Terra já perdeu e ganhou muitos oceanos. Você sabe onde pode surgir o próximo?

Vestígios geológicos do passado remoto de nosso planeta revelam que as atuais linhas costeiras não durarão para sempre — em contrapartida, outras surgirão.

Publicado 15 de jun. de 2021 06:00 BRT
Oceans

Mergulhador nada perto da ilha Espiritu Santo, no Golfo da Califórnia, corpo d’água em expansão recente formado entre 5 e 10 milhões de anos atrás, quando deslocamentos tectônicos separaram a península da Baixa Califórnia do restante da região atual do México.

Foto de Thomas P. Peschak, Nat Geo Image Collection

Em uma sala escura no Museu de História Natural de Nova York, nos Estados Unidos, uma parede despretensiosa de pedras se estende quase até o teto. À primeira vista, parece uma placa perfeita para uma bancada ou pia de cozinha, com manchas pretas, brancas e cor-de-rosa se misturando em faixas de minerais que se estendem muito acima da minha cabeça. Mas então a luz da mostra é alterada de branco para preto, e a rocha de 10 toneladas brilha em tons de verde e laranja-vivo.

“É impossível não ficar de queixo caído”, afirma George Harlow, curador do Salão Mignone de Pedras Preciosas e Minerais do museu, recentemente reformado, onde é exposta a rocha.

A impressionante composição revela a singularidade dos minerais: eles se formaram no fundo de um oceano atualmente extinto há cerca de 1,2 bilhão de anos, em uma época em que microtúbulos de algas menores do que um grão de arroz eram algumas das maiores formas de vida. Nesse oceano antigo, partículas ricas em metais borbulhavam a partir de fontes hidrotermais e se assentavam no fundo do mar em camadas, criando uma composição exata de elementos que ficam fluorescentes quando expostos à luz ultravioleta.

As rochas são um lembrete vívido das drásticas transformações ocorridas em nossos oceanos ao longo de bilhões de anos de história — em razão da movimentação constante da rede de placas tectônicas pelo planeta. Essas movimentações se propagam como um efeito dominó pelos sistemas geológicos, atmosféricos e biológicos, influenciando tudo, como a diversidade dos minerais, os trajetos das correntes oceânicas e a circulação atmosférica da Terra. E todos esses fatores afetam as formas de vida da atualidade.

Este painel de rocha fluorescente quase até o teto, extraído de Ogdensburg, Nova Jersey, representa parte do fundo de um oceano atualmente extinto que existiu cerca de 1,2 bilhão de anos atrás.

Foto de D. Finnin/©AMNH

“As mudanças em todo o sistema terrestre ocorridas como parte dessa transformação geográfica são profundas”, afirma Shanan Peters, geocientista da Universidade de Wisconsin-Madison, especialista na evolução da vida concomitante com os sistemas terrestres.

Placas preservadas do fundo do mar, como essa em exposição, bem como uma série de outros vestígios geológicos, ajudam cientistas a recriar a história intricada dos oceanos perdidos no tempo: Jápeto, Reico, Tetis, Pantalassa, Ural e muitos outros. Assim como esses antigos corpos d’água, nossos oceanos modernos algum dia também terão fim, e outros serão formados.

Nas palavras simples de Harlow: “tudo está em constante transformação”.

Pistas gravadas no fundo do mar

As placas tectônicas em alteração contínua no nosso planeta não apenas levantam montanhas e esculpem vales, mas também determinam os ciclos de desaparecimento e surgimento de oceanos, “quase como um acordeão”, compara Andrew Merdith, desenvolvedor de modelos tectônicos da Universidade de Leeds.

O movimento é causado em parte por zonas de subducção, nas quais uma placa afunda sob a outra. Esse ciclo mergulha o leito oceânico nas profundezas do nosso planeta e arrasta materiais no entorno, estreitando as distâncias entre os continentes.

A placa rochosa no Museu de História Natural de Nova York, por exemplo, extraída de Ogdensburg, Nova Jersey, ficou preservada após uma colisão antiga entre o continente antecessor da América do Norte e outro continente antigo. O choque eliminou o oceano existente entre os continentes, transformando na rocha atual os sedimentos das camadas do leito oceânico sob as altas temperaturas e pressões.

