Rádios comunitárias cariocas: nas caixas de som em postes e na internet

'Sinônimos de resistência', pequenas rádios do Rio de Janeiro prestam serviços essenciais e promovem a cultura das comunidades periféricas.

Programa semanal de hip-hop Resistência Urbana na rádio comunitária Pop Rio FM. O apresentador e rapper Pinah (em pé, com microfone) convida músicos das periferias cariocas para apresentar seus trabalhos. As transmissões pelo Youtube rendem fãs por todo o país.

Por Mauricio Susin
Publicado 28 de out. de 2022 11:17 BRT

"Você tem problema de andar de moto?", me perguntou Miramar Castilho assim que o encontrei no pé do Morro do Borel, uma favela na Zona Norte do Rio de Janeiro. Com o dedo apontado para o alto, ele disse: "Nossa rádio fica lá em cima, é mais rápido se formos de moto”. Respondi que não tinha problemas, pegamos um mototáxi cada um e subimos o morro em velocidade, serpenteando pelas ruas apinhadas de gente.

Paramos em frente à capela Nossa Sra. das Graças, onde uma haste metálica estendia-se verticalmente no topo da torre do sino, ao lado de uma pequena cruz de concreto. "Aquela é a antena da Grande Tijuca, a rádio comunitária aqui do Borel”, disse, sorrindo. “O transmissor FM é de baixa potência então pega apenas no Borel, mas, com a internet, a rádio vai do Borel pro mundo!"

Miramar é locutor da Grande Tijuca há mais de duas décadas. Fundada em 2001, a rádio é uma das cerca de 10 a 12 mil rádios comunitárias em funcionamento no Brasil, segundo dados da Associação Mundial de Rádios Comunitárias. A reportagem visitou o estúdio da Grande Tijuca e de outras rádios comunitárias na periferia da cidade do Rio de Janeiro entre 2021 e 2022.

Proibidas de veicular propagandas e com finalidade, definida por lei, de atender a comunidade – dando “oportunidade à difusão de ideias, elementos de cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade” e “prestando serviços de utilidade pública”, entre outras atribuições –, as rádios comunitárias fogem da lógica das grandes emissoras comerciais de grande alcance.

O radialista Miramar Pereira, da rádio Grande Tijuca, posa para retrato em frente ao Morro do Borel, Rio de Janeiro. "Aqui no Borel a rádio comunitária é sinônimo de resistência, é um grito coletivo daqueles que não têm voz, que vivem à margem do sistema”, disse Miramar em entrevista à reportagem.

À esquerda: No alto:

Miramar Pereira conserta as caixas de 'rádio-poste' da rádio Grande Tijuca, no Morro do Borel, Rio de Janeiro. As caixas são instaladas no alto dos postes e transmitem a programação da rádio.

À direita: Acima:

Miramar Pereira entrevista jovens da ONG Jovens com uma Missão na rádio Grande Tijuca. 

"Aqui no Borel a rádio comunitária é sinônimo de resistência, é um grito coletivo daqueles que não têm voz, que vivem à margem do sistema”, comenta Miramar. “Rádio comunitária é espontânea, imediata e um canal de fortalecimento da identidade local.”

O estúdio da Grande Tijuca fica no segundo andar do prédio vizinho à antena, onde, sozinho, Miramar comanda a programação. Além de transmitir em FM e pela internet, a emissora também funciona como rádio-poste – transmissão através de uma rede de dezenas de caixinhas de som penduradas em postes das ruas da comunidade.

A rádio-poste ainda é utilizada em diversas rádios comunitárias do Rio, como a rádio PJ, no Rio das Pedras, ou a rádio Brisa, na Rocinha, e acaba sendo uma fonte de renda para essas rádios através da publicidade do comércio local ao contornar a lei que impede que as rádios comunitárias em FM tenham fins lucrativos.

Os radialistas entrevistados pela reportagem contestam a lei, dizem que ela acaba acentuando as dificuldades financeiras em manter suas rádios. Assim, a rádio-poste vira uma mão de via dupla – enquanto a publicidade mantém o funcionamento da rádio, a rádio incentiva a promoção de pequenas empresas e trabalhadores autônomos locais, forças motrizes que impulsionam a sustentabilidade econômica de comunidades inteiras, em grande parte desassistidas por serviços e empresas que não sobem o morro.

