Pílulas anticoncepcionais: com o que você deve ou não se preocupar

Especialistas avaliam as dúvidas e preocupações mais comuns sobre os anticoncepcionais.

Por Katie Camero
Publicado 20 de jul. de 2023, 10:13 BRT
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Existem três tipos de pílulas anticoncepcionais. Todas elas funcionam liberando hormônios sintéticos para evitar a gravidez, mas elas têm efeitos colaterais diferentes.

Foto de Emmanuel Pierrot Agence VU, Redux

Há seis décadas, a primeira pílula anticoncepcional foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos. E essa pílula estava longe de ser perfeita. Doses extremamente altas de hormônios causavam efeitos colaterais desnecessários e perigosos que afastavam as pessoas do contraceptivo.

Embora hoje as pílulas disponíveis no mercado contenham níveis de hormônio muito mais baixos e sejam muito mais seguras, ainda há muitas dúvidas sobre como elas funcionam e quais são seus efeitos colaterais.

Como acontece com qualquer medicamento, alguns efeitos colaterais e riscos são esperados, mas os especialistas que falaram com a National Geographic dizem que os benefícios da pílula anticoncepcional superam em muito os riscos quando usada adequadamente, especialmente quando se trata de evitar a gravidez.

"Ainda estamos tentando descobrir tudo o que a pílula faz e, embora saibamos que ela afeta as mulheres, não é perigosa", enfatiza Sarah Hill, psicóloga pesquisadora que estuda a saúde da mulher e autora de This Is Your Brain On Birth Control. "Trata-se de tomar as decisões certas para você, considerando seus objetivos específicos."

Aqui está um guia sobre a pílula anticoncepcional.

Quais são as diferenças entre as pílulas anticoncepcionais?

Existem três tipos de pílulas anticoncepcionais. Todas elas funcionam liberando hormônios sintéticos que impedem que os ovários liberem um óvulo, e engrossam o muco cervical para impedir que o esperma chegue ao útero.

A pílula combinada é a mais comumente prescrita e contém versões sintéticas dos hormônios estrogênio (etinilestradiol), que controla o sangramento menstrual, e progesterona (progestina), que evita a gravidez. A pílula de uso contínuo pode encurtar a menstruação, torná-la menos frequente ou interrompê-la completamente. 

Há também uma pílula que contém apenas progestina. A FDA aprovou uma versão de venda livre dessa pílula em 13 de julho. 

A maioria das pílulas anticoncepcionais contém o mesmo tipo de estrogênio. Mas há vários tipos de progestagênio usados nas pílulas que diferem em termos de como se ligam aos receptores ativos em suas células, esclarece Stephanie Teal, presidente do departamento de ginecologia e obstetrícia do University Hospitals Cleveland Medical Center, em Ohio, EUA.

Isso pode explicar por que um tipo de pílula pode causar acne e outro pode eliminá-la, diz Teal.

As pílulas genéricas têm os mesmos ingredientes ativos que as pílulas de marca, o que significa que elas têm os mesmos riscos e benefícios.

Além de prevenir a gravidez, como a pílula pode me ajudar?

Todas as pílulas anticoncepcionais podem ajudar a tornar a menstruação mais leve e menos dolorosa, além de reduzir o risco de gravidez ectópica, que ocorre quando um óvulo fertilizado cresce fora do útero.

A pílula combinada, especificamente, pode tornar a menstruação mais regular, além de prevenir acne, afinamento ósseo, cistos nos seios, sintomas de endometriose, anemia, mudanças intensas de humor e certos tipos de cânceres.

Os hormônios sintéticos contidos nas pílulas ajudam a equilibrar as flutuações hormonais naturais do corpo, que são responsáveis por muitos sintomas como acne e cólicas dolorosas.

A pílula me deixará mal-humorada?

Depende, adianta Hill.

As mudanças de humor são um dos efeitos colaterais mais comuns relatados entre as usuárias de pílulas, de acordo com pesquisas. Os sintomas depressivos e o aumento do risco de suicídio, principalmente entre adolescentes de 15 a 19 anos, são frequentemente associados aos contraceptivos hormonais.

Acredita-se que a progestina estimula os receptores do hormônio do estresse cortisol no cérebro, explica Hill, e é por isso que algumas pessoas podem se sentir ansiosas ou deprimidas.

