Free Solo: Como Jimmy Chin filmou a arriscada escalada sem cordas de Alex Honnold

Honnold escalou o El Capitan, de Yosemite, e Chin fez a filmagem. Mas, antes, os dois tiveram de descobrir um modo de fazê-lo.segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Jimmy Chin tirou essa fotografia de Alex Honnold ao se aproximar do topo do El Capitan.
Jimmy Chin tirou essa fotografia de Alex Honnold ao se aproximar do topo do El Capitan.
Foto de Jimmy Chin

Se você estivesse na pele de Jimmy Chin, faria uma longa lista de regras para filmar a histórica tentativa de seu amigo Alex Honnold para escalar o El Capitan, de Yosemite, sem usar nenhuma corda. Primeiro, contrataria uma equipe de cinegrafistas de alpinismo de alto nível para fazer rapel ao lado dele enquanto ele escala o paredão de granito de quase mil metros. Ninguém pode sussurrar, espirrar, deixar cair a tampa da lente da câmera, deslocar uma pedrinha—qualquer movimento desses poderia causar uma distração que o derrubaria para a morte.

Acima de tudo, ninguém pode falar com Honnold sobre a épica escalada, ao menos não diretamente. Isso tudo para evitar pôr qualquer pressão sobre ele ou ainda perturbar sua mentalidade precisamente calibrada, uma mescla de extrema concentração, confiança inabalável e profunda calma zen. Em vez da expressão “free solo” (em português, diz-se “escala solo”), que significa a escalada sem cordas e sem equipamentos de segurança, utilizamos o eufemismo preferido dele — “escalada difícil”.

Eu segui essas regras sabendo que qualquer conceito de regras contradiz a própria ideia de solo livre, pois, nesse esporte brutalmente implacável, não existe mesmo nenhuma regra, ao menos escrita. A questão é exatamente essa. O alpinismo sem cordas é definitivamente contra todas as regras, especialmente as regras de segurança em montanhas, sem falar na lógica humana. Contudo, se um alpinista de solo livre cair, não haverá como negar a inflexível e inclemente lei da gravidade.

Alguns alpinistas inveterados afirmam que a questão não é se um alpinista de solo livre cairá—mas quando cairá. Eu podia parar para pensar em quantos caíram e morreram, alguns dos quais conheci pessoalmente. E, subitamente, vem ela: a imagem nítida e horripilante de seu amigo se debatendo no vazio do abismo.

(Relacionado: "Não é que o escalador Alex Honnold seja destemido – ele apenas aceita a morte")

Mas espere, é exatamente isso que não se deve imaginar quando seu companheiro está tentando um feito que alguns especialistas chamam de a subida mais audaz já almejada—que Tommy Caldwell, amigo de Honnold e colega alpinista de elite, chamou de “o pouso na lua do solo livre”.

Chin e Honnold posam no pico do El Capitan, momentos depois de Honnold completar ahistórica escalada livre.
Chin e Honnold posam no pico do El Capitan, momentos depois de Honnold completar ahistórica escalada livre.
Foto de SAMUEL CROSSLEY

Chin remoeu esses pensamentos em sua mente por mais de um ano enquanto ele e Elizabeth Chai Vasarhelyi, sua esposa e companheira de filmagem, documentavam os esforços de Honnold para realizar uma proeza emblemática no alpinismo (revelamos o fim da história: os esforços dele têm êxito). O filme, apropriadamente chamado de Free Solo, já está nos cinemas.

“Filmar um alpinista com a aptidão física e mental que o Alex tem, aliada ao desejo de enfrentar algo tão ambicioso e assustador”, afirma Chin, “é, sem dúvida, o projeto de uma vida inteira”.

Chin, com 45 anos, e Honnold, com 33 anos, fizeram a primeira escalada juntos em 2009, como parte de uma expedição a Bornéu para explorar Low’s Gully, um dos cânions estreitos mais profundos do mundo. Honnold tinha acabado de iniciar a prática de alpinismo com uma série de solos livres que viraram notícia, como o Half Dome de Yosemite. Chin se recorda de ter ficado impressionado com o rosto juvenil e os grandes olhos castanhos de Honnold, o que inevitavelmente lhe rendeu o apelido de Bambi.

