Animais

Hienas têm má reputação, mas são os predadores mais bem-sucedidos da África

Séculos de histórias retratam as quatro espécies de hiena como carniceiros demoníacos que dão gargalhadas. Está na hora de mostrar a verdade.quarta-feira, 26 de junho de 2019

Por Christine Dell'Amore
As hienas-malhadas socializam em seu refúgio na Reserva Nacional Masai Mara do Quênia. Os pais passam mais tempo brincando com os filhotes que outros carnívoros.

O caçador mais bem-sucedido de toda África é inteligente e amoroso e tem intricadas relações sociais comparáveis às de primatas. Os filhotes das fêmeas-alfas herdam a posição social imediatamente abaixo das mães, semelhante ao que ocorre em uma monarquia.

Acha que estamos nos referindo ao rei da selva? Errou. Vamos falar sobre a hiena.

Animais há muito mal compreendidos, tidos como carniceiros burros e glutões com uma risada demoníaca, as hienas têm um grave “problema de relações públicas”, afirma Arjun Dheer, aluno de Ph.D. do Instituto Leibniz de Pesquisa de Animais Silvestres e Zoológico da Alemanha, que estuda hienas-malhadas na Cratera Ngorongoro, na Tanzânia.

“Sempre que conto a alguém que estudo hienas, a reação imediata é: credo, que nojo, por quê?”.

A reação se deve a séculos de literatura e folclore tradicional — geralmente com lendas de bruxaria, escavações de túmulos e distúrbios sexuais — que impingiram um “desgosto pela hiena profundamente enraizado na psiquê humana”, afirma ele.

Um lobo-da-terra e seu filhote saem da toca em Duba Plains Camp, em Botsuana.

Aristóteles descreveu a hiena como “grande apreciadora de carne em putrefação”. Hemingway rotulou o animal como “um hermafrodita devorador canibal de mortos”. E Roosevelt o caracterizou como uma “mistura singular de covardia abjeta e ferocidade extrema”, segundo um estudo de 1995 sobre o status da hiena ao longo da história. Plínio, o Velho, antigo escritor romano, escreveu que as hienas são capazes de congelar outros animais por meio de magia.

Com uma fama tão desagradável, não surpreende o fato de que as hienas foram igualmente denegridas na cultura popular. O mais novo filme O Rei Leão, que será lançado pela Disney em 19 de julho, mais uma vez retrata um trio de hienas-malhadas como ajudantes aliadas do vilão Scar. 

Embora as maiores vítimas da maledicência sejam as hienas-malhadas do leste e do sul da África, as quatro espécies são geralmente consideradas um único grupo. A hiena-castanha, a espécie mais rara, é nativa do sul da África; os lobos-da-terra são animais monogâmicos que se alimentam de insetos encontrados no leste e no sul da África; e a hiena-riscada, a espécie menor e menos estudada, vive em populações fragmentadas ao longo da Ásia e norte da África.

Hienas-malhadas brigam com leões na Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia.

É sobretudo o medo e a falta de conhecimento sobre as hienas, além da aparência peculiar e tendências carniceiras, que deram origem a tantos estereótipos negativos, afirma Dheer.

Contudo, prossegue ele, já está na hora de mostrar a verdade.

Mito: as hienas são burras.

O trio de hienas do filme O Rei LeãoShenzi, Banzai e Ed, ficam à espreita nas sombras do cemitério de elefantes. Ed é burro, estrábico, tem a língua dependurada para fora e morde a si mesmo. Sob a liderança de Scar, as hienas contribuem para o colapso de todo o ecossistema da Pedra do Reino.

Na realidade, esses predadores do topo da cadeia alimentar são fundamentais para controlar as populações de presas e prevenir a proliferação de doenças, sobretudo por ingerir até o último pedaço de um animal, explica Dheer.

As hienas-castanhas e as hienas-malhadas vivem em clãs bastante unidos liderados por um animal alfa (geralmente uma fêmea), esses clãs são compostos também por fêmeas de menor hierarquia social, machos e jovens. O tamanho do clã depende predominantemente da disponibilidade de presas, variando de 10 membros, em alguns clãs que vivem no deserto, até cerca de 120 animais, na região com abundância de recursos da Reserva Nacional Masai Mara do Quênia e Ngorongoro, afirma Dheer.

Hienas-malhadas alimentam-se de restos de uma vaca no Quênia. Os animais são habilidosos predadores e podem caçar individualmente ou em bandos.

Esses grupos volumosos e intricados tornam as hienas-malhadas “os carnívoros mais socialmente complexos do mundo”, acrescenta Dheer.

“Não é possível manter tantos vínculos sociais sem inteligência”, acrescenta Ingrid Wiesel, fundadora do Projeto de Pesquisa da Hiena-Castanha, que estuda hienas-castanhas na costa da Namíbia.

Por exemplo, após capturar e colocar uma coleira com transmissão de rádio em uma hiena-castanha em seu local de estudo, ela demorou seis anos para conseguir capturar outra hiena.

“Elas sempre superam sua inteligência”, afirma ela.

Mito: as hienas riem.

As vocalizações mantêm intactas as sociedades de hienas: o grito característico serve para recrutar mais hienas durante uma briga com leões, anunciar a aptidão física de um macho ou simplesmente informar localizações a outras hienas. É nessas ocasiões que se ouvem as gargalhadas ou risadinhas tão mal compreendidas, exclusivas das hienas-malhadas.

