Olhar de dentro: jovens imigrantes venezuelanos fotografam a vida no Brasil

Uma oficina de fotografia em um abrigo temporário revela o cotidiano de imigrantes venezuelanos em Boa Vista, Roraima.terça-feira, 8 de outubro de 2019

Por João Paulo Vicente

29 de novembro. 2 de dezembro. 26 de dezembro. 12 de julho. Quando a jovem venezuelana Genangely Piñero, de 22 anos, conta como veio de Caracas ao Brasil, as datas dos fatos marcantes são precisas. Chegada no país, tirada de todos os documentos – incluindo carteira de trabalho –, uma vaga num abrigo em Boa Vista e a mudança para São Paulo – onde vive hoje.

No meio dessa jornada, outra data inesquecível para Genangely é 18 de fevereiro deste ano, quando começou um workshop de fotografia promovido pela National Geographic em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Ao longo de cinco dias, ela e outros 20 jovens imigrantes tiveram aulas e saíram às ruas da capital de Roraima com o objetivo de assumir a narrativa da própria história.

“Foi muito interessante porque conversávamos com os venezuelanos e percebíamos que quando eles contavam suas histórias para outras pessoas, eles não se sentiam como se falando com iguais”, diz Genangely. “Mas quando nós chegávamos para fotografar, eles se abriam conosco, sabiam que estávamos na mesma situação e éramos capaz de compreender o que vivam.”

De fato, as histórias dos participantes do curso sintetizam as agruras atravessadas pelos cerca de 198 mil venezuelanos que migraram para o Brasil desde que a crise política e econômica no país vizinho se agravou nos últimos (em 2018, a inflação no país chegou a 130.060%). O número da Polícia Federal, atualizado em julho, inclui 111 mil solicitantes de refúgio e 87 mil aplicantes de residência temporária.

No Brasil, os imigrantes enfrentam preconceito, fome, violência e em muitos casos precisam morar na rua. Foi o caso de Genangely. Após deixar Caracas, ela encarou 24 horas de ônibus até a cidade fronteiriça de Santa Elena de Uaíren. De lá, andou 15 km até Paracaima, no Brasil, onde passou dias acampada na rua junto ao namorado e a mãe. Em seguida, caminharam mais 20 km rumo à Boa Vista antes de conseguirem uma carona para completar os cerca de 220 km finais.

Na capital de Roraima, ela encarou mais algumas semanas até encontrar vaga para morar em um dos 13 abrigos que a Acnur opera na cidade. A seleção para acompanhar o workshop da National Geographic aconteceu nesses espaços. Ao longo de uma semana de fevereiro, a dinâmica foi aulas pelas manhãs e saídas à tarde para fotografar e registrar imagens dos próprios imigrantes venezuelanos.

“Meu trabalho final do curso foi sobre prostituição transgênero. Há muitos imigrantes LGBTs que infelizmente são obrigadas a se prostituir em Roraima porque não encontram outra alternativa”, diz Genangely.

“Foi um processo que ajudou a melhorar a consciência sobre o que estamos passando”, diz Jeyci Mendes, que chegou ao Brasil em novembro do ano passado com uma filha recém-nascida a tiracolo. Hoje com 23 anos, Jeyci mora e trabalha em Santa Helena de Goiás, no Centro-Oeste brasileiro.

Na Venezuela, ela vivia em Barcelona, capital do estado de Anzoátegui. Ainda que dispusesse de uma situação de vida melhor do que muitos conterrâneos por trabalhar na aeronáutica do governo Maduro, a jovem conta que seu salário mensal era incapaz de cobrir os gastos familiares. Somado a falta de produtos básicos, cuidado médico e aumento da violência, isso fez a vinda ao Brasil se tornar melhor opção.

“O workshop foi a uma oportunidade de compartilharmos essas experiências com outras pessoas, há diversos venezuelanos na mesma situação que nós e a fotografia permitiu expressar a vida de outra maneira”, diz Jeyci. Segundo ela, cada foto que fez traz uma história diferente, mas uma em particular a marcou. Num dos abrigos que visitou, conheceu uma família de pai, mãe e dois filhos.

