Sangue animal vem em um arco-íris de cores – eis o porquê

Do azul leitoso ao verde limão, organismos desenvolveram diferentes tipos de sangue – e maneiras de transportar oxigênio pelo corpo.

Publicado 11 de mar. de 2022 13:14 BRT
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O sangue azul dos caranguejos-ferradura-do-atlântico é extraído no Laboratório Charles River em Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos. Todos os anos, as companhias farmacêuticas recolhem meio milhão de caranguejos, retiram seu sangue para coletar uma substância valiosa para a saúde humana, e os devolve ao oceano.

Foto de Timothy Fadek, Redux

Seja um caracol minúsculo ou uma baleia imensa, a maioria dos organismos vivos dependem de sangue fluindo pelo corpo para viver.

Esse precioso fluido combate infecções, fornece nutrientes e gases para órgãos e transporta resíduos. Mas o que muitos de nós imaginamos como sangue, vermelho e cheio de ferro, por exemplo, difere muito entre espécies.

Alguns crustáceos, lulas e polvos, por exemplo, têm sangue azul devido à hemocianina proteica, substância que contém cobre e  transporta o oxigênio no corpo desses animais, diz Stephen Palumbi, biólogo marinho da Universidade de Stanford, nos EUA. Em animais marinhos, a hemocianina é incolor, mas fica azul quando se liga com oxigênio.

Algumas lulas, como a lula Lolliguncula brevis (foto acima feita no Laboratório Marinho do Espécime do Golfo e no Aquário) têm sangue azul porque contém cobre metálico.

Foto de Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

Por que nosso sangue é vermelho

Em humanos, é a hemoglobina proteica que carrega oxigênio. “A hemocianina é apenas uma maneira diferente de mover oxigênio”, diz Palumbi por e-mail. “Muitas vezes, a evolução inventa coisas diferentes para o mesmo propósito."

A hemocianina, que evoluiu há quase 2,5 bilhões de anos, serviu originalmente para desintoxicar oxigênio para organismos primordiais em ambientes anaeróbicos, ou de baixo oxigênio, na Terra, diz Christopher Coates, imunologista comparativo da Universidade de Swansea, no País de Gales, Reino Unido.

Mais tarde, quando a atmosfera ficou mais rica em oxigênio, a hemocianina evoluiu novamente para fornecer oxigênio para todo o corpo de um organismo.

A hemoglobina evoluiu muito mais tarde, possivelmente cerca de 400 milhões de anos atrás. Coates diz que provavelmente porque os vertebrados têm sistemas respiratórios mais complexos do que organismos simples.

De fato, o sangue da maioria dos mamíferos, peixes, répteis, anfíbios e aves é vermelho por causa da hemoglobina, cuja composição é feita de hemoproteínas, ou moléculas contendo ferro que se fundem com oxigênio.

Moluscos e peixes antárticos: sangue de cor roxo rosado

A hemeritrina é outro pigmento que contém ferro que se liga a moléculas de oxigênio e dá uma tonalidade roxa rosada ao sangue de alguns moluscos, como ascídias e braquiópodes, animais conhecidos como conchas de lâmpadas, porque se assemelham às primeiras lâmpadas de óleo romanas.

Depois há o peixe-gelo da Antártica, que não tem pigmento sanguíneo graças a uma mutação genética que removeu a hemoglobina de seus corpos. Em seu habitat frígido do sul, o oxigênio é abundante, e o gás se infiltra diretamente nas brânquias e pele dos peixes.

Hemolinfa: o sangue dos insetos

Os insetos, por sua vez, não têm sangue, em vez disso, possuem um fluido parecido chamado hemolinfa, que transporta hormônios e gases pelo seu sistema, exceto oxigênio, que eles absorvem diretamente através de aberturas ao longo da lateral de seus corpos ou costas.

“É como se eles tivessem uma linha de narinas na lateral do corpo”, diz Julie Peterson, entomologista da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos. A hemolinfa pode ter pigmentos amarelos ou verde-azulados, graças às dietas vegetarianas dos insetos.

Sangue como arma

Alguns animais também podem usar o sangue como um mecanismo de defesa teatral chamado sangramento reflexo ou auto-hemorragia, no qual eles começam a sangrar intensamente para afastar predadores.

