Candida auris: misterioso fungo mortal alarma autoridades mundiais de saúde

O fungo, que está se espalhando pelo mundo, é difícil de ser detectado e ainda mais difícil de tratar. Eis o que sabemos até agora sobre ele, e quem está em risco.

Por Sarah Gibbens
Publicado 17 de abr. de 2023, 10:37 BRT

Em um laboratório em Wuerzburg, Alemanha, um cientista segura uma placa de Petri com Candida auris. Identificado pela primeira vez no Japão, o fungo é agora um patógeno mundial.

Foto de Nicolas Armer picture alliance, Getty Images

Em 2009, um novo fungo foi descoberto em Tóquio, no Japão, na orelha de uma mulher. Em 2016, ele foi detectado pela primeira vez nos Estados Unidos, em um hospital de Nova Iorque. Na semana passada, ele foi encontrado em 28 estados norte-americanos e no Distrito de Columbia. 

Em 2019, Johanna Rhodes, especialista em doenças infecciosas no Imperial College London (Reino Unido), disse à BBC que os surtos já eram conhecidos em vários países, inclusive na Espanha e na América do Sul, há vários anos. Candida auris infectou pouco mais de 2300 pessoas nos EUA no ano passado e tem se espalhado a uma "taxa alarmante", de acordo com os Centros de Controle de Doenças (CDC). 

As primeiras pesquisas sugerem que o aumento da temperatura global, um subproduto da mudança climática, pode ter contribuído para a evolução do fungo, para ele conseguir viver dentro do corpo humano. Mas as origens do fungo permanecem um mistério: ainda não está claro onde ele surgiu e por que ele surgiu tão subitamente.

"Neste momento não temos nenhuma evidência conclusiva", diz Luis Ostrosky, chefe de doenças infecciosas e epidemiologia da UTHealth Houston e Memorial Hermann, nos Estados Unidos. Mas a mudança climática, acrescenta ele, é "uma teoria provável".

Neste artigo, os cientistas explicam o que sabem sobre Candida auris, como a mudança climática pode ter causado seu aumento em casos hospitalares e porque o fungo pode não ser o último de seu tipo.

O que é o fungo Candida auris?

Algumas infecções fúngicas são comuns, como o pé de atleta, mas as infecções de Candida auris são mais raras e começam dentro do corpo, multiplicando-se no sangue ou apodrecendo em uma ferida pré-existente. As infecções ocorrem principalmente em pessoas que são imunossuprimidas e recebem tratamentos médicos regulares, onde podem entrar em contato com algo infectado.

"Você não vai ter Candida auris na academia, e seus filhos não vão ter na escola, mas se você é um paciente com contato frequente com o sistema de saúde, você precisa estar em alerta", adverte Ostrosky.

O que torna o Candida auris tão preocupante é que ele é difícil de detectar e ainda mais difícil de tratar. “Os exames de sangue padrão, a maneira mais comum de detectar a infecção, não detectaram o fungo em 50% dos casos”, diz Ostrosky. 

Nos Estados Unidos, hospitais e universidades orientadas para a pesquisa têm novos testes que podem detectar material genético do fungo no sangue, mas Ostrosky diz que esses exames são difíceis de encontrar em outros lugares. Quando detectado, o fungo é frequentemente resistente a tratamentos antifúngicos, e os esporos podem viver em superfícies fora do corpo durante semanas. 

Isto significa que mesmo que o fungo seja eliminado, ele pode reinfectar. Os CDC estimam que entre 30 e 60% das pessoas infectadas com o fungo morreram, mas o órgão observa que muitas das vítimas também tinham comorbidades.

Ostrosky acredita que o recente aumento dessas infecções pode ser devido à falta de pessoal e de suprimento durante a pandemia da Covid-19, quando alguns hospitais tiveram que tomar medidas como a reutilização de equipamentos de proteção.

Como a mudança climática influencia a evolução dos novos fungos

O corpo humano geralmente é quente demais para que os fungos sobrevivam. Mas como a mudança climática faz com que as temperaturas médias aumentem e as ondas de calor se tornem mais frequentes e extremas, os fungos podem ser capazes de evoluir para suportar temperaturas mais altas no ambiente e, portanto, ter mais probabilidade de sobreviver dentro de nós. 

Essa é a teoria que os cientistas têm sobre como o Candida auris pode ter surgido aparentemente da noite para o dia. Um artigo publicado em 2019 supunha que o fungo surgia como uma ameaça à saúde humana simultaneamente em três continentes diferentes.

Arturo Casadevall, especialista em doenças infecciosas da Universidade Johns Hopkins, sugere que o denominador comum é o aquecimento das temperaturas em todo o mundo.

"Propusemos que pode ser o primeiro agente patogênico fúngico a emergir das mudanças climáticas", diz ele.

Outro documento de 2019 de cientistas dos CDC sugeriu que a mudança climática era uma explicação plausível para o surgimento do Candida auris, mas que ela não poderia ser confirmada sem mais pesquisas.

Em agosto de 2022, pesquisadores na Áustria insistiram em uma "ação global concertada" em resposta ao surto. "Estes desafios são um sério lembrete de nossa persistente vulnerabilidade a doenças infecciosas, e sem dúvida enfrentaremos e administraremos ameaças comparáveis no futuro", escreveram eles.

O primeiro, mas não o último fungo mortal

Os cientistas vêm alertando há anos que a mudança climática irá alterar os padrões climáticos e elevar as temperaturas tão drasticamente que é provável que surjam novas doenças. Desde que Candida auris foi detectado pela primeira vez no Japão, os cientistas têm documentado mais evidências de infecções fúngicas, em particular a propagação devido ao clima mais extremo.

O grande furacão Harvey, cuja pluviosidade extrema foi sobrealimentada pelas mudanças climáticas, atingiu Houston (Estados Unidos) em 2017 e expôs a população, incluindo aqueles que estavam imunocomprometidos, ao mofo que cresceu em detritos úmidos após as tempestades.

Na costa oeste dos Estados Unidos, uma infecção fúngica conhecida como febre do vale está se espalhando para o norte. Os efeitos da seca severa na região estão ajudando a transportar esporos fúngicos mais para o norte.

Asiya Gusa, geneticista molecular da Duke University, diz: "A possibilidade de aumento das mutações em resposta ao estresse térmico é uma preocupação real. Os fungos ambientais que mais nos preocupam são os que respiramos, como esporos transportados pelo ar".

Em uma pesquisa que ela e seus colegas publicaram em janeiro, Gusa estudou o Cryptococcus deneoformans, um fungo comumente encontrado no solo, cuja infecção pode levar a uma meningite ou pneumonia, que pode ameaçar a vida. A equipe de Gusa observou que quando o fungo era aquecido de 30 a 36 graus Celsius, os genes encontrados no DNA do fungo eram mais propensos a pular e sofrer mutações, um movimento que aponta para uma capacidade adaptativa.

Embora o estudo tenha dado um primeiro vislumbre de como o fungo se comporta em um laboratório, Gusa diz que os resultados poderiam ser um aviso com implicações mais amplas. "O estudo sugere que os fungos podem se adaptar mais rapidamente às temperaturas mais quentes do que o previsto. Foi realmente alarmante", reflete Gusa.

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