A mulher, sem cabelos, contou que buscou no Brasil tratamento para um câncer – na Venezuela, o preço era proibitivo. “Ela chorava, eu chorava, nós chorávamos. Ela me contava o quanto seu marido havia sido forte, e os meninos corriam ao nosso redor para que tirássemos fotos deles”, conta. “Esses cinco dias foram os melhores desde que cheguei ao Brasil.”

“Essa iniciativa trouxe ganhos para todos. Eles não apenas conseguiram adquirir conhecimentos em questões fotográficas que não tinham, [o workshop] foi interessante porque permitiu que esses jovens falassem da realidade e expectativas pessoais por meio dos seus próprios olhares”, diz Luiz Fernando Godinho, porta-voz da Acnur no Brasil. “E ainda melhorou a autoestima de todos eles.”

Hoje, grande parte dos participantes do curso já está interiorizado ou em processo de interiorização – um movimentado apoiado pelo governo federal para que os imigrantes se espalhem pelo país. Segundo Godinho, cerca de mil venezuelanos têm deixado Roraima em direção a outros estados a cada mês. O número, no entanto, ainda é baixo. Diariamente, entre 500 e 800 pessoas entram no Brasil pela fronteira em Paracaima.

Foi o que fez Marco Rizalez, nascido na cidade de Guanta, em julho de 2018. Mais de um ano depois, em meados de setembro, Marco finalmente conseguiu se mudar para o Rio de Janeiro. Prestes a fazer 22 anos, ele planeja trazer a esposa, grávida de 8 meses, para junto dele. Atualmente, ela mora com a mãe no Rio Grande do Sul – as duas também são venezuelanas.

“O curso foi uma realização muito boa, uma oportunidade que ninguém nos dá para que nossa voz seja escutada por meio das imagens”, afirma Marco. “No fim, nos disseram que queriam que o mundo soubesse o que está acontecendo com os imigrantes venezuelanos. É o que espero que aconteça.”

De fato, o Photo Camp – nome oficial do projeto – tem ajudado a trazer visibilidade para populações vulneráveis em diversos países do planeta, como Bósnia e Herzegovina, Porto Rico e Haiti, entre outros. Entre março e junho, fotos produzidas pelos participantes dos workshops estiveram expostas no John F Kennedy Center, em Washington D. C., nos Estados Unidos.

Mas, enquanto as imagens nas quais registraram a dura vida dos imigrantes venezuelanos no Brasil ganham o mundo, os jovens ainda precisam encarar a realidade brasileira. Na medida que tenta se adaptar ao Rio de Janeiro, Marco não deixa de olhar para trás: “Eu tinha trabalho na Venezuela, amigos, família. Deixei tudo para procurar uma vida melhor. Mas sim, sinto saudades, muitas saudades.”

Kevyn Leon, outro participante do workshop, é menos saudoso. “Eu sinto saudades do meu país, sim. Mas de quando ele era meu país. Como está hoje, não sinto saudades”, diz. Ele passou por uma mudança brusca: deixou a Ilha de Margarita e hoje mora em Canoas (RS), próximo de Porto Alegre, onde trabalha como garçom.

No meio de setembro, conseguiu trazer a mãe – ela, no entanto, ainda não se acostumou com o frio. “Daqui a pouco a gente se acostuma. Toda mudança tem que ter um porquê e pensando sempre a frente, para trás não se pode”, diz Kevyn.

Em São Paulo, Genangely está feliz. A garota trabalhava como modelo em Caracas e hoje é vendedora numa loja no terminal Tietê. A semelhança entre a cidade onde nasceu e onde está agora a fazem sentir-se em casa.

“Gosto de São Paulo por isso, me lembra muito de Caracas. A verdade é que sou muito agradecida ao Brasil.”

 

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