No entanto a aparência jovem de Honnold é uma contradição a seu dom mais excepcional—a sagacidade para controlar o medo e se concentrar na execução impecável da tarefa em questão (não importa se a tarefa for alcançar uma rocha com a ponta dos dedos dependurado em um penhasco a uma altura aproximada de 300 metros). É um dom compartilhado por Chin até certo ponto. Três anos antes de conhecer Honnold, ele escalou o Monte Everest e esquiou por sua gelada descida quase vertical.

(Saiba mais: "Alpinistas batem recorde de velocidade na montanha El Capitan")

Depois de Bornéu, eles passaram a fazer escaladas regulares juntos, nas quais Chin filmou alguns dos solos livres de Honnold. “Ganhamos bastante a confiança um do outro”, conta Chin. “Ele confiava em mim para filmá-lo em segurança e eu confiava nele para escalar apenas o que ele se sentia à vontade, sem ter a obrigação de fazer acrobacias radicais para a câmera.”

Enquanto isso, Honnold vinha ponderando intimamente sobre o que seria necessário para uma escalada livre solo no El Cap. “Depois do Half Dome, pareceu natural que fosse o próximo passo”, afirma Honnold. “Ao término de cada temporada, eu pensava que estaria pronto para escalá-lo no ano seguinte, mas aí olhava para o alto dele e pensava: ‘Uau, ainda é muito assustador.’”

Enfim, antes que 2015 acabasse, Honnold revelou a Chin e Vasarhelyi que estava pronto e eles concordaram em fazer juntos secretamente um filme sobre a escalada. “Era muito importante que o filme abordasse o processo do Alex”, explica Chin. “Não importava se o fim seria ele chegando ao pico do El Cap ou desistindo. A ideia sempre foi mostrar como uma pessoa pode sequer cogitar fazer uma loucura dessas.”

Honnold optou por uma rota chamada Freerider, uma que alpinistas habilidosos utilizando cordas normalmente demoram vários dias para subir. Ele passou a aperfeiçoar uma coreografia mão a mão e pé a pé para subir o famoso despenhadeiro. Enquanto isso, Chin contratou uma equipe de alpinistas radicais de Yosemite e deu início ao planejamento da extensa logística.

Cada prática demandava muitas horas de preparação. Chin e a equipe escalavam rapidamente por uma rota fácil no leste de El Cap antes de Honnold, carregando mais de uma centena de quilos em câmeras, cordas e suprimentos. Em seguida, eles desciam de rapel pela Freerider e utilizavam uma espécie de gancho de mão para acompanhá-lo na escalada. “Todos nós ficamos na melhor forma física de nossas vidas”, brinca Chin. Entretanto, ao fim de cada dia de maratona, repetiam-se as imagens mentais de “e se algo acontece?”. “Não passou um dia sem que eu pensasse no pior.”

Em torno das 17h de 02 de junho de 2017, sentindo que estava em seu auge, Honnold perguntou a Chin se a equipe poderia ficar pronta para filmar no dia seguinte. “Acho que vou fazer uma escalada difícil”, disse. Chin confirmou acenando com a cabeça, agindo como se não fosse nada demais: “Minha mente acelerou com tudo o que precisávamos fazer antes que escurecesse, mas não queria atrapalhar a determinação dele, então fiquei um pouco com ele.” Finalmente, Chin disse a Honnold que o veria na manhã seguinte e andou tranquilamente até ficar fora do campo de visão de seu amigo.

Em seguida, Chin correu como um louco. Ele acessou o canal de walkie-talkie da equipe e, usando o codinome de Honnold, avisou a equipe do que estava prestes a acontecer. “Bambi está pronto! Repito: Bambi está pronto!”

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