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20 objetos usados como moeda de troca na Cracolândia

As transações definidas pelo vício fazem girar uma lista de mercadorias improváveis, mas a maioria das pessoas deseja a recuperação e uma nova chance. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Gabi Di Bella
Fotos de Gui Christ

“A coisa mais cara que eu vendi um dia na Cracolândia foi a minha liberdade.” Assim Marivalter de Oliveira, de 43 anos, resume a sua vida como dependente de crack – um período sombrio que ele tenta desesperadamente deixar para trás. Por ora, Marivalter ainda é um entre tantos frequentadores da Cracolândia, na zona central de São Paulo, um lugar em que a miséria de hoje contrasta com a opulência do passado. Campos Elíseos foi o primeiro bairro planejado para a elite paulistana e onde, a partir do final do século 19, barões do café ergueram mansões e palacetes.  

Uma pesquisa realizada em maio de 2017 pela Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo estima que circulem pela Cracolândia quase 2 mil pessoas por dia. O chamado “fluxo” é um aglomerado de dramas humanos e comércio de drogas a céu aberto que funciona 24 horas como uma grande bolsa de valores da compulsão. 

Mais da metade dos usuários não costuma voltar para casa depois da primeira vez. Um homem de 35 anos, que vive em uma barraca no meio do fluxo, conta que já trocou a própria roupa em uma noite de frio por meia pedra de crack e 2 reais. Ele conta que também já auxiliou pessoas que tinham medo de chegar no fluxo a conseguir a droga. “Uma vez um senhor parou com uma camionete “daquelas caras” e nos pediu ajuda pois tinha medo de ir no fluxo, ele acabou passando o final de semana todo num hotelzinho aqui perto. Quando o banco limitou o saque de dinheiro, ele arrancou o DVD do carro e vendeu. Também vendeu o step, tudo pelo crack”, conta.

As transações definidas pelo vício fazem girar uma lista de mercadorias improváveis: drones, celulares, televisões, champagne, filet mignon, marmitas, produtos de beleza – hidratantes, xampus, desodorantes –, bonecas, tênis usados, fios de cobre, cinzas (usadas para fumar a droga), dentaduras, bilhetes de ônibus, carros ou até a própria casa. A maioria absoluta das pessoas, porém, deseja a recuperação e uma nova chance.

A cada ano são realizadas novas ações governamentais – algumas mais repressoras, outras mais focadas em ações sociais. Mas todas pouco eficazes. O efeito básico tem sido a simples mudança de localização dos usuários. Para a assistente social Carmem Lopes, de 46 anos, que trabalha ali desde 2013, não há milagre: esse é um território em que as esperanças estão mortas. “Existe uma forte relação social; eles se chamam de família. É preciso olhar para cada um como ser humano. A solução para um não é a solução para todos”, diz ela. “O mais importante aqui não é falar, é ouvir.”

Os fotógrafos Gabi Di Bella e Gui Christ formam o Gringo Coletivo. Siga o trabalho deles no site e no Instagram do Gui e da Gabi.

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