Ataque trágico ameaça futuro de povos isolados da Amazônia

Indígenas isolados confundiram Rieli Franciscato com um invasor. Acabaram flechando um defensor obstinado das populações tradicionais do Brasil.

Publicado 18 de set de 2020 15:52 BRT, Atualizado 5 de nov de 2020 02:56 BRST
Rieli Franciscoti, à direita, participa de uma expedição para documentar povos isolados na terra indígena Vale ...

Rieli Franciscoti, à direita, participa de uma expedição para documentar povos isolados na terra indígena Vale do Javari, em 2001, em nome da Funai. À esquerda, o comandante da expedição, Sydney Possuelo, então chefe do Departamento de Povos Indígenas Isolados da Funai.

Foto de cortesia de Sydney Possuelo

A morte de Rieli Franciscato, antigo defensor dos indígenas brasileiros, provocada por povos isolados, abalou colegas que temem que o evento possa afetar de forma significativa a proteção de populações vulneráveis.

Franciscato tinha 56 anos quando foi morto em 9 de setembro com uma flechada no tórax enquanto seguia pegadas de membros do povo conhecido como “isolados do Cautário”. Em um curto período de tempo, ele havia montado uma pequena equipe de patrulheiros e policiais para tentar neutralizar um possível conflito entre os povos do Cautário e colonos rurais no estado de Rondônia.

Agente de campo de longa data da Fundação Nacional do Índio (Funai), Franciscato era visto como um dos defensores mais experientes e comprometidos dos povos que vivem em isolamento extremo na floresta amazônica.

Um defensor ferrenho dos povos indígenas ter sido morto pelas mesmas pessoas às quais dedicou sua vida a proteger é uma ironia trágica que não passou despercebida pelos defensores dos direitos indígenas. Líderes indígenas temem que a chefia da Funai, repleta de indicações do presidente Jair Bolsonaro, substitua Franciscato por alguém disposto a forçar contato com os indígenas – o que seria uma violação à constituição e a uma antiga política de não-contato.

“Os grupos isolados de Rondônia podem ter perdido o único defensor que protegia seus territórios e até mesmo sua integridade física”, lamenta Beto Marubo, líder indígena do Vale do Javari, no extremo oeste do Brasil, que abriga o maior número de povos isolados na Amazônia.

Mapa de Matthew W. Chwastyk e Christine Fellenz, NG Staff.Fonte: IBGE; Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina.

Os isolados do Cautário levam o nome da bacia hidrográfica onde habitam, na extensa terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Franciscato, que trabalhou com indígenas na região por mais de duas décadas, informou a pesquisadores no ano passado que acreditava que o grupo tivesse cerca de 300 membros. A partir da análise minuciosa de pegadas, acampamentos abandonados e outros artefatos, Franciscato presumiu que o grupo do Cautário era formado por quatro povos nômades, invisíveis aos forasteiros, que ocasionalmente se reuniam na floresta. Ninguém sabe que língua falam ou como se autodenominam. Especialistas dizem que eles não saberiam distinguir um aliado de um inimigo ao se depararem com Franciscato seguindo suas pegadas na selva, como aconteceu na semana passada.

“Todo sertanista sabe que, para proteger os povos isolados, precisamos nos adentrar na fronteira e nos próprios grupos isolados”, diz o servidor aposentado da Funai, Antenor Vaz, referindo-se à profissão exclusivamente brasileira de ativistas-exploradores que monitoram e defendem os povos isolados em situação de extrema vulnerabilidade. “Em momentos de tensão, quando os indígenas isolados se sentem ameaçados, não conseguem identificar quem é aliado e quem não é.”

As tensões têm aumentado na região central de Rondônia nos últimos meses. As invasões de territórios indígenas em todo o estado por fazendeiros, mineradores e madeireiros estão aumentando, e defensores dos direitos indígenas dizem que incêndios iniciados por fazendeiros para limpar terras alcançaram trechos de floresta tropical. Incêndios florestais foram relatados na área onde os povos do Cautário circulam.

Em junho, os indígenas entraram nas cercanias de Seringueiras, uma cidade nos limites da reserva Uru-Eu-Wau-Wau, gerando pânico entre os agricultores. Após utilizarem uma série de utensílios domésticos, incluindo um machado e uma galinha, deixaram pedaços de carne de algum animal selvagem, claramente como um pagamento. Na época, Franciscato e seus colegas temiam que o grupo pudesse ter contraído o coronavírus durante as incursões por Seringueiras.

De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, cerca de 800 indígenas morreram em decorrência da covid-19 e mais de 31 mil indígenas foram infectados, afetando 158 comunidades. Até o momento, nenhuma infecção foi registrada nos povos que vivem na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. (O Supremo Tribunal Federal obrigada o governo a proteger os povos indígenas durante a pandemia.)

Moradores do povo Uru-Eu-Wau-Wau atravessam um rio em uma árvore caída na extensa terra indígena homônima, em Rondônia, em 2019. A reserva abriga cinco etnias indígenas, incluindo três que vivem isoladas nas profundezas da selva. Madeireiros ilegais, garimpeiros e especuladores de terras vêm invadido o território. Especialistas acreditam que o aumento das tensões contribuiu com a morte do agente de campo da Funai e defensor dos direitos indígenas, Rieli Franciscato, em 9 de setembro de 2020, que levou uma flechada dentro da reserva.

