História

Descoberta evidência do vinho mais antigo do mundo, de 8 mil anos

Diferente do que se imaginava, as populações da Idade da Pedra tinham um gosto para as coisas mais refinadas.Tuesday, November 14

Por Andrew Curry
<p>Archaeologists excavating this Neolithic village in the nation of Georgia found pieces of clay pots containing residues of the world's oldest wine.</p>

Em uma pequena elevação a menos de 30 quilômetros ao sul de Tbilisi, na Geórgia, uma série de casas redondas e de tijolos de barro surge de um vale verde e fértil próximo ao rio. O montículo é chamado de Gadachrili Gora, e os fazendeiros da Idade da Pedra que viveram aqui há 8 mil anos eram amantes de uvas: a cerâmica é decorada com cachos da fruta, e a análise do pólen no local sugere que as encostas arborizadas nas proximidades já foram cobertas com videiras.

Em artigo publicado ontem na revista científica PNAS, uma equipe internacional de arqueólogos demonstrou de forma conclusiva o propósito de todas essas uvas. As pessoas que viviam em Gadachrili Gora e em uma aldeia próxima foram os vinicultores mais antigos que se tem notícia, produzindo vinho em larga escala já em 6.000 a.C., época em que os humanos pré-históricos ainda dependiam de ferramentas de pedra e de ossos.

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Escavando as casas circulares sobrepostas no local, a equipe encontrou cerâmica quebrada, incluindo bases arredondadas de grandes jarros, embutidos nos pisos das casas da aldeia. Mais amostras foram encontradas em Shulaveri Gora, outro local da Idade da Pedra a cerca de 1,5 km de Gadachrili parcialmente escavado na década de 1960.

Quando as amostras foram analisadas, o arqueólogo Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia, encontrou ácido tartárico, uma "impressão digital" química que mostra que resíduos de vinho estavam presentes em fragmentos de cerâmica de ambos os locais.

Combinado com as decorações de uva no exterior dos jarros, amplo pólen de uva no solo fino do local e as datas de radiocarbono de 5.800 a.C. a 6.000 a.C, a análise química indica que as pessoas da Gadachrili Gora eram as mais antigas produtoras de vinhos do mundo. (Moradores de um local chinês chamado Jiahu estavam fazendo bebidas fermentadas de uma mistura de grãos e frutas selvagens mil anos antes.)

Como não encontraram muitas sementes ou hastes de uva preservadas no solo da aldeia, os arqueólogos acham que o vinho foi feito nas colinas próximas, perto de onde as uvas foram cultivadas.

"Eles estavam fazendo a extração em ambientes mais frios, fermentando-o e depois despejando em jarros menores e transportando-o para as aldeias depois de estar pronto para beber", diz o arqueólogo Stephen Batiuk, da Universidade de Toronto, que co-dirigiu a expedição junto à arqueóloga Mindia Jalabdze, do Museu Nacional da Geórgia.

Em períodos posteriores, vinicultores usavam resina de pinheiro ou ervas para evitar que o vinho estragasse ou para disfarçar gostos desagradáveis, da mesma forma que os produtores de vinhos modernos usam sulfitos. Mas a análise química de McGovern não encontrou tais resíduos, sugerindo que estes eram experimentos iniciais de vinificação, e que o vinho era uma bebida sazonal, produzida e consumida antes de se transformar em vinagre. "Eles não parecem ter colocado resina de árvore, tornando-o o primeiro vinho puro", diz McGovern. "Talvez eles ainda não tivessem descoberto que as resinas da árvore eram úteis".

A evidência acrescenta uma nova ruga à nossa compreensão do Neolítico, período crucial para os seres humanos, quando aprenderam a cultivar, se estabelecer e domesticar animais e vegetais. O processo gradual, conhecido como a Revolução Neolítica, começou em torno de 10.000 a.C. na Anatólia, poucas centenas de quilômetros a oeste de Gadachrili.

É cada vez mais claro que não demorou muito para que as pessoas voltassem seus pensamentos para o álcool: apenas alguns milhares de anos depois que as primeiras gramíneas selvagens serem domesticadas, os habitantes de Gadachrili não só aprenderam a arte da fermentação, mas aparentemente a aprimoraram, criando e colhendo vitis vinifera, a uva europeia. "Eles descobriram métodos hortícolas, como você transplanta, como produz", diz McGovern. "Isso mostra o quão inventiva é a espécie humana".

Os resíduos orgânicos recuperados dos restos de vasos cerâmicos, como este, fornecem a primeira evidência de vinificação. Esses vasos de cerâmica grandes e de boca aberta são semelhantes em forma aos qvevris, recipientes de vinificação tradicionais ainda encontrados em muitas adegas georgianas hoje.
Os grandes qvevri são revestidos com cera de abelhas e ainda são usados pelos enólogos georgianos, que enterram os jarros até o pescoço e os usam por gerações.

A Geórgia, aninhada nas montanhas do Cáucaso, não muito longe de onde a Revolução Neolítica começou, ainda é louca por vinho 8.000 anos depois. O país possui mais de 500 variedades locais de uva, sinal de que as pessoas estão criando e cultivando uvas há muito tempo. Mesmo no movimentado centro de Tbilisi, as vinhas estão grudadas a blocos de apartamentos da época soviética.

"A cultura do vinho da região tem raízes históricas profundas", diz David Lordkipanidze, diretor do Museu Nacional Georgiano. "Grandes vasos semelhantes aos vasos neolíticos ainda são usados para produzir vinho na Geórgia hoje".

O arqueólogo da Universidade de Stanford, Patrick Hunt, diz que os resultados mostram que as pessoas da Idade da Pedra viveram vidas complexas e ricas, com interesses e preocupações com as quais estamos familiarizados hoje. "A fermentação do vinho não é uma necessidade de sobrevivência. Isso mostra que os seres humanos da época se importavam com mais do que atividades utilitárias ", diz Hunt. "Há uma sofisticação muito maior do pensamos, mesmo no período Neolítico de transição".

Se os arqueólogos e outros especialistas puderem identificar a variedade moderna de uvas mais próximas da que era cultivada perto da aldeia de Gadachrili, eles esperam plantar uma vinha experimental para aprender mais sobre como a vinificação pré-histórica teria funcionado. E Batiuk diz que ainda não alcançaram as camadas mais baixas e mais antigas do local. "Podemos ser capazes de analisar ainda mais o passado", diz ele. "Estamos preenchendo a história do vinho, esse líquido que é tão fundamental para tantas culturas, para a civilização ocidental, na verdade".