Túmulo de criança é o mais antigo sepultamento humano encontrado na África

Com o corpo aparentemente envolto em uma mortalha e a cabeça depositada sobre uma almofada, os restos mortais da criança desenterrada no Quênia podem esclarecer as origens remotas do sepultamento como ritual funerário.

Por Jamie Shreeve
Publicado 26 de mai. de 2021 17:00 BRT
Mtoto skull

Este crânio, datado de cerca de 78 mil anos atrás, estava entre os antigos restos mortais de um humano encontrado enterrado em uma caverna no Quênia. Após meses de trabalho árduo, os cientistas revelaram ser um corpo de uma criança entre 2 e 3 anos de idade, apelidada de Mtoto, que significa “criança” em suaíli. Esta imagem mostra o lado esquerdo do crânio com o osso da mandíbula intacto, incluindo dois dentes não nascidos com raízes não formadas, no canto inferior esquerdo.

Foto de María Martinón-Torres, National Research Center on Human Evolution (CENIEH)

Após uma grande descoberta e processos de exumação e análise, uma equipe de pesquisa interdisciplinar encontrou o mais antigo sepultamento humano conhecido na África. O túmulo, encontrado a menos de 16 quilômetros das exuberantes praias do sudeste do Quênia, continha os restos mortais de uma criança com idade entre 2 e 3 anos enterrada com cuidado excepcional por uma comunidade constituída pelos primeiros Homo sapiens, há cerca de 78 mil anos.

Embora alguns sepultamentos humanos no Oriente Médio e na Europa sejam mais antigos, a descoberta na África fornece um dos primeiros exemplos inequívocos de um corpo sepultado em uma cova preparada intencionalmente para essa finalidade e coberto com terra.

“Esse é sem dúvida um sepultamento, e pôde ser datado de maneira inequívoca. É de uma época bastante remota. Muito impressionante”, afirma Paul Pettitt, especialista em sepultamentos do Paleolítico da Universidade de Durham, na Inglaterra, que não participou da pesquisa.

Os restos mortais também oferecem um raro vislumbre da alma humana antiga — e de seu coração. Descrito on-line em 05 de maio na revista científica Nature, o fóssil apelidado de “Mtoto” — que significa “criança” em suaíli — se soma a outros dois sepultamentos também de crianças, mas um pouco menos antigos, na África. Embora três ocorrências em um continente inteiro dificilmente constituem uma amostra representativa, Pettitt considera as idades dos falecidos especialmente reveladoras para compreender o advento dos sepultamentos como rituais funerários.

Com base na mudança de posição dos restos mortais, os pesquisadores suspeitam que algum material perecível tenha sido colocado como almofada sob a cabeça da criança na sepultura e posteriormente decomposto.

Foto de Illustration by Fernando Fueyo

“Grupos modernos de caçadores-coletores acreditam que a morte é algo natural e inevitável”, conta ele. “Mas há duas exceções: a morte por força bruta e a morte de bebês e crianças. Talvez seja possível discernir a percepção sombria de que a morte prematura não é algo natural e assim precise ser distinguida do rito habitual.”

Envolta no tempo

A sepultura de Mtoto foi encontrada em Panga ya Saidi, um amplo sistema de cavernas distribuído ao longo de uma escarpa paralela à costa do Quênia. O sistema está em escavação desde 2010 por uma equipe liderada pelos Museus Nacionais do Quênia em Nairóbi e pelo Instituto Max Planck de Ciência da História Humana em Jena, Alemanha.

Até o momento, foram encontrados no local milhares de ferramentas de pedra, contas de conchas, restos de animais abatidos e outros artefatos, oferecendo indícios do espectro de práticas humanas entre os dias atuais e 80 mil anos atrás, um período da África conhecido como a Idade Média da Pedra.

“Esse local sempre foi propício à habitação”, afirma Michael Petraglia, do Instituto Max Planck. “Nunca houve um período sem que fosse ocupado.”

Em 2013, a equipe encontrou uma estrutura em forma de cova cerca de 3 metros abaixo do nível atual do solo da caverna. Outras escavações em 2017 revelaram o que parecia ser osso decomposto. O material em pó se revelou frágil demais para ser escavado em campo e, por isso, a equipe resolveu envolver os ossos e os sedimentos no entorno em um molde de gesso e transportar o bloco a Nairóbi para estudos adicionais.

Assim teve início uma notável jornada post-mortem. A escavação inicial no laboratório do Museu Nacional revelou dois dentes próximos à superfície do bloco que pareciam humanos.