Lagartos de chifre do sudoeste dos EUA e do México atiram jatos de sangue pelos olhos quando se sentem ameaçados por um predador, como um coiote. O agressor recebe uma surpresa nojenta, enquanto o lagarto vive para esguichar outro dia.

Alguns insetos, como a joaninha asiática multicolorida, têm “líquidos muito nocivos, nojentos e mal-cheirosos”, que se misturam com sua hemolinfa, diz Peterson. Esses animais jorram esse coquetel pelos olhos ou articulações da perna quando perturbados.

[Veja mais animais com defesas fedorentas]

Um parente deles, o apropriadamente chamado besouro de nariz sangrento, vomita uma hemolinfa vermelha, que se parece com sangue, de sua boca com o mesmo propósito.

Um besouro de nariz sangrento libera seu spray defensivo de hemolinfa em Wiltshire, Inglaterra.

Foto de Tony Hamblin, Minden Pictures

Sangue sujo contra as parasitas

Para evitar parasitas, as peles de lagartos escíncidos da Nova Guiné podem ter o que equivale a um sangue sujo. Um acúmulo constante de um pigmento biliar chamado biliverdina, o produto residual de glóbulos vermelhos quebrados, faz com que o sangue, ossos, boca, língua e outras partes do corpo desse animal sejam verde-limão.

Em outros animais, o fígado processaria o biliverdin extra “como o filtro de óleo de um carro”, removendo impurezas para que o motor funcione bem, diz Chris Austin, diretor do Museu de Ciências Naturais da Universidade Estadual de Louisiana, nos Estados Unidos, que descobriu o biliverdin como a causa do sangue verde do lagarto.

Se uma pessoa tivesse uma quantidade semelhante de biliverdin, poderia ser fatal. Então, “por que esses lagartos não estão ictéricos e mortos?” Austin pergunta. Ele teoriza que seus corpos desenvolveram maneiras de lidar com o biliverdin como estratégia para matar parasitas sanguíneos – especificamente os que causam malária.

Nem todos os animais têm sangue

Alguns animais não têm sangue ou sistemas circulatórios porque simplesmente não precisam deles.

As planárias, por exemplo, não possuem um sistema circulatório – a troca de gás ocorre diretamente através da pele. O oxigênio vai direto para os tecidos, enquanto nutrientes são fornecidos pela intestino por difusão.

As águas-vivas e esponjas também recebem oxigênio através da difusão. Para estrelas-do-mar e pepinos-do-mar, a água é um equivalente sanguíneo, movendo nutrientes e gases através por seus corpos por meio de um sistema vascular à base de água.

[Leia por que os animais desenvolveram quatro tipos de esqueletos]

Os animais têm diferentes tipos sanguíneos?

Humanos têm oito tipos sanguíneos, mas não somos os únicos animais que têm essa característica hereditária, diz Jethro Forbes, especialista em cuidados críticos da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell, Estados Unidos, por e-mail.

Os animais selvagens também têm tipos sanguíneos, embora as espécies domésticas sejam as mais bem estudadas. Os gatos têm três tipos sanguíneos, as galinhas têm até 28 e furões domésticos "não parecem ter tipos sanguíneos diferentes", diz Forbes.

Por que a disparidade? É provável que a causa seja pela intensa procriação em cativeiro de furões domésticos, com pouca diversidade genética, enquanto há dezenas de raças de frango, e, portanto, tipos sanguíneos mais variados.

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Quais é a utilidade do sangue animal para as pessoas

Em alguns casos, o sangue animal tem aplicações úteis para a saúde humana. O sangue azul-leitoso, rico em hemocianina, de caranguejos-ferradura-do-atlântico, por exemplo, coágula quando entra em contato com toxinas bacterianas.

Isso o torna uma ferramenta valiosa para garantir que medicamentos ou produtos médicos, particularmente vacinas, sejam seguros e livres de contaminantes.

No entanto, o processo de coleta e sangramento dos caranguejos, até meio milhão são usados por ano, pode matá-los, e isso fez com que o número de indivíduos da espécie caísse na região do meio Atlântico dos EUA nos últimos anos. É por isso que os cientistas estão trabalhando para encontrar alternativas sintéticas que reduzam a necessidade de capturar animais selvagens.

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