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Radialista Evandro Gomes na rádio Bicuda FM. Durante a pandemia, a rádio lançou, em parceria com a escola municipal Irmã Zélia, o programa Hora da Escola – um esforço para tentar coibir a defasagem educacional da comunidade em isolamento social.

À esquerda: No alto:

Igor Borges com sua filha na rádio Bicuda FM, uma das mais antigas rádios comunitárias do Rio. "Todos os comunicadores são voluntários, ninguém recebe nada por isso. É por amor mesmo”, diz ele.

À direita: Acima:

Estúdios da rádio Bicuda FM, uma das mais antigas rádios comunitárias na Zona Norte do Rio.

Naquela manhã, Miramar recebeu jovens para falarem dos projetos sociais realizados pela Jovens com uma Missão, ONG que atua no Borel há mais de 30 anos. "A rádio comunitária é importante, pois nem sempre as informações chegam na comunidade e a rádio assume esse papel”, disse Rayara Costa Teixeira, 24 anos, moradora do Borel há dois e voluntária na ONG. "Na pandemia, por exemplo, foi importante na divulgação da vacinação e para conscientizar o povo sobre os riscos de não usar a máscara. Acho que a rádio do Miramar é fundamental na nossa comunidade."

O meu lugar

No início de 2021, em plena pandemia de Covid-19, a rádio Bicuda FM lançou o programa Hora da Escola em parceria com a escola municipal Irmã Zélia, ambas localizadas em Madureira, Zona Norte do Rio. O programa, idealizado pela diretora da escola, Margarete de Sousa, e pelo presidente da Bicuda, Evandro Gomes, trouxe professoras para dentro do estúdio da rádio e transmitiu, diariamente, aulas de história, português e outras lições para centenas de alunos enquanto a escola estava fechada.

"Nossa escola está no meio de sete comunidades muito pobres, e com a piora da pandemia, fechamos as portas da escola”, diz Margarete. “Então era necessário manter contato com nossos alunos, e surgiu a ideia de fazer aulas de reforço escolar via rádio. A rádio comunitária foi uma solução perfeita, pois todo mundo tem um rádio, é um meio universal e democrático, principalmente para aquelas famílias sem acesso a internet e excluídas digitais.”

O programa foi um sucesso, e Evandro já pensa em expandir o projeto. A ideia é promover um novo programa, voltado ao debate da educação, com participação de professores, políticos e comunicadores.

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Elias Lira da rádio Brisa com sua caixinha de rádio-poste na favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Elias também atua em projetos para a educação de jovens – especialmente com esportes e capoeira – e usa a rádio comunitária para divulgar as iniciativas.

Foto de Mauricio Susin

Vista da Favela da Rocinha onde fica a Rádio Brisa.

Na Rocinha, o radialista Elias Lira, da rádio Brisa, também atua em projetos para a educação de jovens – especialmente com esportes e capoeira – e usa a rádio comunitária para divulgar as iniciativas. Além disso, a rádio transmite entrevistas com especialistas sobre saúde. Durante a visita da reportagem, Elias conversava com a terapeuta sexual Erika Mahya sobre educação sexual e doenças sexualmente transmissíveis.

Rádios comunitárias são também canais para artistas locais mostrarem seu trabalho. Durante visita à rádio Pop Rio, no Catete, encontrei o rapper Pinah, que apresenta aos sábados o Resistência Urbana, um programa que busca dar visibilidade a músicos e talentos da periferia carioca.

"É um lugar para se expressar. Não só rappers, mas DJs, B-boys, grafiteiros. A rádio comunitária dá voz a quem não tem espaço no sistema, aproxima os grupos, cria conexões entre músicos e público", diz Pinah.

O programa é conduzido em um estúdio bem-equipado, onde Pinah abre espaço para entrevistas e apresentações ao vivo. Naquela noite, um show eletrizante: os rappers Deiv e SL MC, ambos do Complexo da Maré, tocavam com participação do DJ Maia. Transmitido simultaneamente pelo YouTube e redes sociais, o programa angaria fãs, incluindo este repórter, para além da comunidade onde está inserido.