Ao mesmo tempo, outras pessoas podem usar a pílula para tratar o transtorno disfórico pré-menstrual – irritabilidade grave, depressão ou ansiedade nas semanas que antecedem a menstruação. Isso funciona regulando os níveis de hormônio.

Dito isso, todos nós respondemos às mudanças hormonais de forma diferente, diz Hill.

Vou ganhar peso com a pílula?

Estudos não descobriram que a pílula leva a um ganho de peso significativo (adesivos com anticoncepcionais e dispositivos intrauterinos também não estão associados ao ganho de peso).

Estudos realizados com pessoas que tomaram a pílula somente de progestógeno constataram que elas ganharam, em média, cerca de dois quilos após seis ou 12 meses de uso da medicação, o que foi mais ou menos o mesmo ganho que as pessoas que usaram outros métodos anticoncepcionais. Os pesquisadores concluíram que as pessoas podem ganhar peso naturalmente ao longo do tempo, independentemente do uso do anticoncepcional.

É difícil culpar a pílula pelo ganho de peso porque muitos fatores, como dieta e estresse, podem contribuir para isso.

"De modo geral, não observamos nenhuma mudança no peso além do que esperamos que alguém ganhe apenas com o envelhecimento", detalha Jennifer Kaiser, ginecologista-obstetra e professora assistente de planejamento familiar complexo no Centro ASCENT de Saúde Reprodutiva da Universidade de Utah. Ela acrescenta que, se houver ganho de peso, é possível trabalhar com seu médico para ajustar a dose ou mudar os métodos de controle de natalidade.

A pílula aumenta minhas chances de desenvolver coágulos sanguíneos?

Cerca de 1 em cada 3000 mulheres que tomam a pílula desenvolverá um coágulo sanguíneo, de acordo com a National Blood Clot Alliance. Embora esse seja um dos riscos mais significativos associados à pílula, ainda é extremamente raro, segundo os especialistas.

Esse risco se aplica a qualquer método anticoncepcional que envolva estrogênio porque o hormônio estimula o fígado a produzir mais substâncias que podem formar coágulos, diz Kaiser. Isso significa que as pílulas contendo somente de progestagênio não apresentam riscos de coágulos sanguíneos.

Enquanto isso, a gravidez, que introduz muito mais estrogênio no corpo, acarreta um risco significativamente maior de coágulos, explica Teal. As pessoas que tomam a pílula têm aproximadamente o dobro do risco de sofrer um coágulo sanguíneo em comparação com as que não tomam a pílula. A gravidez aumenta esse risco de 5 a 20 vezes, diz Teal, dependendo da idade, do peso e do status de fumante. Nas primeiras seis semanas após o parto, esse risco aumenta de 40 a 65 vezes.

Isso é o que os pesquisadores chamam de risco relativo, ou seja, o risco de você ter um coágulo enquanto estiver tomando a pílula em comparação com o risco de não tomar a pílula. Quando se trata de risco absoluto, que é a probabilidade de você realmente desenvolver um coágulo enquanto estiver tomando a pílula, as chances são "incrivelmente baixas", diz Teal.

A pílula pode aumentar meu risco de desenvolver câncer de mama?

Os estudos são conflitantes, mas alguns mostram que as pessoas que estão usando ou usaram recentemente qualquer pílula anticoncepcional hormonal têm um risco cerca de 25% maior de desenvolver câncer de mama em comparação com as que não usam. Alguns dados sugerem que esse risco aumenta quanto maior for o tempo de uso da pílula.

Esse risco diminui quando você para de tomá-la e desaparece completamente após cerca de 10 anos.

O estrogênio e a progesterona estimulam o desenvolvimento e o crescimento de alguns tipos de câncer. Como a pílula contém versões sintéticas desses hormônios, supõe-se que ela possa estimular o crescimento do câncer em pessoas que já têm mutações nas células do tecido mamário, exemplifica Heather Eliassen, professora de epidemiologia da Harvard T.H. Chan School of Public Health, que estuda o câncer de mama como diretora do Nurses' Health Study II.

Entretanto, o risco absoluto é muito menor, diz Eliassen. Isso se deve ao fato de que a maioria das pessoas que tomam a pílula são jovens e relativamente saudáveis. À medida que envelhecemos, o risco de câncer de mama aumenta naturalmente.

