Por que revelar povos indígenas isolados ainda não contatados pode ajudar a salvá-los

Vídeo divulgado recentemente pela Funai mostrando comunidades isoladas na Amazônia inicia um debate sobre dar a eles atenção que nunca buscaram.sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A decisão brasileira de liberar vídeos de aldeias indígenas isoladas reflete um desconforto crescente entre representantes legais de que o tempo de proteger as últimos povos “isolados” da Amazônia e suas terras pode estar acabando.

Desde julho, a Fundação Nacional do índio (Funai) liberou dois vídeos filmados durante expedições para monitorar e proteger povos indígenas que vivem em reservas isoladas do mundo externo.

No primeiro, um homem forte é visto cortando uma arvore na floresta. Foi filmado furtivamente de uma curta distância por uma equipe da Funai encarregada de protegê-lo. O homem vive sozinho há 22 anos no território indígena de Tanaru, de 48 quilômetros quadrados, no estado de Rondônia.

A reserva foi delimitada para protegê-lo de lenhadores e fazendeiros – acredita-se que esses tenham acabado com o resto de sua comunidade em episódios de violência durante os anos 1980 e 1990. Ninguém sabe o nome do sobrevivente solitário ou o nome da população da qual ele fazia parte.

(Relacionado: "Garimpeiros, fazendeiros e madeireiros ameaçam os últimos povos indígenas isolados")

Então, semanas depois, em 21 agosto, o Departamento de Índios Isolados e Recentemente Contatados da Funai liberou um vídeo, feito com um drone aéreo, com várias pessoas se movendo em uma clareira na floresta com plantações. Entre essas pessoas, vemos um homem com um arco e flechas de bambu. Oficiais dizem que esse vídeo é do ano passado, de uma missão nas profundezas da terra indígena do Vale do Javari, no extremo oeste do Brasil, para investigar alegações de um massacre de uma aldeia, conhecida como Flecheiros.

Os dois vídeos foram feitos sem o conhecimento ou consentimento dos sujeitos, levantando questões éticas sobre seus direitos, assim como preocupações de que essas imagens possam incitar aventureiros a buscar indígenas isolados.

Mas oficiais da Funai dizem que decidiram liberar as imagens após chegarem a um consenso entre agentes veteranos da área para aumentar a conscientização dentro do Brasil e em todo mundo quanto a existência de aldeias isoladas e seu status cada vez mais precário.

“Quanto mais as pessoas debaterem o assunto, maiores as chances de protegê-los e às suas terras”, disse Bruno Pereira, novo diretor do departamento de índios isolados, ao telefone da base da Funai em Brasília. “Com a fronteira da agricultura e de outras atividades como mineração e exploração de madeira avançando na Amazônia, essas populações podem desaparecer antes que o público saiba que elas existem”, disse Pereira.

Ele reconhece que os críticos podem considerar que usar um drone para observar as vidas dos Flecheiros é uma tática agressiva. Mas ele diz que o drone foi usado no ano passado como uma maneira de chamar atenção para os rumores de atrocidades, não para violar a privacidade do grupo.

O dispositivo remoto trouxe as primeiras imagens de um grupo isolado gravados por um drone – imagens que oferecem uma oportunidade única de colher informações sobre os Flecheiros, que podem acabar fortalecendo os esforços para proteção.

Oficiais da Funai dizem que a agência sofreu ataques dentro do Brasil nos últimos anos de grandes forças econômicas e de políticos que os acusam de impedir o desenvolvimento da Amazônia com alegações duvidosas sobre a existência de comunidades não contatadas. Grandes cortes no orçamento da Funai sob o governo do presidente Michel Temer comprometeram sua habilidade de proteger terras indígenas de forasteiros ambiciosos que buscam explorar as regiões ricas.

Líderes indígenas brasileiros aplaudiram a decisão da Funai como um passo na direção certa em proteger comunidades isoladas, que permanecem altamente suscetíveis a doenças contagiosas e estão expostas a violência pelas mãos de forasteiros.

“O fato desses grupos nunca terem tido contato os torna particularmente vulneráveis porque são invisíveis para a maioria do público”, diz Beto Marubo, que faz parte de um grupo crescente de ativistas indígenas buscando um papel de liderança para falar em nome de seus irmãos isolados.

Seu povo, hoje Marubo, está entre as seis aldeias contatadas que vivem dentro do Vale do Javari, que se dividem com pelo menos 11 comunidades isoladas, inclusive os Flecheiros. “O enfraquecimento da instituição governamental responsável por sua proteção”, disse Beto Marubo em um texto de Brasília, “aumentar os riscos para os grupos isolados.”

Há muitos mistérios tanto no caso do sobrevivente solitário em Rondônia quanto no caso dos Flecheiros no Vale do Javari. Nenhum dos grupos jamais teve um contato direto e pacífico com o mundo externo. Assim como o sobrevivente solitário, ninguém sabe como os Flecheiros realmente se chamam. Eles receberam este apelido devido à sua reputação como bons arqueiros, para distingui-los de outros grupos isolados da reserva do Javari que usam tacos ao invés de flechas como armas.

A quase 800 km de distância, na Reserva Tanaru, o sobrevivente solitário continua evitando contato direto com pessoas de fora. Ele foge dos oficiais da Funai que monitoram seus movimentos, deixam sementes e ferramentas de presente para ele e patrulham o perímetro da reserva contra invasores que possam comprometer sua sobrevivência.

A abertura da Funai parece ter gerado um certo nível de confiança, disse Pereira, citando momentos em que o homem sinalizou que as patrulhas evitassem buracos que ele cavou para se defender de intrusos e para capturar animais selvagens.

Também cava buracos profundos e estreitos dentro das cabanas com telhado de palma que ele constrói para si conforme anda sozinho pela reserva. Agentes da Funai descobriram dúzias dessas habitações no curso de seu monitoramento, todas com um poço característico escavado no centro. Os oficiais ainda ficam perplexos com as escavações, mas alguns acreditam que possam ser um vestígio das práticas espirituais de seu povo. Sem saber o nome deles, os oficiais passaram a se referir a ele simplesmente como “o índio do buraco”.

“Sinto que tenho o dever de compensá-lo de qualquer maneira que possa por tudo que aconteceu com ele e seu povo”, disse Altair Algayer, o agente da Funai responsável por sua proteção ao longo dos últimos 13 anos, em um e-mail escrito de uma base na floresta.

Algayer espera que a divulgação recente do vídeo do sobrevivente solitário sirva como um convite para os oficiais brasileiros “assumirem suas responsabilidades”, ajudando a redobrar o trabalho da agência para protege-lo e às outras comunidades tribais da Amazônia.

“A integridade dessas comunidades é motivo para preocupação, não apenas para brasileiros, mas para toda a humanidade”, disse Felipe Milanez, professor de humanidades na Universidade Federal da Bahia, quer por duas vezes acompanhou oficiais da Funai em expedições de pesquisa na terra onde vive o homem solitário. “Ele não deve ser visto como um recluso se escondendo da sociedade. O homem é sobrevivente de um genocídio. Ele não escolheu viver sozinho.”

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