Animais

Esse é o único local da Terra onde os leões vivem sós

Nos inóspitos desertos do norte do Quênia, bandos são desnecessários. Então, os leões encontraram outra maneira de sobreviver.domingo, 18 de agosto de 2019

Por Christine Dell'Amore
Uma leoa chamada Nadala descansa em uma árvore na Reserva Nacional de Samburu, no Quênia, onde os leões levam vidas solitárias.

Ela foi batizada de Magilani — “a esperta” — porque precisou usar a sua inteligência para sobreviver sozinha nos inóspitos desertos do norte do Quênia.

grande felina não somente conseguiu sobreviver, como também criou filhotes enquanto dividia a terra pacificamente com o povo samburu, uma tribo de pastores seminômades.

“Eu me perguntava: como essa leoa fez isso tudo sozinha? Ela foi perfeitamente capaz de sobreviver”, indagou Shivani Bhalla, fundadora e diretora-executiva da Ewaso Lions, organização que promove o convívio entre o homem e animais silvestres presentes ao longo do rio Ewaso.

Quando Bhalla se mudou para a região de Samburu em 2002, “esperava encontrar grandes bandos de leões. Na infância, meu pai me levava a safáris na Reserva Nacional de Masai Mara”, afirma ela.

No entanto moradores lhe contaram que a população de aproximadamente 50 leões, que se desloca entre áreas de proteção e da comunidade, vive só — a primeira população solitária do tipo a ser descrita cientificamente.

“Todo mundo considera os leões como os únicos felinos sociais, mas eles não são tão sociais aqui”, conta Bhalla, cuja pesquisa foi publicada em sua dissertação de doutorado.

Em outras palavras, viver em bandos não é necessariamente a norma para os leões.

As descobertas de Bhalla condizem com pesquisas existentes que mostram que os leões são “surpreendentemente versáteis”, afirma Meredith Palmer, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Princeton, que estuda as interações entre os leões e suas presas.

Essa mãe leoa, chamada Uni, é um dos leões solitários do norte do Quênia.

Essa capacidade de adaptação a uma diversidade de ambientes com a presença humana será crucial para o futuro da espécie, ressalta Palmer — o leão-africano desapareceu de 94% de sua área de ocorrência histórica, sobretudo devido à fragmentação do habitat, à perda de espécies de presas e a conflitos com o homem. Podem restar apenas 20 mil na natureza.

“Especialmente no leste da África, se os leões quiserem sobreviver, precisarão aprender a conviver com as pessoas”, explica ela. Ter uma existência solitária pode ajudá-los.

R-e-s-p-e-i-t-o

Além de Magilani, que provavelmente morreu em 2011, Bhalla colocou coleiras de identificação em duas outras leoas, Nadala e Naramat. Sua área de pesquisa se estende por aproximadamente 3,1 mil quilômetros quadrados do habitat dos leões, nas Reservas Nacionais de Samburu, Buffalo Springs e Shaba, além de cinco unidades de conservação comunitárias, em que a população local é beneficiada com a proteção da fauna silvestre, como em atividades de ecoturismo.

Naramat, que criou filhotes de três ninhadas na área coberta por este estudo, agora vive a cerca de 100 quilômetros ao sul, em outra unidade de conservação comunitária, onde está com uma nova prole.

Após acompanhar a movimentação de Naramat pelos últimos anos, Bhalla e seus colegas perceberam que ela conhece bem seu habitat, abandonando rapidamente regiões em que se sente insegura e descobrindo como se deslocar entre áreas de proteção e áreas povoadas.

As leoas mães de Samburu também são muito astutas. Por exemplo, em bandos de leões, as fêmeas normalmente deixam os filhotes com “babás”, mas as leoas de Samburu levam os filhotes para onde quer que forem, até para caçar, afirma Bhalla. Aliás, Magilani ensinou seu filhote de três meses a matar um pequeno antílope, um feito “notável”, prossegue ela.

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Também não são observados leões machos à toa por muito tempo. Eles também são caçadores bastante ativos e solitários; machos e fêmeas se encontram por um curto período, apenas para copular.

“Se um leão de Masai Mara fosse levado para Samburu, ele não sobreviveria um dia. Eles são gordos e mimados”, brinca ela. “Os leões de Samburu merecem muito respeito”.

Dinâmica familiar

A maioria das pessoas acha que “são os bandos que definem o que é ser um leão”, afirma Palmer, o que se deve ao fato de os primeiros estudos de longo prazo sobre leões terem sido conduzidos no leste da África, especificamente na Reserva Nacional de Masai Mara e no Parque Nacional do Serengueti, Palmer afirma.

Nessas savanas ricas em presas, a vida é boa — tão boa que novos territórios são supervalorizados. Viver em bandos permite que os leões machos defendam seus territórios contra machos invasores na esperança de garantir um pedacinho no paraíso e, além disso, a estrutura rígida do grupo protege os filhotes, segundo pesquisa do Centro de Leões da Universidade de Minnesota, onde Palmer fez seu doutorado.

Essa pesquisa ainda constatou um “elevado grau de versatilidade no comportamento de leões sob condições sociais e ambientais extremamente diversas”, afirma Palmer.

Por exemplo, bandos menores costumam conquistar grandes territórios nas planícies mais áridas do leste da África, onde precisam se deslocar mais para encontrar alimento. Por outro lado, bandos maiores defendem territórios menores, porém de maior qualidade, próximos a valiosas fontes d’água com abundância de presas.

Aliás, existem inúmeras razões para nem sequer formar bandos, como já percebeu a maioria das espécies de grandes felinos do mundo. Uma das razões é que não é preciso dividir o alimento — sobretudo se for escasso, como ocorre na árida região de Samburu.

Além disso, seria difícil para um bando de leões manter um determinado território em terras fragmentadas, que se dividem entre áreas da comunidade e áreas de proteção, outro motivo pelo qual esses grandes felinos vivem solitários (Saiba como "cercas-vivas" impedem leões de matar gado na Tanzânia).

Seu estilo de vida solitário evidentemente dá certo, Bhalla acrescenta: “Alguns leões de Samburu sobrevivem até os 16 anos de idade, o que é incrível para esse ambiente tão hostil.” Para comparar, uma fêmea do Serengueti pode viver até 19 anos.

Ganhos mútuos

Muitas pessoas de Samburu protegem os grandes felinos que vivem entre elas — e batizaram Naramat de “a carinhosa” por seus excelentes cuidados maternais, segundo Bhalla.

Esse apreço proporciona a esses leões uma chance maior de sobrevivência, afirma ela. “Quanto mais as pessoas conhecerem e derem nomes aos leões, mais responsabilidades assumirão por eles”, conta ela. Dois leões morreram em conflitos com moradores na região em 2018, o que é uma redução, comparado às cinco mortes ocorridas em 2017.

Palmer alega que o sucesso dos leões de Samburu é um bom presságio para as populações do leste e do sul da África, onde não há mais vagas nos parques para esses predadores, que são obrigados a adentrar áreas ocupadas pelo homem.

“Se os leões forem capazes de conviver em paz com as comunidades e as comunidades forem capazes de conviver em paz com os leões, ambos serão beneficiados”, afirma ela.

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