
A vida das chitas no Serengeti mostrada como nunca: leões, hienas e outras ameaças ao felino mais rápido do mundo
Uma chita fotografada pela equipe de Bertie Gregory no Parque Nacional do Serengueti, no norte da Tanzânia, na África Oriental.
No mundo das aventuras com animais selvagens, Bertie Gregory parece ter feito de tudo. Ele rastreou pumas na Patagônia, nadou ao lado de grandes tubarões brancos sem gaiola na África do Sul e acampou durante uma nevasca gélida de seis dias para observar pinguins-imperadores na Antártida. Mas, até agora, ele nunca tinha experimentado a Tanzânia durante a Grande Migração — uma das últimas migrações de grandes mamíferos da Terra.
Mais de um milhão de animais vagam pelo Serengeti durante essa façanha anual, mas em seu novo documentário especial, – “Chitas de Perto com Bertie Gregory” (em exibição no Disney+), o cineasta de vida selvagem e explorador da National Geographic decidiu filmar o mais ágil de todos: a chita. Dada sua reputação de animal terrestre mais rápido, Gregory presumiu que elas fossem intocáveis no reino animal. Mas depois de observar as chitas na natureza e testemunhar as ameaças naturais e não naturais que elas enfrentam todos os dias, ele percebeu que estava completamente errado.
Abaixo, Bertie Gregory nos conta sobre as dificuldades extremas que as chitas enfrentam na natureza, juntamente com os desafios técnicos que ele encontrou ao capturar esses felinos como nunca antes foram vistos.
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Embora as chitas sejam conhecidas como os animais terrestres mais rápidos, elas enfrentam muitos desafios na natureza, especialmente quando se trata de caçar.
Uma viagem pelo território das chitas, o animal mais rápido do mundo
NatGeo – Como você acha que “Chitas de Perto” retrata de forma mais precisa esses belos animais?
Bertie Gregory – Como eles são famosos por serem os animais terrestres mais rápidos do mundo e predadores incríveis, presumimos que isso signifique que eles estão no topo da cadeia alimentar. Mas a realidade é que eles não são os principais predadores. Leões e hienas estão em outro nível, e isso mostra o quanto [as chitas] precisam se esforçar para sobreviver.
NatGeo – Uma das primeiras perguntas que você faz no programa é: “Por que é tão difícil para o animal terrestre mais rápido sobreviver?” Quais são algumas das dificuldades que as chitas enfrentam em seus habitats?
Bertie Gregory – Dentro das áreas protegidas, além das chitas, também há animais como leões e hienas. Agora, os leões, por exemplo: são muito bons em viver dentro de áreas protegidas, mas muito ruins em viver fora delas. E isso significa que há uma concentração muito alta de leões dentro de muitas áreas protegidas, [tornando] difícil para as chitas viverem. Portanto, a maioria das chitas na natureza vive fora dessas áreas. Mas quando saem desses locais, elas enfrentam todos os tipos de desafios, seja o conflito com o gado ou a destruição de seu habitat.
Como foram criadas para correr, e não para lutar, sua estratégia quando se encontram em apuros é fugir. E isso significa que precisam de muito espaço — muito mais espaço do que, digamos, uma alcateia de leões. E como todas as nossas áreas protegidas são bolsões isolados, os corredores entre as áreas conectadas são muito importantes. E, em muitos lugares, essa conectividade não existe.

A equipe de filmagem de Gregory observa uma chita em frente ao seu veículo de safári.
NatGeo – O que você acha que diferencia as chitas de outros predadores nessas áreas protegidas?
Bertie Gregory – A maioria dos predadores dentro de um parque nacional africano é noturna ou crepuscular. Eles são mais ativos ao amanhecer e ao entardecer, porque é mais fácil se aproximar furtivamente das presas. Mas as chitas, por não conseguirem lutar contra hienas e leões, precisam caçar no meio do dia. A vida delas é muito difícil. Todos roubam sua comida, e elas precisam caçar em um horário péssimo do dia, quando está muito quente.
NatGeo – No documentário, vemos três chitas machos enfrentando um gnus na chuva. Conte-me um pouco mais sobre a tecnologia que você usou para filmar isso.
Bertie Gregory – Algumas chitas adoram usar a chuva como cobertura porque suas presas baixam a guarda. Então pensamos: ok, câmeras não gostam de água. Como podemos garantir que conseguiremos filmar faça chuva ou faça sol? Como você viu no filme, Tom [Walker, o diretor de fotografia] estava usando um girador de chuva, em que o elemento frontal da lente gira milhares de vezes por segundo para basicamente espirrar a água para fora. Então, eu usei uma abordagem muito menos tecnológica [com o drone] e basicamente preenchi todos os buracos com selante de banheiro.
Felizmente, ambos funcionaram. O que foi incrível foi que esse plano ridículo deu certo. As chitas fizeram uma caçada incrível sob chuva forte, o que nunca havia sido filmado do início ao fim dessa forma antes.
NatGeo – Você já havia enchido um drone com selante antes?
Bertie Gregory – Nunca! É uma ideia idiota! Eu realmente não achei que funcionaria. Eu já havia pilotado drones na chuva antes e sempre achei que eles eram uma espécie de bomba-relógio. Sempre que eu mandava o drone para fora, pensava: “essa pode ser uma missão sem volta”. Mas todas as vezes ele voltava, muito molhado, mas com o cartão de memória intacto.

Uma chita caçando debaixo de chuva – uma imagem raríssima que nunca antes havia sido capturada.
NatGeo – Houve algo que lhe chamou a atenção durante as filmagens?
Bertie Gregory – Uma coisa que achei muito importante abordar dentro das áreas protegidas é o efeito do turismo sobre a vida selvagem — especialmente sobre animais como a chita, que tenta caçar quando os humanos estão ativos durante o dia. Existem animais como os leões, por exemplo, que podem ser incomodados por veículos durante o dia, mas ainda assim conseguem realizar a maior parte de suas atividades à noite, sem serem perturbados. Para as chitas, esse não é o caso.
Eu experimentei isso em primeira mão quando muitos veículos se aglomeravam em torno de um animal. Vimos muitos exemplos de pessoas se aproximando demais, o que não é correto. É muito fácil culpar o guia por isso. Mas a realidade é que muitos desses guias estão sob uma enorme pressão. Eles não ganham muito dinheiro, então receber uma boa gorjeta é muito importante para suas famílias e seu sustento. Então, na verdade, cabe a nós, visitantes, fazer mais perguntas sobre o impacto do que estamos fazendo. Só porque você vai ver a vida selvagem não significa que está ajudando. Pode ser exatamente o contrário.
Não quero que as pessoas evitem ver a vida selvagem, porque, se feito da maneira certa, isso é algo muito bom. Na verdade, é fundamental para a sobrevivência dos animais — garantir que esses animais tenham valor financeiro é muito importante para justificar sua proteção.
Esta entrevista acima foi editada para maior clareza e concisão.