Cultura

Alucinógenos antigos encontrados em bolsa xamânica milenar

O recipiente utilizado em rituais, confeccionado com o focinho de três raposas, contém a mais antiga evidência do preparado de ayahuasca.segunda-feira, 20 de maio de 2019

Por Erin Blakemore
Um membro da tribo brasileira Huni Kuin prepara a ayahuasca para um ritual de cura. O preparado da planta psicoativa é originário dos povos da bacia do rio Amazonas.

UMA PEQUENA BOLSA, habilmente costurada com o focinho de três raposas, pode conter a mais antiga evidência arqueológica do consumo de ayahuasca, um preparado de plantas psicoativas originário dos povos da bacia do rio Amazonas que provoca fortes alucinações.

Acredita-se que a bolsa tenha pertencido a um xamã, que vivia no local onde hoje fica o sudoeste da Bolívia, há cerca de mil anos, de acordo com José Capriles, antropólogo da Universade Estadual da Pensilvânia e autor de um estudo publicado hoje sobre a descoberta na revista científica PNAS.

Capriles encontrou a bolsa — e evidências de seu conteúdo que provoca alucinações — durante uma escavação arqueológica em Cueva del Chileno, uma caverna que contém indícios de atividade humana de 4 mil anos atrás.

A caverna já foi utilizada como túmulo e, embora os corpos tenham sido levados anos depois por saqueadores, foram deixados no local alguns objetos considerados inúteis por eles — terços, tranças de cabelo humano e um objeto que Capriles acreditava ser um sapato de couro.

Aquele “sapato” acabou se tornando um tesouro arqueológico — uma bolsa ou pacote de couro usado em rituais contendo a bolsa feita de focinho de raposa, uma tiara decorada, pequenas espátulas feitas de ossos de lhama, além de um tubo entalhado e pequenas bases, usados para inalar substâncias. A datação por radiocarbono da superfície da bolsa de couro indicou que ela foi utilizada em algum momento entre 900 a 1.700 d.C.

Diversas substâncias psicoativas

O pacote continha vestígios de plantas secas, mas Capriles e sua equipe de pesquisa internacional não conseguiram determinar sua identidade com precisão. Ainda, analisando quais outras plantas o xamã pode ter armazenado em sua bolsa, os pesquisadores analisaram a assinatura da composição química do conteúdo da bolsa de focinho de raposa e a compararam com a de diversas plantas.

Eles descobriram que a bolsa já carregou diversas substâncias psicoativas. A análise revelou traços de bufotenina, benzoilecgonina (BZE), cocaína (provavelmente proveniente da folha de coca), dimetiltriptamina (DMT), harmina, e provavelmente psilocina, um componente químico presente em cogumelos alucinógenos.

O dono da bolsa provavelmente fazia muitas viagens ou se relacionava com uma grande rede de comércio, pois nem todas as plantas presentes na bolsa eram nativas do sudoeste da Bolívia. A harmina é um composto presente em abundância no cipó-mariri, nativo das regiões tropicais do norte da América do Sul, localizado a centenas de quilômetros dali. E a equipe acredita que a DMT tenha vindo da chacrona, uma planta nativa das planícies da Amazônia. “Essa pessoa se deslocava por grandes distâncias ou tinha acesso a pessoas com tal alcance”, diz Capriles.

Um curandeiro oferece ayahuasca durante um ritual de cura na Colômbia. A descoberta na caverna boliviana agora é a evidência arqueológica mais antiga do consumo de ayahuasca.

O suposto xamã também tinha acesso a experiências psicodélicas intensas provavelmente graças à combinação de harmina com DMT. A harmina presente no cipó-mariri é o principal ingrediente da ayahuasca atual, que normalmente é combinada com a chacrona que contém DMT. Quando misturadas, essas substâncias interagem e causam alucinações fortes, além de náuseas e vômitos.

Uma perspectiva mais antiga

Atualmente, a ayahuasca é divulgada como um preparado “antigo”. Contudo, a verdadeira idade da bebida e do ritual é contestada. A descoberta de Capriles pode ser considerada a evidência arqueológica do consumo de ayahuasca mais antiga do mundo, apesar de não ser possível provar que o xamã de Cueva del Chileno tenha preparado ou administrado a ayahuasca a partir dos ingredientes detectados na bolsa.

Os preparados de ayahuasca usados atualmente “são idiossincráticos”, afirma Dennis McKenna, especialista em etnofarmacologia que trabalha com plantas alucinógenas e realiza retiros de ayahuasca no modelo atual. “Cada xamã praticamente cria sua própria bebida”. Contudo ele concorda que as substâncias encontradas na bolsa do xamã de Cueva del Chileno possam ter sido utilizadas no preparo da ayahuasca.

“Algumas pessoas afirmam que a [ayahuasca] seja uma criação recente,” diz Scott Fitzpatrick, arqueólogo da Universidade de Oregon que não participou da pesquisa. “O ritual de ayahuasca agora ganhou uma perspectiva mais antiga”.

Hoje, a ayahuasca está se popularizando novamente. Seus efeitos psicodélicos — e seus possíveis benefícios psiquiátricos para pessoas com transtornos do humor e outras doenças — aumentam a demanda pela bebida tanto na América do Sul como nos Estados Unidos, onde xamãs oferecem cerimônias de ayahuasca a seguidores curiosos.

Experiências surpreendentes

Capriles admite que essa descoberta acaba sendo utilizada para divulgar os rituais modernos de ayahuasca voltados a turistas, mas ele ressalta a natureza sagrada do trabalho do xamã. “Essas pessoas não usavam a bebida como alucinógeno para se divertir,” ele afirma.

Tampouco, o pacote do ritual foi deixado na caverna por acidente. “Acreditamos que tenha sido deixado intencionalmente,” acrescenta ele. “Esse tipo de comportamento é comum em locais onde ocorriam rituais.”

Os usuários modernos não necessariamente experimentam a droga por motivos espirituais, diz McKenna. “Hoje em dia, o uso é muito diferente — não que seja necessariamente pior, mas é diferente”.

Contudo, McKenna, que passou anos estudando e coletando amostras de ayahuasca, observa um consenso entre os curandeiros antigos e aqueles que hoje buscam experiências psicodélicas intensas. “Quando uso essas substâncias, normalmente fico impressionado com a experiência,” ele conta. “Eles também devem ter ficado impressionados na época”.

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