“Evidentemente era algo importante”, conta Emmanuel Ndiema, chefe do departamento de arqueologia do museu e membro da equipe de pesquisas. “Mas o espécime era extremamente delicado, além de nossa capacidade de prepará-lo para análise.”

Reconstituição virtual dos restos mortais sobrepostos a esqueleto transparente para fins comparativos, conforme a disposição encontrada no chão da caverna Panga ya Saidi. A análise microscópica dos ossos e do solo ao redor confirmou que a criança foi enterrada intencionalmente logo após a morte.

Foto de Image by Jorge González García, University of South Florida and Elena Santos, University Complutense of Madrid

Ndiema entregou pessoalmente o fóssil a seus colegas do Instituto Max Planck em Jena. Do instituto, o fóssil foi enviado ao Centro Nacional de Pesquisas sobre Evolução Humana (Cenieh, na sigla em inglês) em Burgos, Espanha. O espécime foi submetido a um processo de preparação e análise que durou mais de um ano, sendo utilizadas técnicas de microtomografia computadorizada, microscopia óptica e outras técnicas de imagem não invasivas, além de escavação manual, quando o estado delicado dos ossos permitia.

Gradualmente, toda a importância do espécime veio à tona: primeiro uma coluna vertebral articulada, depois a base de um crânio, depois o osso da mandíbula inferior e raízes de dentes juvenis. Em outra seção do bloco, a equipe encontrou costelas e ossos dos ombros em suas posições anatômicas naturais.

“Estava tudo na disposição natural”, revela María Martinón-Torres, diretora do Cenieh que conduziu a pesquisa. “Não era um simples fóssil. Era um corpo humano, uma criança.”

Além da posição arqueada do esqueleto, diversas outras evidências sugeriam que a criança havia sido enterrada intencionalmente logo após sua morte. Os sedimentos no interior da cova eram nitidamente distintos dos sedimentos em seu entorno e continham uma abundância de conchas e secreções de lesmas que se alimentam de vermes encontrados próximos a cadáveres, quando enterrados diretamente na terra.

A análise geoquímica também revelou compostos químicos no solo produzidos pela ação de bactérias saprófagas, responsáveis pelo estado de decomposição bastante avançado dos ossos. À medida que a carne e os órgãos da criança se decompunham, os espaços deixados foram gradualmente preenchidos por sedimentos, de modo que a caixa torácica manteve seu formato tridimensional. Mas as costelas superiores haviam girado 90 graus, o que ocorreria se o corpo houvesse sido fortemente comprimido para dentro da cova ou, mais provavelmente, firmemente envolto em uma mortalha de algum material semelhante a pele de animal ou folhas grandes, há muito degradado.Para preservar os ossos, os cientistas extraíram um bloco de materiais da caverna para uma limpeza minuciosa em laboratório. Na imagem, a coluna flexionada com vértebras articuladas e costelas, arqueando-se da parte superior central ao canto inferior direito, assim como alguns dentes, à esquerda, estão parcialmente expostos.

Para preservar os ossos, os cientistas extraíram um bloco de materiais da caverna para uma limpeza minuciosa em laboratório. Na imagem, a coluna flexionada com vértebras articuladas e costelas, arqueando-se da parte superior central ao canto inferior direito, assim como alguns dentes, à esquerda, estão parcialmente expostos.

Foto de María Martinón-Torres, National Research Center on Human Evolution (CENIEH)

Por fim, a posição da cabeça e das vértebras cervicais em relação ao corpo indicava que a criança envolta em mortalha havia sido enterrada com a cabeça apoiada em uma espécie de almofada — um momento comovente na vida de uma comunidade humana antiga registrado pela equipe pouco antes do desaparecimento dos vestígios dos restos mortais da criança.

“Os ossos estavam literalmente virando pó”, conta Martinón-Torres. “Chegamos bem a tempo, antes que finalmente desaparecessem.”

Conexões com os mortos

Outros sepultamentos antigos de crianças humanas modernas conhecidos na África incluem uma criança entre 8 e 10 anos em um sítio arqueológico denominado Taramsa Hill no Egito, que se acredita ter cerca de 69 mil anos, e um bebê em Border Cave, na África do Sul, que remonta a 74 mil anos (a datação de ambos os fósseis é menos precisa do que o sepultamento de Panga ya Saidi).

Tanto o bebê de Border Cave, encontrado em 1941, quanto o recém-descoberto sepultamento de Panga ya Saidi revelam um forte vínculo entre as crianças mortas e aqueles que as enterraram. No Quênia, ao que parece, as pessoas presentes no enterro forneceram a Mtoto uma mortalha e uma almofada, ao passo que, na África do Sul, deixaram um ornamento de concha perfurada coberto de pigmentos, o que levanta a questão de por que os humanos começaram originalmente a enterrar seus mortos.