As pessoas que têm os genes BRCA1 e BRCA2, que aumentam o risco de câncer de mama, podem ter maior probabilidade de desenvolver a doença enquanto tomam a pílula, em comparação com as que não têm esses genes. Mas Kaiser acredita que esse efeito ampliado é "bastante mínimo" quando se considera que esses genes também aumentam o risco de câncer de ovário, contra o qual se descobriu que a pílula protege. 

A pílula pode me proteger de outros tipos de câncer?

Sim. Pesquisas mostram que as pessoas que já usaram a pílula têm um risco 30 a 50% menor de câncer de ovário do que aquelas que nunca a usaram.

Estudos também descobriram que a pílula pode reduzir o risco de câncer endometrial em pelo menos 30% e de câncer colorretal em 15 a 20%, de acordo com o National Cancer Institute.

A pílula reduz a libido?

Não há evidências sólidas que sugiram que isso aconteça de modo geral, mas estudos descobriram que entre 5% e 48% das pessoas que tomam a pílula relatam uma queda no desejo sexual.

Isso faria sentido, diz Hill, porque a pílula reduz os níveis de testosterona, um hormônio que promove a libido nas mulheres.

É seguro fumar enquanto estiver tomando a pílula?

Fumar enquanto estiver tomando a pílula pode aumentar o risco de coágulos sanguíneos e pressão alta – ambos são fatores de risco para ataque cardíaco e derrame – especialmente se você tiver 35 anos ou mais.

Estudos demonstram que o aumento dos níveis de estrogênio da pílula está associado a um metabolismo mais rápido da nicotina, o que leva a uma maior dependência, desejo e sintomas de abstinência.

Em geral, se você fuma 15 ou mais cigarros por dia, não use a pílula ou outros métodos de controle de natalidade que envolvam estrogênio, de acordo com a Planned Parenthood. Se você fuma ou vaporiza nicotina, converse com seu médico sobre qual método anticoncepcional é seguro para você.

É seguro usar pílulas somente de progestagênio ou outros métodos sem estrogênio, como a injeção, o implante e o DIU.

A pílula pode dificultar a minha gravidez?

Não. Você pode engravidar imediatamente após parar de tomar a pílula, independentemente do tempo de uso.

Na verdade, é muito provável que você engravide no mês seguinte ao término do uso da pílula porque seus hormônios sofrem um "efeito rebote", explica Teal, tornando-a mais fértil do que o normal. A pílula também pode protegê-la da doença inflamatória pélvica, uma infecção dos órgãos reprodutivos que pode levar à infertilidade.

Entretanto, a fertilidade diminui naturalmente com a idade, alerta Kaiser. Portanto, se você começou a tomar a pílula aos 18 anos e agora quer engravidar aos 36, sua fertilidade de base será diferente, afirma Kaiser, "não por causa da pílula, mas porque você está mais velha".

Devo me preocupar com os riscos de longo prazo da pílula?

Absolutamente não, diz Hill. Não há evidências de que a pílula cause alterações permanentes no corpo.

Os efeitos colaterais são normais, comuns e temporários. Cerca de dois a três meses após o início da pílula, seu corpo terá se ajustado às alterações hormonais e quaisquer sintomas desconfortáveis deverão desaparecer.

É melhor não tomar a pílula?

Somente você sabe o que é melhor para você e sua saúde em um determinado momento. Talvez seja melhor evitar certos tipos de pílulas se você já teve problemas como hipertensão não controlada, um distúrbio de coagulação sanguínea, diabetes grave, derrame ou lúpus.

No entanto, quando se trata de riscos à saúde, não há como negar o fato de que a gravidez é o mais sério de todos, dizem os especialistas. As complicações da gravidez incluem depressão, problemas cardíacos, diabetes, anemia, infecção e morte. 

Enquanto isso, as taxas de mortalidade materna estão aumentando nos EUA, situando-se em 32,9 mortes por 100 000 nascidos vivos em 2021, em comparação com uma taxa de 23,8 em 2020 e 20,1 em 2019.

"Falamos muito sobre os riscos dos anticoncepcionais porque as pessoas sentem que estão optando por tomar algo que não precisam necessariamente tomar", acredita Kristyn Brandi, ginecologista-obstetra e especialista em planejamento familiar complexo que é bolsista Darney-Landy do American College of Obstetricians and Gynecologists.

"Mas, ao mesmo tempo", diz Brandi, "estar grávida é sempre mais perigoso do que não estar grávida".

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