Cangurus expostos a herbicida apresentam anormalidades reprodutivas

Estudo sobre a atrazina soma-se a número crescente de pesquisas que revela interferência do agrotóxico no desenvolvimento sexual de vários animais.

Saturday, September 12, 2020,
Por Corryn Wetzel
Os wallabies, animais marsupiais, nascem do tamanho de jujubas e terminam seu desenvolvimento na bolsa de ...

Os wallabies, animais marsupiais, nascem do tamanho de jujubas e terminam seu desenvolvimento na bolsa de suas mães, o que os torna mais vulneráveis a ameaças externas, como poluentes químicos, do que diversos outros mamíferos.

Foto de Auscape, Getty Images

Um herbicida amplamente utilizado pode interferir no desenvolvimento sexual de animais, segundo um número crescente de pesquisas. Aplicada em plantações, gramados residenciais e outros locais para eliminar ervas daninhas, a atrazina é bastante encontrada em baixas concentrações em córregos, lagos e na água potável nos Estados Unidos e na Austrália, os dois países que mais utilizam o agrotóxico.

Estudo publicado no periódico Reproduction, Fertility and Development descobriu que a atrazina prejudicou o desenvolvimento genital de wallabies-de-tammar, marsupiais australianos da mesma família dos cangurus. Quando os pesquisadores ofereceram água potável com o herbicida às wallabies fêmeas ao longo de toda a gestação e durante a amamentação, os filhotes machos desenvolveram pênis menores e mais curtos.

A pesquisa fornece mais evidências de que a atrazina “interfere no equilíbrio hormonal”, afirma Andrew Pask, autor do estudo e geneticista da Universidade de Melbourne. Ele não está apenas se referindo a wallabies, mas a todos os mamíferos, incluindo humanos.

O estudo é o primeiro a abordar os efeitos da atrazina em marsupiais, que geram bebês subdesenvolvidos que depois amadurecem na bolsa de suas mães. O desenvolvimento genital de marsupiais ocorre inteiramente após o nascimento, tornando-se mais suscetíveis a fatores externos como poluição química, afirma Jennifer Graves, pesquisadora de marsupiais da Universidade La Trobe, em Melbourne, que não participou do estudo. Por isso, é provável que esses animais mostrem mais nitidamente os efeitos da atrazina, talvez mais sutis em mamíferos placentários, afirma Graves.

A Syngenta, com sede na Suíça, maior produtora de atrazina, insiste que o produto é seguro. A empresa conduziu seus próprios estudos sobre os impactos da atrazina e alega que “não há evidências substanciais ou convincentes para concluir que, em concentrações ambientalmente relevantes, a atrazina afete adversamente animais silvestres”, escreveu por e-mail Chris Tutino, porta-voz da empresa.

De acordo com Tutino, a concentração de atrazina no estudo de Pask é superior à provavelmente encontrada por wallabies na natureza, e ele considera “um cenário de exposição implausível”. Pask discorda, citando evidências de altos picos nas concentrações de atrazina em córregos australianos. Embora a maior concentração documentada registrada em águas australianas seja de aproximadamente um oitavo da utilizada nesse estudo, os animais podem ficar expostos a mais atrazina ao ingerir plantas pulverizadas com o produto químico, segundo Pask.

Wallabies, como os do Parque Nacional de Narawntapu, podem ser expostos ao herbicida atrazina em córregos e ao ingerir plantas pulverizadas com o produto químico, o que poderia prejudicar seu desenvolvimento sexual.

Foto de Ewen Bell, Nat Geo Image Collection

Desenvolvimento interrompido

A atrazina é o segundo herbicida mais utilizado nos Estados Unidos, onde são pulverizadas mais de 31 mil toneladas todos os anos nas plantações — principalmente de milho, cana-de-açúcar e sorgo. A Austrália, segundo maior mercado do produto químico, utiliza mais de 2,7 mil toneladas a cada ano. A União Europeia, por sua vez, baniuatrazina em 2004 devido à falta de evidências sobre a segurança do produto químico e preocupações com regulamentações sobre sua concentração em bacias hidrográficas.

Nos Estados Unidos, a atrazina é o agrotóxico mais comumente detectado na água de torneira, de acordo com a Environmental Working Group, organização sem fins lucrativos que defende a redução no uso de agrotóxicos e normas mais rígidas para a água potável. Uma análise conduzida em 2010 pela Natural Resources Defense Council, organização sem fins lucrativos, sobre 153 sistemas de abastecimento de água potável em todos os Estados Unidos constatou que mais de um terço apresentava picos nas concentrações de atrazina acima do limite de três partes por bilhão estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Alguns sistemas em Ohio, Illinois e Indiana tiveram picos acima de 10 partes por bilhão em sua água potável.

Segundo Pask, a atrazina costuma acentuar a conversão de testosterona em estrogênio, o que pode desencadear características femininas produzidas pelo perfil hormonal de um animal. Pesquisas sugerem que a atrazina pode causar distúrbios no sistema endócrino, nas glândulas e nos hormônios que regulam tudo, desde o desenvolvimento de órgãos sexuais até a função neural.

Como o sistema endócrino é análogo em todos os mamíferos, estudos como esses revelam possíveis implicações aos humanos também, afirma Jennifer Freeman, toxicologista ambiental da Universidade Purdue, que não participou do estudo sobre os wallabies.

