Dente fossilizado reforça evidências do Spinosaurus, o “monstro dos rios”

Novas descobertas no deserto do Marrocos sugerem que o gigante predador passava a maior parte do tempo na água.

Friday, October 2, 2020,
Por Michael Greshko
Achados inéditos recentes no Marrocos trazem evidências de que o Spinosaurus passava boa parte do tempo ...

Achados inéditos recentes no Marrocos trazem evidências de que o Spinosaurus passava boa parte do tempo dentro d’água. Um novo estudo indica que os dentes desse dinossauro também estão presentes em sedimentos de rios antigos — o que sugere que nadavam, e até caçavam, em rios pré-históricos.

Foto de JASON TREAT, NG STAFF; MESA SCHUMACHER. ART: DAVIDE BONADONNA NIZAR IBRAHIM, UNIVERSITY OF DETROIT MERCY

Há mais de 95 milhões de anos, um vasto sistema fluvial circulava por onde hoje se encontra o Saara marroquino, tendo sido habitat de um dos mais peculiares monstros dos rios conhecidos pela ciência, o dinossauro predador Spinosaurus. Quando adulta, a fera de 15 metros de comprimento e com peso de sete toneladas chegava a ser maior que um Tiranossauro Rex adulto, seu focinho era alongado como o de um crocodilo e a boca repleta de dentes cônicos e afiados.

Recentemente, paleontólogos que vasculhavam sedimentos antigos encontraram uma grande quantidade desses dentes cônicos em dois sítios arqueológicos no sudeste do Marrocos. Em um leito ósseo, a quantidade de dentes do Spinosaurus ultrapassa a de outros dinossauros em cerca de 150 vezes. Devido a essas rochas terem sido formadas por sedimentos oriundos de rios, a descoberta indica que os Spinosaurus perdiam seus dentes na água com maior frequência que outros dinossauros que viviam na região — reforçando ainda mais a ideia de que esse animal era um predador aquático.

“Com essa grande quantidade de dentes de Spinosaurus, é muito provável que esse animal tenha vivido a maior parte do tempo dentro do rio e não nas margens”, diz Thomas Beevor, autor principal do estudo e pós-graduando da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, em um comunicado à imprensa.

O novo estudo — publicado recentemente na revista científica Cretaceous Research — complementa pesquisas anteriores que afirmavam que o Spinosaurus era um ávido nadador. Uma análise química de 2010 encontrou provas sugestivas de que o Spinosaurus e seus parentes passavam boa parte dos seus dias na água, assim como os crocodilos e os hipopótamos modernos. E pesquisas com um esqueleto de Spinosaurus marroquino publicadas neste ano e em 2014 identificaram evidências de características encontradas em outros animais capazes de nadar, como uma cauda achatada em forma de remo que provavelmente auxiliava na propulsão do dinossauro pela água.

“Ao estudar os ossos, é muito difícil entender como esses animais interagiam com o ecossistema deles”, diz Matteo Fabbri, paleontólogo e doutorando da Universidade de Yale, coautor de pesquisas com esqueletos de 2014 e 2020 que não participou do novo estudo. “Essa pesquisa é importante porque analisa o ecossistema em si.”

O conto da cauda

O Spinosaurus é um dos dinossauros mais peculiares já descobertos: um predador que, do focinho até a cauda, era maior que um T. rex adulto e carregava uma vela de 1,80 metro de altura sobre as costas.

Descobertos na década de 1910 no Egito, os primeiros fósseis conhecidos do animal foram destruídos por um bombardeio na Segunda Guerra Mundial, tornando extremamente difícil o trabalho dos paleontólogos de determinação da anatomia da criatura após a perda.

Nas décadas seguintes, espécies-irmãs do Spinosaurus foram encontradas ao redor do mundo, inclusive na Ásia, América do Sul, Europa e em outras partes da África. Crânios do animal, similares aos de crocodilos, sugerem uma habilidade similar à desses répteis de hoje para atacar presas que se movimentam rapidamente, como os peixes. Além disso, uma espécie-irmã encontrada em 1983 foi preservada com escamas de peixe dentro da sua caixa torácica — uma evidência que sugere, mas não comprova, que os predadores se alimentavam de peixes, pterossauros e outros dinossauros menores.

Nas décadas posteriores a essas descobertas, a família dos espinossaurídeos ganhou destaque por sua anatomia fora do comum “parecida com a de um crocodilo”. Porém por mais peculiar que seja essa família, o misterioso Spinosaurus continua em uma categoria própria.

Em 2014, pesquisas lideradas pelo Explorador da National Geographic Nizar Ibrahim, um dos coautores do novo estudo, divulgaram que um sítio arqueológico no Marrocos conservava um esqueleto de Spinosaurus surpreendentemente completo. A nova ossada revelou que as patas traseiras eram estranhamente mais curtas que as dianteiras, e assim como os hipopótamos e pinguins dos dias atuais, as paredes dos ossos eram particularmente densas e grossas. Essas adaptações indicavam um estilo de vida semiaquático.

