População de tigres quase triplicou no Nepal – mas a que preço?

O país agora tem 355 tigres. No entanto, críticos dizem que o foco na conservação colocou os vizinhos humanos em risco.

Por Dina Fine Maron
Publicado 5 de ago. de 2022 14:42 BRT
Um tigre de bengala percorre o Parque Nacional Bardia, no Nepal, uma das áreas protegidas do ...

Um tigre de bengala percorre o Parque Nacional Bardia, no Nepal, uma das áreas protegidas do país para os animais.

Foto de Utopia_88 Getty Images

O Nepal tornou-se o principal candidato do mundo para a conservação de tigres. O país anunciou recentemente que tem 355 dos felinos ameaçados de extinção dentro de suas fronteiras, quase triplicando sua população antes estimada em 121 tigres, em 2009.

Na Cúpula Global do Tigre em São Petersburgo, Rússia, em 2010, todos os 13 países que têm tigres na natureza se comprometeram a dobrar o número desses felinos. Apenas o Nepal atingiu esse objetivo.

Os sucessos do país são em grande parte resultado da “forte adesão do governo” à conservação da espécie e à aplicação de políticas rígidas de combate à caça ilegal, diz Abishek Harihar, vice-diretor do programa de tigres do grupo de conservação de gatos selvagens Panthera, que apoiou a recente iniciativa do Nepal para pesquisar sua população de tigres de Bengala.

No início do século 20, mais de 100 mil tigres percorriam o planeta, mas a perda de habitat eliminou mais de 90% deles, de acordo com o Panthera. O fato do animal ser troféu de caça por suas peles e ossos – usados ​​na China e em outros lugares da Ásia para fazer produtos como “vinho” de osso de tigre, uma bebida tradicional que alguns acreditam que dará ao bebedor a força do animal – também ajudou a reduzir substancialmente as populações de tigres. Hoje, Camboja, Laos, Vietnã e sul da China não têm tigres na natureza. 

No Nepal, a punição por caçar um tigre inclui 15 anos de prisão e uma multa de 10 mil dólares, destaca Harihar. Desde a década de 1970, o país estabeleceu cinco parques nacionais onde vive a maioria de seus tigres. Eles são fortemente patrulhados por funcionários locais e militares. As proteções dos tigres também ajudaram outros animais ameaçados – rinocerontes, elefantes e pangolins, entre outros.

Melhores métodos de amostragem – como armadilhas fotográficas – são responsáveis ​​por algumas das melhorias nos números de tigres do Nepal. Mas também houve um aumento real da população, com o nascimento de mais tigres, explica Harihar. “Certamente, o Nepal chegou muito mais perto de [suas metas de tigres] do que outros países”, diz ele, embora Índia, Butão e Tailândia também tenham obtido ganhos nos últimos anos.

O anúncio do aumento populacional dos tigres no Nepal ocorre depois que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), a autoridade global sobre o status de animais ameaçados de extinção, informar no início deste mês que o número de tigres em todo o mundo está “estável ou aumentando”. A contagem mais recente indica que existem entre 3.726 e 5.578 tigres selvagens – um aumento de 40% em relação à estimativa de 2015. Essa alta é explicada, em grande parte, pelo melhor monitoramento das espécies, e não pelo aumento populacional de animais ameaçados de extinção, observou a IUCN.

Mais tigres significa ameaça para a população?

No entanto, o progresso dos tigres no Nepal teve um custo: alguns críticos dizem que o foco no aumento da espécie está em desacordo com a segurança da comunidade. Nos últimos anos, os ataques de tigres contra a população local que vivem em torno do habitat dos felinos aumentaram, assim como a predação do gado, ameaçando os meios de subsistência. 

Agências governamentais e conservacionistas “não pensaram o suficiente sobre como manter as pessoas seguras nessas comunidades”, alerta Kumar Paudel, diretor da Greenhood Nepal, uma organização sem fins lucrativos de conservação com sede em Katmandu.

“Estou animado para ver o número de tigres”, diz ele, “mas o custo dessa conservação parece muito triste”.

Ataques de tigres em alta

Entre julho de 2021 e julho de 2022, tigres mataram 16 pessoas no Parque Nacional de Chitwan, o principal habitat do grande felino, de acordo com Babu Ram Lamichhane, biólogo do Fundo Nacional para Conservação da Natureza, do Nepal. Em contraste, ele aponta que nos cinco anos anteriores foram 10 mortes resultantes de ataques no parque. 

No mês passado, um tigre atacou e feriu uma mulher de 41 anos no distrito de Bardiya, perto de uma das maiores áreas de habitat do felino, enquanto ela colhia lenha. O incidente, de acordo com o The Kathmandu Post, irritou a comunidade e as pessoas bloquearam a estrada principal, exigindo melhor proteção da vida selvagem. Para dispersar os manifestantes, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo e abriram fogo, causando vários feridos e uma morte.

O grupo de Lamichhane descobriu que os tigres que ferem ou matam pessoas normalmente são fisicamente deficientes ou não têm território – são animais estressados ​​à procura de presas fáceis. O aumento da densidade de tigres, diz ele, força alguns felinos a procurar território em áreas periféricas, onde é mais provável que encontrem pessoas.

Um melhor monitoramento e controle desses animais podem ajudar a reduzir os ataques, explica o especialista, acrescentando que realocar felinos que atacaram pessoas anteriormente não é uma boa solução porque podem prejudicar pessoas em outros lugares.  

A maioria das pessoas que vive ao redor dos parques ainda depende da floresta para suas necessidades diárias, por exemplo, madeira para combustível, diz Kanchan Thapa, chefe de programas de vida selvagem do WWF-Nepal. Portanto, o governo e outros parceiros de conservação devem se concentrar em fornecer opções alternativas de subsistência para essas pessoas, diz ele. 

Com a divulgação dos novos números da população global, a IUCN instou os países a continuar expandindo e conectando áreas protegidas e pediu mais colaboração com as comunidades que vivem dentro e ao redor dos habitats dos tigres.

“O maior problema é a interação humano-tigre”, destaca Paudel, acrescentando que os governos precisam “pensar sobre o custo social da conservação e como todos podemos realmente compartilhar isso”.

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