Cuidado onde pisa: cobras-cegas encontradas no Brasil podem ter saliva venenosa

A existência de veneno é quase inédita em anfíbios, tornando extremamente raras essas criaturas parecidas com indefesas minhocas.

Thursday, July 9, 2020,
Por Jason Bittel
A cobra-cega mexicana (na imagem, um indivíduo mantido no zoológico de St. Louis, em Missouri) é ...

A cobra-cega mexicana (na imagem, um indivíduo mantido no zoológico de St. Louis, em Missouri) é uma das 200 espécies conhecidas de anfíbios subterrâneos.

Foto de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Essas criaturas com dentes parecidas com minhocas chamadas de cobras-cegas possuem a pele lisa e brilhante e são semelhantes a cobras. Ainda assim, os cientistas ficaram surpresos ao descobrir que alguns desses animais sem patas podem ter saliva venenosa — possivelmente o primeiro organismo com essa característica conhecido entre anfíbios.

Quase 200 espécies de cobras-cegas rastejam por florestas tropicais em todo o mundo, como a Idiocranium russell, com comprimento de quase 9 cm, com ocorrência em Camarões, e a Caecilia thompsoni , gigante com cerca de um metro e meio de comprimento, presente na Colômbia.

A maioria desses animais vive embaixo da terra e é por isso que “as cobras-cegas talvez sejam o grupo mais desconhecido de vertebrados”, afirma Carlos Jared, biólogo evolucionista do Instituto Butantan, em São Paulo, autor de um novo estudo sobre esses animais. Algumas espécies são tão adaptadas à vida subterrânea que perderam completamente os olhos.

Os cientistas já sabiam que as cobras-cegas possuem três fileiras de dentes afiados — duas em cima e uma embaixo — que provavelmente auxiliam os predadores a capturar e engolir minhocas. Contudo, ao analisar cobras-cegas capturadas no Brasil, Jared descobriu um conjunto de glândulas dentárias nunca antes descrito que produz saliva e talvez enzimas venenosas. Entretanto, adverte ele, é necessária uma análise mais detalhada para confirmar se a saliva da cobra-cega é de fato venenosa.

Se confirmada a hipótese, as repercussões seriam impressionantes, afirma Emma Sherratt, bióloga evolucionista da Universidade de Adelaide, na Austrália, que não participou do estudo.

Por exemplo, é possível que o veneno em anfíbios e répteis tenha evoluído de forma independente, o que reformularia o conhecimento sobre a evolução do veneno. Ele afirma que a descoberta também apresenta um mistério intrigante: por que sapos e salamandras também não têm saliva venenosa?

Um espécime de cobra-cega gigante (Caecilia pachynema), exposto em museu, mostra suas três fileiras de dentes.

Foto de Alejandro Arteaga

O único outro anfíbio peçonhento conhecido é o da espécie Corythomantis greeningi, também encontrado no Brasil, que, “pica” através de uma série de glândulas tóxicas e espinhos afiados em sua face.

Escavadores especializados

Os cientistas notaram a presença dessas glândulas dentárias nas cobras-cegas da ilha Frigate em 1935, mas as confundiram com glândulas mucosas que são mais comuns e abundantes nesses animais.

As glândulas na cabeça da cobra-cega, por exemplo, secretam um lubrificante para facilitar sua movimentação pelo solo, afirma Jared. Por outro lado, as caudas das cobras-cegas possuem glândulas que secretam veneno, provavelmente para desencorajar os predadores de caçá-las por suas trilhas subterrâneas

Para a pesquisa, Pedro Luiz Mailho-Fontana, principal pesquisador do estudo, biólogo evolucionista do Instituto Butantan, e sua equipe conduziram análises em amostras de saliva de duas cobras-cegas adultas da espécie Siphonops annulatus para identificar as substâncias químicas presentes. Eles descobriram uma família de enzimas chamada fosfolipase A2, abundante em criaturas peçonhentas, como vespas, escorpiões e cobras.

A equipe sacrificou quatro espécimes para estudar a composição física das estruturas das glândulas, examinando dois dos animais em microscópio eletrônico, de acordo com o estudo publicado em 3 de julho no periódico iScience.

A ideia era estudar mais animais, mas é difícil encontrar cobras-cegas — podem ser necessárias até 20 horas para localizar um desses escavadores especializados e retirá-lo do solo, afirma Mailho-Fontana.

Para que serve a saliva tóxica?

Quando conseguirem mais espécimes, Mailho-Fontana espera trabalhar em colaboração com especialistas nas áreas bioquímica e farmacológica para desvendar as reais funções das glândulas. Mas ele suspeita que a saliva das cobras-cegas possa ajudar a neutralizar as minhocas gigantes que são suas presas, bem como no processo de digestão.

Embora muitos imaginem ferrões de abelha e presas de cobra como apêndices inoculadores de veneno, Mailho-Fontana afirma que diversos venenos evoluíram a partir da saliva. No início, os líquidos na boca podiam ter uma função de lubrificação, depois passaram a auxiliar melhor a digestão e, por fim, desenvolveram a capacidade de provocar danos. Alguns outros animais com saliva venenosa incluem cobras, dragões-de-komodo e mamíferos como musaranhos, lóris-lentos e morcegos.

Alejandro Arteaga, biólogo e presidente da Tropical Herping, empresa de turismo especializada na observação de répteis e anfíbios, contou por e-mail que foi mordido várias vezes por cobras-cegas e suas bocas semelhantes à do Alien no filme e não sentiu nenhum efeito duradouro “além da dor na hora da perfuração mecânica pelos dentes”.

Ele concorda com os autores que, se existir, o veneno provavelmente se adaptou para ajudar as cobras-cegas a dominar ou dissolver suas presas e não para se defender de predadores, afirma.

‘Sempre nos surpreendendo’

Kevin Arbuckle, toxinologista evolutivo da Universidade de Swansea, no Reino Unido, afirma que é “certamente plausível” que as cobras-cegas sejam peçonhentas, considerando a pouca disponibilidade de estudos sobre os animais.

Mas a análise das enzimas não é “muito convincente”, escreveu Arbuckle por e-mail. “Todas as glândulas bucais secretam uma ampla gama de enzimas, incluindo muitas daquelas especificadas.” Em outras palavras, os animais podem ter essa família de enzimas em sua saliva sem necessariamente ter uma variedade venenosa.

“Dito isto, é evidente que se trata de um artigo interessante e não tenho dúvida de que incentivará muitos estudos posteriores que aperfeiçoarão bastante nossa compreensão de um grupo tão pouco conhecido de vertebrados”, afirma ele.

Sherratt acrescenta que, embora o artigo seja uma “ótima contribuição, nos deixa com muito mais perguntas do que respostas”.

“Mas é isso o que acontece com cobras-cegas”, conta Sherratt. “Estão sempre nos surpreendendo.”

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