Misterioso parente dos crocodilos pode ter caminhado sobre duas patas

Pegadas fossilizadas inusitadas, anteriormente atribuídas a um pterossauro, na verdade parecem ser de um animal semelhante ao crocodilo que viveu há mais de 110 milhões de anos.

Wednesday, June 17, 2020,
Por Tim Vernimmen
Rastros no sítio arqueológico Sacheon Jahye-ri, na Coreia do Sul, parecem ter sido feitos por um ...

Rastros no sítio arqueológico Sacheon Jahye-ri, na Coreia do Sul, parecem ter sido feitos por um grande parente dos crocodilos que andava sobre duas patas.

Foto de Kyung Soo Kim, Chinju National University of Education, Kyungnam, South Korea

MAIS DE 110 MILHÕES DE anos atrás, durante o período Cretáceo, a área costeira do sul da Coreia do Sul, perto da cidade de Jinju, era coberta por lagos extensos. As margens lamacentas eram habitadas por sapos, lagartos, tartarugas e dinossauros, e todos eles deixaram seus rastros no lodo. Sempre que o nível da água subia, algumas dessas pegadas se enchiam de areia, o que permitiu a preservação de algumas delas.

Atualmente, milhares de rastros podem ser encontrados nesse local, conhecido como Formação Jinju, diz Martin Lockley, paleontólogo especializado em vestígios fósseis, como pegadas — ou icnólogo — da Universidade do Colorado, em Denver. Lockley e seus colegas na Coreia do Sul estudam há décadas os rastros deixados em Jinju e, por muitos anos, não conseguiram identificar algumas das pegadas maiores.

Em 2019, finalmente descobriram vestígios detalhados da criatura, relatados hoje no periódico Scientific Reports. Nas pegadas, é possível distinguir os dedos dos pés dos animais, os coxins na planta dos pés e até mesmo uma eventual área da pele. Esses detalhes convenceram Lockley e seus colegas de que as pegadas provavelmente foram deixadas por crocodilomorfos, parentes de crocodilos, que mediam mais de 2,7 metros de comprimento. Parecem ter sido crocodilianos incomuns, que deixaram marcas apenas das patas traseiras, sugerindo que os animais eram bípedes.

“[As pegadas] realmente parecem ter sido feitas por grandes crocodilianos”, diz o icnólogo Anthony Martin, da Universidade Emory, em Atlanta, que não participou do novo estudo. “De fato, por animais que caminhavam sobre as patas traseiras e em terra. Isso é muito estranho. Mas, bem, o Cretáceo foi um período peculiar e maravilhoso.

Reconstrução do Batrachopus grandis, um suposto crocodilomorfo que viveu há mais de 110 milhões de anos e deixou rastros na Formação Jinju, na Coreia do Sul.

Foto de Illustration by Anthony Romilio, The University of Queensland, Brisbane, Australia

Pegadas misteriosas do Cretáceo

Antes das pegadas serem encontradas, os paleontólogos tinham apenas rastros desse animal, que estavam “muito mal preservados”, diz Lockley. “São apenas marcas ovais, de 25,4 a 30,5 centímetros de comprimento e 10 a 12,7 centímetros de largura”.

Em 2012, Lockley e seus colegas levantaram a hipótese de que essas pegadas, encontradas na Formação Haman, que ficava próxima, podem ter sido deixadas por um grande pterossauro — um réptil voador que viveu junto com os dinossauros — talvez enquanto vadeava em águas rasas na tentativa de evitar que suas asas ficassem molhadas. Mas, o que quer que fosse, o modo de andar do animal e a ausência de pegadas evidentes dos membros dianteiros sugerem que ele andava sobre duas patas — e outras pistas sugerem que os pterossauros geralmente usavam quatro patas quando estavam no chão.

Com as pegadas descobertas no ano passado na Formação Jinju, os paleontólogos puderam ter uma ideia muito melhor dos pés do animal. “Quando Martin Lockley visitou o sítio arqueológico em novembro de 2019, perguntei o que ele achava dessas pegadas”, conta Kyung Soo Kim, da Universidade Nacional de Educação Chinju, em Jinju, integrante da equipe que descobriu as pegadas. “Ele imediatamente sugeriu que eram do tipo conhecido como Batrachopus, um crocodiliano. Na hora, não acreditei porque não consegui imaginar um crocodilo bípede. Mais tarde, porém, os dedos dos pés grosseiros, os coxins e os detalhes da pele acabaram por me convencer.”