Apesar da falta de extensas pesquisas sobre os efeitos da atrazina à saúde humana, um estudo sobre meninos nascidos no Texas conduzido em 2013 identificou uma associação entre alta exposição de gestantes à atrazina e malformações genitais, como pênis pequenos. Outro estudo conduzido no ano anterior mostrou que mulheres de regiões com uso intenso de atrazina eram mais propensas a ter partos prematuros. Uma revisão conduzida pela Agência de Registro de Doenças e Substâncias Tóxicas do governo dos Estados Unidos em 2003 descobriu que “a exposição materna à atrazina na água potável tem sido associada a baixo peso fetal, defeitos congênitos cardíacos e urinários, bem como deformidades nos membros”.

Até mesmo em concentrações abaixo da norma estabelecida para água potável nos Estados Unidos, a atrazina demonstrou efeitos nocivos a animais. Um estudo de 2002 encontrou formações genitais anormais em sapos machos expostos à água com apenas uma parte por bilhão de atrazina. Um estudo de 2010 revelou que a atrazina poderia alterar o desenvolvimento de órgãos reprodutivos em sapos machos na quantidade de 2,5 partes por bilhão. A maioria desses sapos apresentou baixos níveis de testosterona, contagem anormal de espermatozoides e fertilidade reduzida. Um em cada dez sapos machos se transformou em uma fêmea totalmente funcional.

Segundo os pesquisadores, qualquer interferência na saúde reprodutiva de wallabies-de-tammar pode colocá-los em risco, embora suas populações estejam relativamente estáveis por enquanto.

Foto de imageBROKER, Alamy Stock Photo

Em um estudo anterior liderado por Pask, publicado em 2019, seu grupo constatou que ratos expostos a uma concentração de atrazina considerada “inócua a humanos, segundo observações”, apresentaram ganho de peso e redução na contagem de espermatozoides.

O tratamento da água pode reduzir os níveis de atrazina para consumo humano, mas os animais podem encontrá-la em concentrações muito maiores na natureza. Em córregos australianos próximos a terras agrícolas, a atrazina foi medida em concentrações tão elevadas quanto 53 partes por milhão (53 mil partes por bilhão) após a época da pulverização.

Em terras agrícolas do sudoeste da Austrália, onde vivem os wallabies-de-tammar, os córregos e lagoas com infiltração de atrazina “são algumas das únicas fontes de água permanentes desses animais”, afirma Pask. “Assim, infelizmente, eles percorrem grandes distâncias para beber água nessas fontes contaminadas.”

Efeitos drásticos

Wallabies-de-tammar podem ingerir atrazina ao se alimentar de plantas pulverizadas ou beber água contaminada. Pask e seus colegas ofereceram água normal a 20 wallabies prenhes e água com atrazina na quantidade de 450 partes por milhão (450 mil partes por bilhão) a outras 20 — uma concentração alta, conta Pask, mas ainda um teor que pode ser facilmente encontrado por wallabies na natureza. As fêmeas beberam água à vontade durante a gestação, nascimento dos filhotes e lactação.

A equipe de Pask queria verificar se haveria anormalidades no desenvolvimento dos genitais dos filhotes machos nascidos das fêmeas que ingeriram atrazina e em que medida isso poderia ocorrer. O desenvolvimento do pênis é um bom indicativo do equilíbrio hormonal geral de um animal durante a gestação, pois é facilmente afetado por alterações hormonais, conta Pask.

Os filhotes nascidos de mães que beberam água contaminada tinham pênis 20% mais curtos e significativamente mais delgados do que o grupo de controle, e os genes responsáveis pela função testicular normal também apresentaram alterações. Esses resultados sugerem que houve desequilíbrio hormonal durante o início do desenvolvimento embrionário, de acordo com o artigo.

“Foi bastante surpreendente observar efeitos tão drásticos”, afirma Pask.

Manejo de marsupiais

Os wallabies-de-tammar machos atingem a idade reprodutiva aos dois anos, então os pesquisadores ainda não sabem se ou como a exposição à atrazina afetará a reprodução. Contudo Pask acredita que pênis menores dificultem a fecundação.

“Foram constatados efeitos drásticos”, afirma Jennifer Sass, cientista sênior e toxicologista da Natural Resources Defense Council. Encontrar anormalidades significativas no desenvolvimento de wallabies, ainda que em doses elevadas, é “bastante assustador”, afirma Sass, em parte devido ao amplo uso do produto químico e porque seus efeitos no desenvolvimento de mamíferos não são totalmente compreendidos.

Tutino discorda, entretanto, afirmando que “quase 7 mil estudos concluíram que a atrazina é segura a humanos e à natureza em níveis relevantes de exposição”.

Os wallabies-de-tammar são atualmente considerados uma espécie “menos preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, mas estão sujeitos a cada vez mais ameaças à medida que seus habitats, as pradarias, são substituídos por fazendas e propriedades rurais. “Quaisquer novas pressões sobre uma espécie que dificultem sua reprodução podem gerar impactos profundos”, afirma Pask.

O próximo passo de sua pesquisa, conta Pask, é conduzir mais estudos com quantidades mais baixas de atrazina para determinar a dose mínima prejudicial. Ele espera que sua pesquisa possa informar em que época e de que maneira os agrotóxicos podem ser pulverizados nas regiões agrícolas da Austrália — que é o habitat de muitos marsupiais e onde a atrazina é utilizada mais intensamente.

“É preciso ao menos considerar esses resultados nos planos de manejo de marsupiais para algumas das espécies mais ameaçadas”, afirma Pask.

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