O que são compensações de carbono e por que os viajantes as compram

As vendas de compensação de carbono estão em alta, mas nem todas elas são iguais. Confira as diferenças entre as compensações.

Por Sarah Gibbens
Publicado 21 de out. de 2022 12:25 BRT
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Avião sobrevoa a Cidade do Cabo, na África do Sul, ao amanhecer.

Foto de Jason Edwards Nat Geo Image Collection

Quando a ativista climática Greta Thunberg, de 16 anos, navegou pelo Oceano Atlântico em um barco de emissão zero, seu intuito foi destacar os milhões de toneladas de dióxido de carbono emitidos anualmente na atmosfera como resultado das viagens aéreas. Voos de cerca de 10 horas de duração em uma temporada de férias podem adicionar até uma tonelada métrica, ou mais de 900 quilos, de carbono à atmosfera.

Aqueles que sentem culpa por essas emissões de carbono que contribuem para o aquecimento climático podem ficar tentados a comprar uma compensação de carbono (ou neutralização de carbono). No ano de 2018, houve um aumento nas buscas por “compensações de carbono” no Google, e aqueles que as comercializam afirmam alta nas vendas.

A plataforma de compensação de carbono Cool Effect afirma que compras individuais de suas compensações de carbono aumentaram 700% entre maio e dezembro de 2019. A Gold Standard, organização que certifica programas de compensação de carbono, registrou um aumento de quatro vezes nas compras individuais de compensações em 2018.

A abordagem de mercado para reduzir as emissões não é isenta de críticas. Alguns alegam que o enfoque em ações individuais desvia a atenção das melhorias mais impactantes que aconteceriam se a indústria fosse regulamentada.

Atualmente, os países que assinaram o Acordo Climático de Paris negociam regras para a compra e venda de créditos de carbono em um mercado internacional, embora especialistas reiterem que essas regras afetariam emissores em grande escala e não indivíduos que compram compensações de baixo custo.

As compensações que podem ser adquiridas por um voo não dispõem de supervisão federal e nem todas elas contam com práticas comerciais transparentes. Veja abaixo o que é preciso saber se desejar comprar uma compensação para diminuir a culpa por viagens aéreas realizadas.

O que são compensações de carbono?

Marisa de Belloy, Presidente da Cool Effect, compara as questões climáticas com uma equação matemática.

Segundo ela, uma compensação comprada em seu site “é igual a uma tonelada métrica de emissões de carbono que não foi emitida. O termo “compensação” significa apenas que essa tonelada foi utilizada para compensar uma tonelada emitida na atmosfera”.

Seus programas de redução de emissões incluem iniciativas como o plantio de árvores e até mesmo o fornecimento de fogões de queima limpa às comunidades.

Para compensar além do equivalente a um voo de costa a costa pelos Estados Unidos, um consumidor poderia pagar US$ 8,50 por um programa em Honduras que substitui fogões ao ar livre por fogões de alvenaria sob medida com menor demanda de madeira para cozinhar e que lançam fumaça para fora através de chaminés. A Cool Effect estima que um novo fogão poderia obter uma redução de três toneladas métricas de emissões de carbono por ano.

Por que não fazer doações diretas a uma instituição beneficente que constrói esses fogões?

“A diferença é que, quando se adquire uma compensação, há uma redução comprovada nas emissões de carbono”, responde Belloy. “Quando é feita uma doação a uma grande organização ambiental sem fins lucrativos, não existe uma mensuração exata desse impacto.”

Compensações de carbono adquiridas voluntariamente também se distinguem dos tipos de créditos de carbono empregados em um sistema de limitação e comércio. Sob essa estrutura regulatória, uma empresa que emite menos do que o limite determinado por lei pode vender um “crédito” para uma empresa que exceda esse limite legal e que, portanto, poderia ser multada.

Quais são as armadilhas?

“Consumidores e empresas deveriam primeiro tentar reduzir suas emissões em vez de buscar compensações para reduções de emissões impossíveis ou inviáveis economicamente no curto prazo”, observa Kelley Kizzier, especialista em mercados de carbono do Environmental Defense Fund, grupo de defesa ambiental sem fins lucrativos dos Estados Unidos.