No entanto, os raros fragmentos do antigo leito oceânico preservados em terra seca, como as rochas de Nova Jersey ou um pedaço do manto terrestre exposto em Maryland, fornecem apenas alguns indícios da transformação dos oceanos ao longo do tempo. Para entender melhor essa movimentação, alguns cientistas recorrem a um registro gravado no leito oceânico: os minerais magnéticos.

As placas oceânicas nascem ao longo da maior cordilheira do mundo: uma cadeia submersa conhecida como dorsal meso-oceânica. Com cerca de 65 mil quilômetros ao redor de nosso planeta, a dorsal marca onde as placas tectônicas se separam e onde a rocha quente do manto terrestre sobe para preencher o espaço deixado. Conforme essa rocha derretida resfria, alguns de seus minerais se alinham ao campo magnético da Terra, criando uma espécie de código de barras geológico ao longo do fundo do mar que adiciona novas linhas a cada mudança do campo. Os cientistas podem recorrer a esses códigos de barras para identificar mudanças no formato dos oceanos ao longo do tempo.

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Fantasmas do passado dos oceanos

O registro magnético, entretanto, não é perfeito: “quanto mais se volta no tempo, menos rochas oceânicas existem disponíveis”, explica Grace Shephard, geofísica e especialista em reconstituições de placas tectônicas da Universidade de Oslo. À exceção de uma pequena faixa rochosa sob o Mediterrâneo — com uma idade surpreendente de 340 milhões de anos — grande parte do leito oceânico data de meros 100 milhões de anos atrás, a maioria com menos de 200 milhões de anos.

Os cientistas, no entanto, encontraram uma maneira de identificar o fundo dos mares desaparecidos que afundaram no manto da Terra e agora estão ocultos em um cemitério oceânico.

O método implica observar as velocidades das ondas sísmicas de terremotos que se propagam pelo planeta. Fragmentos dispersos do leito oceânico podem permanecer relativamente frios por cerca de 250 milhões de anos ou mais, e os sinais sísmicos diferem ao passar por placas frias e pelas profundezas ardentes da Terra.

“É como uma caixa preta sob nossos pés”, explica Douwe van Hinsbergen, especialista em placas tectônicas da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos. Mas agora as análises sísmicas permitem aos cientistas estudar essas placas antigas e retroceder o relógio geológico, desvendando as forças subterrâneas que atuam em nosso mundo. Essas reminiscências do passado do fundo do mar estão ocultas abaixo de quase todos os continentes, e van Hinsbergen e seus colegas catalogaram quase cem em seu chamado Atlas do Submundo.

Entre os fragmentos mais antigos estão restos de placas oceânicas com cerca de 250 milhões de anos, atualmente encontrados na fronteira entre o manto e o núcleo, o que inclui o oceano Paleotétis que outrora banhou a costa de Gonduana, supercontinente composto principalmente pelas regiões atuais da América do Sul, África, Índia, Arábia, Austrália e Antártida.

Decifrar esses fragmentos dispersos do leito oceânico, códigos de barras magnéticos e uma série de outros vestígios geológicos permitiu a uma equipe de cientistas criar uma reconstituição impressionante de um bilhão de anos do passado de nosso planeta.

Merdith, um dos arquitetos desenvolvedores do modelo, observa que o modelo não é algo definitivo sobre os primórdios da Terra e pode mudar com a obtenção de mais dados. Mas reproduzir o vídeo que recria essa movimentação de continentes e oceanos ressalta a natureza fascinante da transformação da superfície de nosso planeta.

“Tudo isso faz parte do quebra-cabeça global”, afirma Shephard.

Efeitos nos habitats da Terra

Com o surgimento e desaparecimento dos oceanos e a deriva continental pelo planeta, os ambientes em transformação também propiciam transformações nas formas de vida. A formação de um novo oceano, por exemplo, pode ser benéfica para a biodiversidade, como registrado durante um pico ocorrido quando Pangeia se separou, segundo o estudo de Peters e seus colegas.

Pangeia continha os grupos ancestrais de todas as principais criaturas terrestres de hoje, explica Peters. Depois que o supercontinente se partiu em pedaços, a fauna terrestre evoluiu para uma diversidade de cores, tamanhos e estilos de vida em seus fragmentos isolados. Novos trajetos de circulação oceânica também transportaram umidade para o interior dos continentes, umedecendo cinturões anteriormente áridos. Ao mesmo tempo, corpos d’água rasos iluminados pelo sol se acumularam ao longo de novas plataformas continentais, onde a vida marinha prosperou.