Era um crocodilo diferente de todos que existem hoje em dia. Além de andar sobre duas patas, deixou um rastro muito estreito, “colocando um pé na frente do outro”, diferente dos crocodilianos modernos, afirma Lockley.

A ideia de um crocodiliano bípede pode parecer bizarra, mas não é totalmente desconhecida. Alguns estudos anteriores propuseram que os primeiros crocodilomorfos que viveram na América do Norte durante o Triássico também podem ter sido bípedes. Mas, em virtude do longo período entre a ocorrência desses primeiros crocodilos e a criatura que deixou as grandes pegadas na Coreia do Sul, os paleontólogos não têm certeza se os crocodilos bípedes sobreviveram o tempo todo com uma lacuna no registro fóssil ou se a habilidade de andar sobre duas patas evoluiu mais de uma vez.

Portanto, os pesquisadores sugerem que esse último crocodilo bípede seja uma nova “icnoespécie” — baseada apenas em pegadas — a qual batizaram de Batrachopus grandis.

Fotografias das pegadas bem preservadas do parente dos crocodilos, o Batrachopus grandis.

Foto de Kyung Soo Kim, Chinju National University of Education, Kyungnam, South Korea

Crocodilo em pé

Se alguns crocodilomorfos eram bípedes há cem milhões de anos, por que os crocodilos atuais se movem sobre quatro patas? Lockley acredita que, no Cretáceo, teria sido útil para algumas espécies ficar eretas sobre duas patas, assim como muitos dinossauros carnívoros. “O ambiente era predominantemente plano, uma boa área para correr e caçar.”

Uma possível explicação alternativa para as pegadas é que os animais estavam flutuando na superfície de um lago enquanto se impulsionavam para frente com as patas. Mas Lockley acredita que, se esse fosse o caso, os animais não teriam deixado pegadas tão bem feitas e espaçadas de forma regular. “Ninguém nunca drenou o pântano para nos dizer como são as pegadas [subaquáticas] dos crocodilos”, diz ele. “Mas, muitas vezes, eles apenas empurram com os dedos dos pés, não pisam com o pé inteiro.”

“Nadar foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça”, diz Ryan King, especialista em rastros da Universidade do Oeste do Colorado, mas ele concorda que provavelmente ficaria uma marca somente dos dedos dos pés e não do restante do pé. “Além disso, a preservação dos coxins — e até mesmo da pele — indica que é mais provável que as pegadas tenham sido deixadas em um substrato úmido e firme de terra do que debaixo d’água.”

Embora o crocodilomorfo tenha sido identificado como uma nova espécie com base em suas pegadas, os cientistas não conseguiram associá-las a um esqueleto fóssil. Acredita-se que rastros como os encontrados recentemente tenham sido deixados por crocodilomorfos extintos do gênero Protosuchus. Mas os cientistas não têm certeza. “Infelizmente, pouquíssimos animais morreram em locais com suas pegadas preservadas para nos deixar um vínculo inconfundível entre a pegada e um corpo fossilizado”, afirma Lockley.

Os icnólogos gostariam que outros paleontólogos que estudam ossos fósseis prestassem mais atenção às pegadas deixadas por essas criaturas. Afinal, diz Lockley, são vestígios dos “animais vivos e de seu comportamento, quando ainda tinham pele sobre os ossos”. Algumas vezes, os cientistas conseguem achar uma correspondência entre os ossos das mãos ou pés e uma pegada, mas “para muitos animais, não temos bons fósseis dessas partes frágeis”.

Parece que, gradualmente, os crocodilomorfos bípedes foram vencidos pelos mamíferos de sangue quente. “Talvez seja por isso que hoje em dia não vemos crocodilos perseguindo antílopes na savana”, diz Lockley. Mas quando os gnus precisam atravessar o rio Mara no Quênia e na Tanzânia, o que mais temem é apenas um predador.

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