No último mês de abril, mais evidências do Spinosaurus, o “monstro dos rios” foram adicionadas, quando a equipe de Ibrahim anunciou a descoberta da primeira cauda fossilizada de um Spinosaurus. Diferentemente das caudas de quase todos os outros dinossauros parentes, a do Spinosaurus se assemelhava a um remo. Testes robóticos preliminares sugerem que essa estrutura caudal impulsionava o Spinosaurus pela água com mais eficiência que as caudas de dinossauros terrestres parentes.

A preciosa descoberta dos dentes

Para aprofundar a pesquisa das conexões do Spinosaurus com a água, Ibrahim e seus colegas vasculharam dois sítios arqueológicos em outubro e novembro de 2019 no sudeste do Marrocos próximo ao vilarejo de Tarda. As rochas do local pertencem à formação Kem Kem, uma escarpa de mais de 240 quilômetros de extensão contendo rochas que se formaram em um sistema fluvial antigo que circulava pela região 95 a 100 milhões de anos atrás.

Ainda que os pesquisadores que estão trabalhando nos leitos de Kem Kem estejam de dedos cruzados com a esperança de encontrar esqueletos completos, fósseis em perfeito estado de conservação são extremamente raros no local, já que rios antigos eram irregulares e confusos. Quase todos os fósseis de Kem Kem consistem em fragmentos de ossos isolados ou dentes, que os dinossauros perdiam e substituíam ao longo de suas vidas, assim como os crocodilos atualmente.

Ambos os sítios também foram explorados por habitantes locais em busca de fósseis para serem vendidos a exportadores, distribuidores, colecionadores e pesquisadores, um comércio artesanal que emprega milhares de pessoas no sudeste do Marrocos.

O primeiro sítio estava abandonado antes da chegada dos pesquisadores, mas ainda possuía grandes blocos de arenito repletos de dentes e ossos, o que foi suficiente para os pesquisadores recuperarem 926 fósseis em 2019. O segundo sítio, a cerca de um quilômetro do primeiro, era um local de exploração ativo. Para obter uma amostra compreensível dos fósseis do local, David Martill, coautor do estudo e paleontólogo da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, comprou 1.261 fósseis encontrados por um explorador.

No primeiro sítio, quase a metade dos dentes fossilizados — e um sexto do total de fósseis recuperados no local — eram dentes de Spinosaurus. No segundo sítio, de cada cinco dentes, mais de dois eram de Spinosaurus. No total, quase um terço dos fósseis de vertebrados do segundo local eram dentes de Spinosaurus, um achado fora do comum. “Não sabemos de nenhum outro local onde uma quantidade tão grande de dentes de dinossauro tenha sido encontrada em rochas”, afirma Martill em uma declaração.

O segundo tipo de “dente” mais comum nos dois locais, não era exatamente um dente; eram as escamas extremamente modificadas em forma de dente que envolviam o focinho do Onchopristis, peixe-serra ancestral. Os dentes de outros dinossauros não foram amplamente descritos.

Um grande nadador

Os pesquisadores reconhecem uma alternativa para a hipótese de um Spinosaurus que nadava: em vez de um nadador pleno, é possível que o dinossauro capturasse peixes em águas rasas e nas beiras, como as garças de hoje, perdendo seus dentes que em seguida caíam na água. No entanto, os cientistas observam que aves pernaltas geralmente têm membros inferiores desproporcionadamente longos, enquanto os do Spinosaurus marroquino são particularmente curtos.

“Essas proporções entre os membros não somente são inconsistentes com as de um animal de águas rasas, como também sugerem que o Spinosaurus estava menos adaptado a um modo de vida à beira da água do que [quase] todos os outros terópodes não-aviários”, escrevem os autores da pesquisa. Mas segundo eles, a explicação mais viável é que o Spinosaurus nadava ativamente pelos rios de Kem Kem e perdia seus dentes enquanto nadava e caçava na água.

Mais fósseis certamente serão encontrados nas rochas de Kem Kem — e esses dentes estão longe de ser a última evidência do intrigante Spinosaurus. Mas por enquanto, ao menos os dados condizem com uma imagem provocativa do passado distante: um dinossauro enorme, parecido com um crocodilo, nadando por grandes rios onde hoje se encontra o Saara.

Fabbri afirma que as descobertas do novo estudo são um bom sinal: mais provas condizem com a ideia, que levou décadas para ser desenvolvida, de que o Spinosaurus era um monstro dos rios que vivia na água. “A ciência está sempre se autocorrigindo”, conta. “Mas também é incrível saber que estávamos certos!”

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