“As margens dessas plataformas são importantes para mariscos, peixes ou outros animais marinhos”, observa Peters. Quando Pangeia se fragmentou, houve uma explosão de formas de vida na Terra.

Até mesmo pequenos deslocamentos tectônicos podem produzir impactos drásticos sobre a superfície terrestre. Um exemplo bastante surpreendente é a formação do istmo do Panamá, uma estreita faixa de terra que liga a América do Norte e a América do Sul, explica Peters. Havia circulação de água do Atlântico ao Pacífico através dessa via oceânica cerca de 20 milhões de anos atrás. Contudo, quando a placa do Pacífico afundou sob a placa do Caribe, elevou o leito oceânico e expôs vulcões submersos à superfície.

A ligação por água entre os oceanos começou a se estreitar e um dia desapareceu completamente. A mudança fez com que as águas quentes se dirigissem para o norte em uma corrente atualmente conhecida como Corrente do Golfo, que elevou as temperaturas no noroeste da Europa, proporcionando um clima relativamente ameno à região, apesar de estar a uma latitude semelhante a regiões gélidas do Canadá.

A transformação também permitiu a circulação moderna das correntes oceânicas, que controla padrões de tempestades, o fluxo de nutrientes e muito mais. “O fechamento do istmo do Panamá trouxe repercussões enormes”, ressalta Peters.

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Maior habitat do planeta, os mares ajudam a regularizar o clima, mas estão sendo drasticamente impactados pelo aquecimento global.

Oceanos futuros

Muitos outros deslocamentos tectônicos modificadores da estrutura terrestre ocorrerão futuramente em nosso planeta. Daqui a cerca de 250 milhões de anos, os continentes da Terra podem se unir mais uma vez em um novo supercontinente: Pangeia Última. Nesse possível cenário, formulado por Christopher Scotese, diretor do Projeto Paleomap, o Oceano Atlântico quase desaparece e é reduzido a um modesto mar interior.

Mas o futuro geológico permanece incerto. Talvez ocorra exatamente o contrário e o Oceano Pacífico desapareça, formando um supercontinente no lado oposto do mundo, denominado Nova Pangeia. Outros modelos ainda sugerem que alguma combinação de mudanças poderia causar o desaparecimento do Atlântico e do Pacífico à medida que novos oceanos surgirem na Ásia.

Qualquer que seja o cenário em nosso futuro distante, transformações tectônicas já estão em andamento. Os cientistas acreditam que o próximo oceano da Terra poderia se formar na região da Fenda da África Oriental, onde se eleva uma coluna de rochas ardentes que separa lentamente uma faixa de terra ao longo da costa oriental do continente, explica Cynthia Ebinger, geofísica da Universidade de Tulane que realizou extensas pesquisas na região.

Essa divisão produz consequências muito concretas na atualidade, conforme revelado pelo vulcanismo abundante nessa região do mundo, como a devastadora erupção do Monte Nyiragongo, na República Democrática do Congo, que recentemente deixou até 400 mil desabrigados e matou ao menos 32 pessoas. Outro vulcão, na costa da Eritreia, produz um efeito distinto: mantém o Mar Vermelho sob controle, protegendo contra inundações áreas do nordeste da Etiópia que estão abaixo do nível do mar, conta Ebinger. Existiu um pequeno oceano nessa região e, embora suas águas tenham secado há muito tempo, a movimentação das placas da Terra pode acabar ocasionando novas inundações.

Embora a atividade tectônica seja o principal fator do passado e futuro geológico de nosso planeta, uma força diferente e poderosa está interferindo nos processos da Terra atual: a humanidade. Os humanos liberam aos céus gases que aquecem o planeta a taxas sem precedentes, alterando a circulação oceânica e atmosférica com consequências mortais. Os humanos também misturam como nunca ecossistemas por meio de importações e viagens.

“Esse é um processo inédito na Terra. Nunca aconteceu”, reitera Peters.

A era dos humanos é apenas um instante no tempo geológico, mas nossos atos têm o potencial de deixar marcas indeléveis no mundo, sobretudo a mistura da biosfera, adverte Peters.

“Essas marcas estarão presentes em cada organismo que vier a existir efetivamente”, prossegue ele, “da mesma forma que Pangeia existe em cada organismo presente, essencialmente, na Terra nos dias de hoje”.

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