No Vidigal, José Wanderley Gomes está à frente da única rádio comunitária, a Estilo Livre. "A divulgação de artistas na Estilo Livre é preferencialmente de grupos locais. O Vidigal é um celeiro de artistas. Tem muita produção artística”, diz José Wanderley. “Um exemplo é o grupo Melanina Carioca, que faz muito sucesso no Brasil todo."

A rádio opera na comunidade há mais de 20 anos, mas hoje existe apenas como web rádio – a transmissão em FM foi interrompida em 2015. José conta que tentou inúmeras vezes obter a outorga, mas sem sucesso. "Para conseguir a outorga, as rádios precisam de apoio político ou ter recursos jurídicos para avançar no processo que é muito burocrático", diz ele.

Programa de hip-hop Resistência Urbana na rádio comunitária Pop Rio FM. No dia da visita da reportagem, os rappers Deiv e SL MC, ambos do Complexo da Maré, tocavam com participação de DJ Maia.

Trabalho árduo

Manter uma rádio comunitária não é tarefa fácil e seus radialistas precisam ser aguerridos. Miramar, da Grande Tijuca, por exemplo, é conhecido como Dom Quixote do Borel, por sua “persistência e loucura” no trabalho com a rádio.

Na rádio Bicuda FM, o operador de áudio Igor Borges de Amorim, de 35 anos, trabalhava com a filha pequena a tiracolo. "Todos os comunicadores são voluntários, ninguém recebe nada por isso. É por amor mesmo”, diz ele.

Parte do problema está na lei de radiodifusão comunitária, de 1998. “A Lei 9.612/98 reconheceu as rádios comunitárias no Brasil, mas em contrapartida engessou o desenvolvimento das rádios, proibindo-as de fazer publicidade ou acessar verba pública ou privada, e, ainda, limitando muito os níveis de potência e número de canais de operação", explica Geremias dos Santos, presidente da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraco). "Como se pode proibir uma rádio comunitária de fomentar o comércio local, através da veiculação de propaganda? Isso acaba impedindo que as rádios comunitárias tenham recursos para manter a qualidade da programação e realizar a manutenção de equipamentos."

Outro problema é a dificuldade em obter a outorga de operação junto ao Ministério das Comunicações. "O processo de outorga de rádios comunitárias demora em média seis anos, e a burocracia e exigências técnicas faz com que boa parte dos projetos sejam arquivados", diz Geremias. A Abraco acredita que o Brasil poderia ter mais de 20 mil rádios comunitárias, envolvendo um maior número de comunidades periféricas urbanas, indígenas, quilombolas e povoados isolados. "A rádio em comunidades periféricas é uma questão de sobrevivência e preservação cultural", comenta Geremias.

Radialista José Wanderley Gomes da rádio Estilo Livre, no Vidigal, Rio de Janeiro. A rádio opera na comunidade há mais de 20 anos, mas hoje existe apenas como web rádio – a transmissão em FM foi interrompida em 2015. 

O radialista Wanderley no estúdio da rádio Estilo Livre. "A divulgação de artistas na Estilo Livre é preferencialmente de grupos locais. O Vidigal é um celeiro de artistas. Tem muita produção artística”, diz ele.

Ainda assim, mesmo com as adversidades financeiras e a crescente concorrência com o conteúdo disponível na internet, milhares de rádios comunitárias ainda resistem no Brasil. Talvez exista algo diferente no rádio, algo mágico, que persiste ao tempo, e que sobreviveu à criação da televisão, no passado, e, agora, às mídias digitais.

Como conta o poeta americano Jack Gilbert: "Alguns anos atrás, perguntaram a uma criança se ela gostava mais de rádio ou televisão. O menino disse rádio, porque as imagens eram melhores".

Além da voz e do som, não há imagens disponíveis além das imaginadas, decifradas e construídas pelos ouvintes. A rádio gera uma sensação de proximidade, familiaridade, que talvez nenhuma outra mídia consiga equiparar.

Mas há também tem um papel utilitário importante. Ao longo da história, o rádio sempre se adaptou a situações de crise, graças ao fato de ser o meio mais universal, com a tecnologia mais simples e acessível – conceito ideal para as rádios comunitárias, cujos recursos costumam ser limitados.

De minúsculos estúdios instalados nas favelas cariocas, em cidades interioranas ou nas zonas rurais país afora, as rádios comunitárias são pequenas vozes que ressoam um grito coletivo da população mais vulnerável.

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