Cultura

A arriscada vida das mulheres exiladas das famílias por menstruarem

No Nepal, uma antiga crença sobre a impuridade do sangue da menstruação faz com que meninas e mulheres sejam banidas para casebres precários.

Por Sarah Stacke
Fotos de Poulomi Basu
Uma, 14, não contou para ninguém sobre a sua primeira menstruação por medo de ser mandada para o exílio, diz Basu. Quando não pôde mais esconder o sangramento, sua família descobriu. Como punição, ela foi obrigada a dormir em cima de fardos de feno no celeiro.

A MÃE DA FOTÓGRAFA Poulomi Basu, já viúva, não usa a cor vermelha. Na Índia, país natal de Basu, o vermelho simboliza a puridade e o pecado, além de ser usado para marcar ocasiões auspiciosas. A cultura tradicional hindu diz que as viúvas devem usar apenas saris brancos, a cor do luto e da morte, pelo resto de suas vidas. Além disso, elas são proibidas de participarem de eventos comemorativos ou de se casarem novamente.

Nos 16 anos desde a morte de seu pai, Basu, de 33 anos, convenceu sua mãe a trocar suas vestimentas brancas por tecidos mais vivos, mas ela ainda se recusa a usar a cor vermelha ou tons vibrantes de rosa. Basu conseguiu reverter uma tradição opressiva na vida de uma das pessoas mais importantes para ela: sua mãe. “Temos de começar um a um” disse Basu sobre sua abordagem para a realização de mudanças.

“Ao crescer, percebi que os costumes e tradições são usados como forças para colocar as mulheres em posição de submissão e controlá-las”, e isso inclui o uso das cores, ela disse.

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Em seu trabalho “A Ritual of Exile”, Basu estuda o vermelho em relação ao sangue da menstruação. Seu objetivo a longo prazo é o de ajudar a acabar com a prática hindu chamada Chaupadi, que pune mulheres menstruadas com isolamento e um ciclo normalizado de violência perpetuado pelos costumes, tradições e religião.

Fotografado no país vizinho, o Nepal, seu trabalho revela as condições extremas suportadas por mulheres em regiões rurais durante uma semana a cada mês pelos 35 a 45 anos de seus ciclos menstruais. Vistas como impuras, intocáveis e capazes de trazer calamidade às pessoas, aos rebanhos e à terra quando sangram, mulheres são banidas de suas casas. Algumas são colocadas em barracos próximos, enquanto outras devem se afastar 10 a 15 minutos de suas casas a pé através de florestas densas até pequenas cabanas isoladas. Quando banidas, as mulheres enfrentam e muitas vezes morrem como consequência de temperaturas brutalmente altas, de asfixia devido as fogueiras que acendem à noite para se aquecerem durante o inverno, do veneno de cobras peçonhentas, e de estupro.

Basu começou seu projeto ainda em andamento em 2013, visitando o Nepal por uma média de duas semanas ao ano. O acesso é difícil e muitas vezes depende de vigilantes, como os maridos, sogras, professores escolares e as mulheres temporariamente rejeitadas. Tendo de caminhar por seis a oito horas através de terrenos montanhosos para chegar às vilas onde acontece o Chaupadi, Basu teve tempo para refletir. “Eu não conseguia acreditar na dor que existia em meio a tanta beleza e paisagens que associamos com liberdade e aventura” ela explica.  Para Basu, o elevado e turbulento interior do Nepal, seja um céu brilhante repleto de estrelas ou as nuvens de uma tempestade, passou a simbolizar a dor que as mulheres enfrentam aqui.

“Meu trabalho é muito silencioso, uma vez que boa parte dele fala sobre lutas silenciosas e protestos silenciosos, que vêm com a opressão de mulheres em uma sociedade patriarcal”, observa Basu.

Basu lembra a história de Lakshmi, uma mulher de 30 e poucos anos com três filhos. Seu marido partiu há cinco anos e nunca mais voltou. Mesmo assim, Lakshmi se coloca devidamente em exílio quando menstrua. Suas ações são exigidas por sua sogra. Lakshmi é obrigada a levar seus filhos com ela para a floresta remota.

Depois, ela conta a história de uma professora escolar, uma das únicas mulheres que conheceu na vila que não pratica o Chaupadi. Quando sua melhor amiga morreu após ser estuprada em exílio, seu marido apoiou sua decisão de abandonar a tradição. Em um panorama geral, diz Basu, este é um momento positivo na história do Chaupadi.

Uma de suas imagens preferidas mostra Chandra Tiruva, de 34 anos, seu filho, Madan, de dois anos, dividindo um casebre com Mangu Bika, de 14 anos. As mulheres, cumprindo com o Chaupadi no mesmo período, dormem próximas uma da outra. “É um momento muito tenro” diz Basu. “Mesmo em exílio, a criança tenta alcançar o seio da mãe. É um momento de paz e amor dentro daquele espaço”.

Basu conhece o sentimento de ter outras pessoas tomando decisões por ela e a raiva e frustração que isso traz. “Eu não podia entrar na cozinha quando minha menstruação começava e festas religiosas eram proibidas nesse período” ela relembra.

Ela também tem familiaridade com a força de uma mãe que fará tudo o que for possível para ajudar sua filha a quebrar o ciclo de tristeza e injustiça. Após a morte de seu pai, o irmão mais velho e conservador de Basu tornou-se o responsável pela família. Basu decidiu sair de casa, e com a inesperada ajuda financeira e o apoio de sua mãe, mudou-se para Mumbai. Sua decisão provou ser o grande catalisador para sua vida livre de restrições tradicionais que ela agora leva. “São poucas as pessoas que têm a opção que eu tive” admite. “Se [minha mãe] tivesse chorado, implorado e dito que eu não podia ir, eu não teria partido”.

Nas imagens que captura, Basu reconhece a conexão emocional que ela traça entre suas próprias experiências e as mães que protegem instintivamente suas filhas diante de circunstâncias extremas.

Independente do fato do Chaupadi ter sido declarado ilegal pela Suprema Corte do Nepal em 2015, as mulheres que Basu fotografa foram treinadas para aceitarem a tradição sem reclamações. Mesmo assim, manter o silêncio não significa que elas tenham aceitado o Chaupadi para suas filhas. Algumas confessaram clandestinamente para Basu: “Você pode levar minha filha? Leve-a para a cidade com você. Leve-a e corra”.

A estrada para a revolução não é fácil, diz Basu.

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