar ou dentro de corais. Entretanto, na primavera austral, a parte posterior de seu corpo se transforma em sacos de ovos ou esperma.

Por dois dias no mês de outubro, eles se separam do resto dos anelídeos e, usando um ocelo interno, nadam em direção à superfície — e à luz da Lua. Exatamente um mês depois, repetem o feito em quantidades ainda maiores durante a fase de quarto minguante da Lua em novembro.

Isópodes Eurydice pulchra

Até mesmo comportamentos comuns podem ter origem na Lua. É o caso do Eurydice pulchra.

Esses bichinhos se enterram na faixa de areia que é coberta por água na maré alta e que seca na maré baixa. Eles possuem um relógio lunar interno que determina que fiquem ativos a intervalos de 12,4 horas, coincidindo com as marés, explica Wilcockson.

Esses isópodes também têm um ciclo mensal e ficam mais ativos durante a Lua cheia e a Lua nova, com correntes mais fortes, e mais calmos durante a fraca maré vazante, afirma ele. Mas eles também têm um ciclo diário ligado ao sol: escurecem durante o dia para se proteger dos raios solares e ficam mais pálidos à noite.

Experimentos de laboratório mostraram que esses efeitos são distintos. “Podemos abolir o ciclo diário e manter os ciclos de marés intactos”, conta Wilcockson.

Pulgas-do-mar

Outra criatura subestimada que vive nas praias britânicas são as pulgas-do-mar (Talitrus saltator).

“Se você perturbá-las durante o dia, elas voltam para a praia e se enterram na areia seca”, afirma Wilcockson. “Se você perturbá-las à noite, elas ficam na areia perto da água para se alimentar do que for trazido pelo mar.”

Wilcockson explica que os cientistas formularam a hipótese de que os crustáceos utilizam as antenas para localização por meio do sol, o que se demonstrou ser o caso das borboletas monarcas. Em um estudo de 2016 publicado na revista científica Scientific Reports, Wilcockson e seus colegas retiraram antenas de pulgas-do-mar e observaram seu deslocamento em ambiente noturno e diurno.

Ao contrário das expectativas, os animais eram capazes de se deslocar muito bem durante o dia sem antenas — presumidamente usando seus cérebros (e a luz através de seus olhos). Contudo, à noite, sem esses apêndices, ficavam totalmente perdidos. O experimento mostrou que pulgas-do-mar possuem relógios independentes para cada corpo celeste, em diferentes partes do corpo.

“As pulgas-do-mar contam com um relógio lunar e um relógio solar nas antenas e no cérebro, respectivamente” acrescenta ele.

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