Foto de Ueslei Marcelino, Reuters

Planos para fazer contato?

Vaz conta que Franciscato lhe confidenciou, logo após a visita dos isolados à cidade de Seringueiras, em junho, que Ricardo Lopes Dias, indicado por Bolsonaro à Coordenação-Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato da Funai, instruiu-o por telefone a se preparar para contatar o grupo do Cautário. Dias é ex-missionário da Missão Novas Tribos, que busca contatar e evangelizar povos isolados. Defensores dos direitos humanos suspeitam que Dias planeje fazer contato com os últimos grupos isolados remanescentes no Brasil. Vaz relata que Franciscato, temendo represálias caso tornasse o pedido de Dias público, pediu ao colega que não contasse detalhes do telefonema a ninguém.

Em e-mail enviado à National Geographic, a Funai negou a alegação, dizendo que “não havia recomendação para... Rieli Franciscato tentar qualquer tipo de contato com os indígenas isolados da região”. O que ambos discutiram, segundo o depoimento, foi “a possibilidade de um contato natural e pacífico, sem intencionalidade por parte da Funai”.

Quando os isolados voltaram a Seringueiras na semana passada, Franciscato reuniu sua pequena equipe e começou a acalmar os ânimos dos colonos e investigar as possíveis razões do retorno dos isolados à comunidade.

Não se sabe o que os provocou, mas especialistas que trabalhavam na região dizem que atirar uma flecha com a intenção de matar parece estranhamente fora do esperado para um grupo normalmente pacífico.

“Algo deve ter acontecido... algum tipo de ataque contra eles”, disse Ivaneide Bandeira Cardozo, coordenadora do projeto da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé, grupo de direitos humanos com sede em Rondônia, que ela cofundou com Franciscato na década de 1980. “Certamente, havia algo que os assustou e os fez pensar que estavam sob ameaça.”

Em um relato dramático do incidente enviado por mensagem de voz do WhatsApp, um policial que acompanhou Franciscato descreveu como o agente de longa data seguiu as pegadas dos indígenas ao longo da fronteira da reserva indígena e na floresta. Eles haviam percorrido cerca de 30 metros quando Franciscato subiu um pequeno morro para obter uma visão melhor.

“Ouvimos o barulho da flechada acertando o tórax dele”, relembra o policial. “Ele soltou um suspiro, dizendo ‘ah!’, retirou a flecha e voltou correndo. Ele avançou cerca de 50 metros e caiu, praticamente morto”. Faleceu antes que a equipe chegasse ao hospital da cidade. Na floresta densa, ninguém conseguiu ver quem atirou a flecha.

‘Quem será a próxima vítima?’

Antigos colegas atribuem a tragédia à retórica e às políticas anti-indigenistas do presidente Bolsonaro. “Ele está desmontando a Funai, violando a constituição e causando acontecimentos dramáticos como o de Rieli”, diz Sydney Possuelo, fundador e ex-chefe do Departamento de Povos Indígenas Isolados, que existe por lei para proteger povos isolados do contato forçado de pessoas de fora. No processo, o governo esvaziou a Funai, segundo Possuelo, “deixando uma instituição paralisada, que prejudica os povos indígenas, isolados ou não”.

Antenor Vaz, ex-chefe de Franciscato que agora atua com povos isolados, diz que a liderança da Funai privou de recursos as operações de campo em toda a Amazônia, colocando em risco equipes sobrecarregadas que ainda têm a missão de proteger os povos isolados. (Defensores dos indígenas também precisam enfrentar o perigo dos madeireiros ilegais.)

Estão colocando os defensores de grupos vulneráveis, como os isolados do Cautário, “em risco iminente de morte”, diz Vaz. “Hoje foi Rieli quem nos deixou. Quem será a próxima vítima?”

Em nota da Funai enviada à National Geographic, a agência responsabilizou os governos anteriores pela falta de pessoal. “A falta de funcionários da Funai é culpa dos governos anteriores”, segundo o comunicado. “A gestão atual está trabalhando para mudar essa realidade – equipando melhor as bases, contratando funcionários, colaboradores e auxiliares indígenas”.

O comunicado da Funai elogiou Franciscato, destacando seu “profundo conhecimento da região e da população isolada – fruto de anos de serviço abnegado e altamente eficiente. Ele era insubstituível”. Mesmo assim, o processo está em andamento, segundo a Funai, “para encontrar alguém que possa dar continuidade ao trabalho exemplar desempenhado por Rieli”.

Em um vídeo sem data compartilhado nas redes sociais por seus amigos, Franciscato aparece diante das câmeras no meio da selva, evidentemente respondendo a uma pergunta sobre suas esperanças para o futuro. “O Brasil que quero para o futuro é que isto aqui continue sendo preservado, não só para os povos indígenas, mas para toda a população do entorno, que é beneficiada com esta terra indígena.”

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