Lagartixas com ‘pés de folha’ encontradas vivendo em vulcão remoto

Um amplo trabalho de identificação de todos os répteis em Galápagos revelou três novas espécies — e uma provavelmente já está ameaçada.

Sunday, December 22, 2019,
Por Jason G. Goldman
O habitat total da espécie Phyllodactylus andysabini está restrito a uma área de menos de 258 ...
O habitat total da espécie Phyllodactylus andysabini está restrito a uma área de menos de 258 quilômetros quadrados em um único vulcão.
Foto de Lucas Bustamante

As Ilhas Galápagos são famosas por seus répteis distintos, de tartarugas-gigantes a iguanas-marinhas que vivem em terra firme. Agora, os cientistas anunciaram a descoberta de três novas lagartixas para adicionar à lista — e uma delas vive em um vulcão.

Uma equipe de herpetólogos norte-americanos e equatorianos encontrou recentemente uma das lagartixas com pés em formato de folha durante uma cansativa expedição ao vulcão Wolf, o mais remoto dos cinco vulcões de Isabela, a maior ilha do arquipélago de Galápagos.

“Precisamos realizar uma expedição longa e dispendiosa e, quando chegamos lá, ainda temos que escalar as encostas do vulcão, o que exige muito esforço e uma grande equipe”, conta o herpetólogo Alejandro Arteaga, diretor de ciência do Tropical Herping, grupo de pesquisa e ecoturismo sediado no Equador. A organização liderou um trabalho de três anos para documentar todos os répteis de Galápagos para a produção de um guia de campo inédito sobre os répteis do arquipélago equatoriano.

Quando a equipe partiu para o vulcão Wolf, seu objetivo não era procurar lagartixas, mas fotografar a iguana-terrestre-rosada que habita a região do vulcão, uma espécie descrita formalmente há cerca de uma década apenas, diz Arteaga. Ainda assim, os pesquisadores acreditavam que outros répteis na área também poderiam ser espécies novas, então decidiram procurar algumas lagartixas também.

O palpite deles estava certo. Eles chamaram a nova espécie de lagartixa-de-sabin, ou Phyllodactylus andysabini, em homenagem ao filantropo norte-americano Andrew Sabin, cuja fundação sem fins lucrativos ajudou a financiar a expedição. Como todas as lagartixas do gênero Phyllodactylus, os dedos desses animais lembram as folhas de ginkgo biloba. Ao todo, o projeto de três anos, financiado por diversas organizações sem fins lucrativos internacionais, documentou em Galápagos 12 espécies de lagartixas com pés em formato de folha — onze das quais são encontradas somente lá e em nenhum outro lugar.

Essa pesquisa é importante porque cerca de metade das 48 espécies de répteis das ilhas corre risco ou já está ameaçada de extinção, e saber mais sobre elas e as regiões que habitam pode ajudar cientistas e governos a traçarem estratégias de conservação mais eficazes. Por exemplo, a área de alcance total da espécie P. andysabini é de apenas 248 quilômetros quadrados, tornando-a vulnerável aos fluxos de lava (a última erupção ocorreu em 2015).

“Combinando isso ao fato de ainda haver predadores que foram introduzidos na área, especialmente gatos e ratos negros”, diz Arteaga, “definitivamente a espécie se qualifica como ameaçada”.

A lagartixa da espécie Phyllodactylus maresi foi descrita como única, mas anteriormente acreditava-se que era uma subespécie.
Foto de Jose Vieira

Em nome da ciência

A lagartixa-de-sabin, juntamente com a iguana-terrestre-rosada e uma espécie de tartaruga-gigante também restrita ao vulcão Wolf, Chelonoidis becki, agora faz o norte de Isabela ter três tipos de répteis endêmicos. “Ninguém consegue responder [ainda] por que o norte de Isabela é tão especial”, diz Arteaga.

Enquanto isso, a segunda nova espécie de Isabela, chamada lagartixa-de-simpson, Phyllodactylus simpsoni, foi identificada pela primeira vez como uma espécie após uma expedição de 2014 liderada pelo herpetólogo equatoriano Omar Torres-Carvajal. Como ele nunca publicou uma descrição formal da lagartixa, Arteaga e seus colegas retomaram o trabalho de onde ele parou, batizando a espécie em homenagem a Nigel Simpson, um dos fundadores da Fundación Jocotoco, organização equatoriana de conservação e patrocinadora da expedição.

A terceira nova espécie, a lagartixa-de-mares, Phyllodactylus maresi, não é tecnicamente nova, pois foi descrita em 1973 como uma subespécie da Phyllodactylus galapagensis. Ela foi então batizada em homenagem ao empresário italiano Lodovico Mares, que financiou a expedição que descobriu o animal em uma ilhota também chamada Mares — em homenagem a mesma pessoa — perto da Ilha de Santiago. Mas o sofisticado sequenciamento genético da equipe revelou que a lagartixa é realmente uma espécie diferente.

Contudo é intrigante o fato de os pesquisadores terem descoberto a lagartixa-de-mares tanto na ilha de Santiago como na de Marchena, separadas por cerca de 64 quilômetros de oceano. Ninguém sabe qual ilha o animal habitou primeiro, mas dados genéticos revelam que a segunda colonização ocorreu recentemente, há menos de meio milhão de anos — o que não é tempo suficiente para que ocorra a formação da espécie.

Compartilhando lagartixas com o mundo

Para Tony Gamble, que não participou da pesquisa, não é de se surpreender que essas lagartixas tenham sido descobertas há tão pouco tempo. A razão é muito simples: geralmente só é permitido o acesso de turistas e pesquisadores às áreas protegidas das ilhas durante o dia, e as lagartixas são animais noturnos.

“Assim que todos os cientistas e turistas vão embora, o sol se põe e as lagartixas saem. Devido a sua biologia, as lagartixas são especialmente difíceis de estudar em Galápagos”, diz Gamble, herpetólogo da Universidade Marquette, em Milwaukee.

Os cientistas queriam fornecer mais informações sobre essas lagartixas e sobre a situação de todos os répteis de Galápagos. Por esse motivo, publicaram o Reptiles of the Galápagos (Répteis de Galápagos, em tradução livre) em mídia impressa e online para download gratuito, e não em uma revista científica tradicional.

“Uma de nossas responsabilidades é traduzir a ciência”, diz Lucas Bustamante, diretor de fotografia da Tropical Herping, acrescentando que muitos dos financiadores do livro fizeram da comunicação científica a principal prioridade da pesquisa. “Esse é o futuro da conservação ambiental”, acrescenta ele.

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