“Existem muitas compensações questionáveis sendo oferecidas”, acrescenta ela, “e pode ser difícil entender o cenário, por vezes obscuro, das compensações”.

Segundo Belloy, para fazer de fato a diferença nas emissões de carbono, projetos de compensação precisam atender ao conceito de “adicionalidade”, assim denominado por grupos de compensação de carbono por fornecer um benefício adicional que não seria obtido sem o financiamento do grupo de compensação de carbono.

Por exemplo, se alguém fosse pago para preservar uma floresta, isso seria considerado uma compensação se essa floresta fosse originalmente destinada ao desmatamento. Um proprietário rural que utilizasse a madeira como fonte de renda seria então remunerado para manter suas árvores em pé. Se não houvesse ameaça à floresta, o pagamento ao proprietário rural não contaria como uma compensação porque não ofereceria nenhuma vantagem adicional — a floresta permaneceria viva independentemente do pagamento.

(Artigo relacionado: A captura de carbono poderá tornar os voos mais sustentáveis?)

Também não há garantia da duração de um projeto adquirido com compensação de carbono. Divulgada no início de 2019, uma investigação da ProPublica, sociedade sem fins lucrativos dos Estados Unidos, encontrou diversos exemplos de programas de crédito de carbono que fracassaram na proteção de florestas tropicais.

Para proteger uma floresta do desmatamento, a receita proveniente das compensações de carbono precisa ser mais competitiva do que a dos setores geralmente lucrativos que provocam o desmatamento, como a pecuária e a produção de soja. O manejo sustentável do solo pode desaparecer de um ano para outro sob um novo governo ou propensão política.

Como identificar uma organização de boa reputação?

“Na década de 1990, quando as compensações chegaram ao mercado, havia uma grande desorganização. Os programas apresentavam muita variabilidade”, afirma Peter Miller, especialista em compensações de carbono do grupo ambiental internacional sem fins lucrativos National Resources Defense Council.

As compensações passaram a ser abordadas na política depois que o Protocolo de Kyoto, tratado climático internacional, foi assinado em 1992, mas Miller explica que a conscientização crescente sobre as mudanças climáticas foi a responsável por sua popularidade atual.

Apesar da implantação de algumas regulamentações, o processo de compensação é realizado predominantemente por grupos independentes de certificação o como Gold Standard e o Green-e. Nos Estados Unidos, não há regulamentação federal sobre compensações de carbono adquiridas pela população.

“Se alguém desejar vender uma compensação e encontrar alguém disposto a comprá-la, não há nada que impeça essa transação”, conta Miller.

Ele afirma que consumidores que desejarem adquirir uma compensação devem se certificar de que os projetos sejam examinados por grupos terceiros que monitorem ativamente os projetos e garantam a obtenção de uma redução real de carbono.

Compensações individuais fazem alguma diferença?

“As compensações não devem ser consideradas uma alternativa aos requisitos regulatórios”, destaca Miller. Ele enfatiza que acordos internacionais ambiciosos são o que realmente reduziria as emissões de carbono.

Em escala global, um voo individual é irrisório. De acordo com a Administração de Energia e Informação dos Estados Unidos, a eletricidade gerada por carvão produziu mais de um bilhão de toneladas métricas de emissões de carbono somente em 2018.

Contudo, na vida cotidiana de uma pessoa, as viagens aéreas são de longe uma das atividades que mais demandam carbono. Um voo pode produzir tanto carbono quanto um veículo percorrendo mais de 1,6 mil quilômetros.

Se viagens aéreas forem a única opção, a compra de compensações de um fornecedor confiável pode reduzir tecnicamente a quantidade de carbono emitido na atmosfera.

Belloy torce pelo crescimento da Cool Effect. Ela considera o descontentamento crescente com o fracasso dos governos e da indústria privada no enfrentamento das mudanças climáticas como fatores motivadores para que as pessoas tomem iniciativas próprias.

“A população começou a entender que é necessário nos unirmos”, afirma ela.

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