Por séculos, escritores descreveram esse som como enganoso ou malicioso. “Rirei feito uma hiena quando você estiver prestes a dormir”, escreve Shakespeare na obra Do jeito que você gosta.

Na verdade, não é um sinal de felicidade: um animal de menor hierarquia social produz o som semelhante a uma risada quando está aborrecido ou estressado, esclarece Dheer.

Uma hiena-castanha se alimenta de uma carcaça no Santuário de Rinocerontes Khama em Botsuana.

Mito: hienas alimentam-se apenas de carniça.

Como conta a história: “o leão é o rei e a hiena é um bicho esquivo, detestável e sujo porque se alimenta de carniça”, afirma Christine Drea, antropóloga evolucionária da Universidade Duke, que estudou hienas-malhadas.

Ela lamenta a resistência do mito, “mesmo com provas evidentes do contrário diante de todos”.

A verdade? As hienas são excelentes caçadoras e é mais provável que suas presas abatidas sejam roubadas por leões do que o inverso. No Serengueti, na década de 1970, o zoólogo Hans Kruuk descobriu que, quando hienas-malhadas e leões dividem uma carcaça, as hienas são responsáveis pela caça 53% das vezes.

As hienas-malhadas são capazes de caçar um búfalo e filhotes de elefantes, caçando sozinhas ou em bandos — uma “versatilidade que lhes oferece uma vantagem em relação a seus competidores”, afirma Dheer.

Isso não significa que hienas ignorem alimento disponível, como destaca Drea: “Qualquer carnívoro que se preze se alimenta de carniça, se tiver a oportunidade”.

E elas são excepcionais nesse aspecto. Os maxilares semelhantes a marretas estilhaçam ossos, ao passo que os estômagos altamente ácidos desintegram os fragmentos.

Um filhote de hiena-malhada com 11 semanas de vida senta sobre sua mãe na Reserva Nacional Masai Mara. Devido à capacidade das hienas de esmagar e digerir ossos, seu leite tem um teor muito alto de cálcio.

Mito: as hienas são fracas.

Nos desertos áridos do sul da Namíbia, as hienas-castanhas possuem uma área de ocorrência que se estende por até quase 3 mil quilômetros quadrados. Um animal percorre em média 24 quilômetros por noite em busca de alimento, geralmente filhotes de focas, de acordo com Wiesel.

Tal resistência se deve em parte ao formato aerodinâmico de seu corpo. As patas traseiras curtas e grossas aumentam a eficiência energética e permitem que os animais se desloquem rapidamente e com facilidade. As hienas ainda contam com corações e pulmões fortes e grandes, além de narinas amplas que facilitam a troca de oxigênio.

Mito: as hienas cheiram mal.

O povo Kaguru da Tanzânia acredita que hienas escavam túmulos, o que, segundo a crença, é o motivo do mau cheiro. Na realidade, as hienas não exalam muito cheiro, contam Dheer e Wiesel.

Uma hiena-riscada caminha pelo Delta de Okavango em Botsuana. A espécie é classificada como quase ameaçada.

“Se o assunto for o mau cheiro de animais, os cães-selvagens-africanos rolam sobre as próprias fezes”, brinca Dheer.

A glândula anal das hienas de fato secreta uma substância que os cientistas apelidaram de “creme de hiena”, que é uma pasta utilizada para marcar o território e tem cheiro de húmus.

Mito: as hienas são hermafroditas.

As hienas fêmeas são mães excepcionais, dedicando mais tempo a seus filhotes que a maioria dos carnívoros. Não somente elas amamentam os filhotes com leite extremamente rico em cálcio por dois anos, mas também brincam de luta com a cria por horas a fio — outro comportamento sofisticado semelhante ao de primatas.

No entanto as hienas-malhadas fêmeas geralmente são confundidas com machos. Elas possuem genitais que se assemelham aos de machos’. Quando duas hienas — sejam machos ou fêmeas — se cumprimentam, o animal de maior posição social cheira os genitais do animal de menor hierarquia para reforçar os elos sociais e reduzir o nível de estresse. As fêmeas também urinam, copulam e dão a luz por meio desse pseudopênis.


É esse traço físico particular que manchou a imagem pública da hiena. O estudo de 1995 indicado acima revela ainda que, na obra Physiologus, um texto cristão do século 2 d.C., há alegações de que a hiena alterna o sexo entre macho e fêmea e, assim, “é impura porque possui duas naturezas”.

Verdade: as hienas são vulneráveis à extinção.

Em razão da perda do habitat e da caça generalizada, as  hienas-riscadas e hienas-castanhas são classificadas como quase ameaçadas de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, órgão que define a situação de conservação das espécies.

E, embora o lobo-da-terra e a hiena-malhada estejam na lista das espécies pouco preocupantes, “eu estou preocupado,” afirma Dheer.

As hienas-malhadas estão extintas localmente em grande parte do sul, no oeste e na região central da África. Perseguidas por produtores rurais e caçadores, ao que parece, sua população está em declínio fora das áreas de proteção, segundo Dheer.

“Não estou muito otimista com o futuro delas, principalmente em vista da percepção pública negativa”, conta ele.

É por isso que ele e seus colegas trabalham arduamente para melhorar a imagem das hienas, sobretudo nas redes sociais.

“Se pessoas que não fossem cientistas pudessem defender esses animais, seria mais fácil para o público entender que eles não são maus”, lamenta Wiesel.

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