“Não é possível saber o que se passava nas mentes deles”, observa Martinón-Torres, “mas, de certa forma, enterrar alguém é um modo de prolongar a vida dessa pessoa. É como dizer: ‘não quero deixá-la ir embora completamente’. Esse é um dos aspectos que nos torna únicos: a consciência da morte e da vida”.

A criança foi encontrada logo abaixo de uma saliência protegida na entrada da caverna Panga ya Saidi, perto da costa tropical do planalto do Quênia.

Foto de Mohammad Javad Shoaee, Max Planck Institute for the Science of Human History

Pettitt acredita que sepulturas de crianças podem representar uma tradição de tratamento especial a crianças falecidas já na Idade Média da Pedra. É claro que mais evidências serão necessárias — o que levanta outra questão: há relatos de uma abundância de sepultamentos antigos na Europa e no Oriente Médio, tanto de neandertais quanto de humanos modernos, alguns de 120 mil anos atrás. Por que foram encontrados apenas três na África?

Um dos motivos é a mudança de perspectiva sobre o que constitui um sepultamento. Arqueólogos entre o início e meados do século 20, quando a maioria dos fósseis de neandertais e humanos modernos antigos na Europa e na Ásia Ocidental foram descobertos, não dispunham dos atuais padrões rigorosos de escavação, e os pesquisadores eram mais propensos a tirar conclusões sobre o comportamento de rituais funerários a partir de poucas evidências.

Segundo Pettitt, muitos dos sítios arqueológicos não africanos comumente citados como sepultamentos são considerados exemplos de “espaços funerários”, ou simples locais de descarte de cadáveres, colocados em fendas ou cavernas, sem nenhum sinal ritualístico. Um desses sítios é Sima de los Huesos — “o abismo dos ossos” — nas montanhas de Atapuerca, na Espanha, onde foram encontrados dezenas de esqueletos pertencentes a um ancestral neandertal, datados de cerca de 430 mil anos atrás.

Outro possível exemplo na África são 15 esqueletos de uma espécie de hominíneo relativamente recente denominada Homo naledi, encontrados em uma câmara no fundo de um sistema de cavernas na África do Sul e datados de cerca de 250 mil anos. Lee Berger, líder da equipe que realizou a descoberta e Explorador da National Geographic, argumentou que o Homo naledi estava deliberadamente descartando seus mortos, mas não se sabe ao certo como os corpos de fato foram parar no interior da câmara.

Segmentos de ossos da criança foram encontrados durante escavações em Panga ya Saidi em 2013, mas apenas em 2017 é que a pequena cova contendo os ossos foi totalmente exposta. Cerca de 3 metros abaixo do chão atual da caverna, a cova rasa circular continha ossos bastante agrupados, mas em estado avançado de decomposição, o que demandou um processo de estabilização e encobrimento com gesso no campo.

Foto de Mohammad Javad Shoaee, Max Planck Institute for the Science of Human History

Até mesmo se excluídos os sítios que são exemplos mais prováveis de espaços funerários, os registros de sepulturas na Europa e no Oriente Médio começam mais cedo e são mais abundantes do que na África, onde ocorreu a primeira evolução do Homo sapiens.

Talvez não tenham sido encontradas mais sepulturas na África porque não foram procuradas suficientemente. Os cientistas vasculham as cavernas e fendas da Europa e do Oriente Médio desde a virada do século passado. Por outro lado, as pesquisas na África vêm se concentrando relativamente em poucos locais, principalmente na África do Sul e no Grande Vale do Rift, na África Oriental. Atualmente, foram encontrados fósseis possivelmente provenientes de apenas 10% do continente, observa Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres que passou décadas estudando as origens dos humanos modernos.

“Ainda há muita escassez de informação”, afirma Stringer. “Essa descoberta é apenas um sinal do que deve existir no restante da África.”

Um sítio arqueológico africano que promete ainda mais revelações é o próprio Panga ya Saidi. Existem mais depósitos no local muito mais profundos do que o sepultamento de Mtoto, com camadas representativas de épocas talvez tão remotas quanto 400 mil anos atrás. As escavações foram interrompidas no ano passado devido à pandemia de covid-19, mas a equipe de pesquisas anseia por retomar assim que for seguro prosseguir.

“Ainda não sabemos até que profundidade podem ser encontrados fósseis”, destaca Ndiema. “Ainda não chegamos ao ponto mais fundo.”

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