História

Veja como um artista reconstituiu digitalmente o rosto de Dom Pedro I

A face do primeiro imperador do Brasil foi reconstruída em 3D por cientistas e designers a partir de uma fotografia feita para a revista National Geographic. Segunda-feira, 30 Abril

Por Miguel Vilela

Apesar da fama de galanteador, o primeiro imperador do Brasil, Dom Pedro I, não tinha as feições delicadas normalmente atribuídas a ele em pinturas e gravuras oficiais.O homem que declarou a independência do país e promulgou nossa primeira constituição provavelmente carregou no rosto a marca de pelo menos uma das 36 quedas de cavalo das quais foi vítima: um nariz quebrado e visivelmente torto.

A fratura foi revelada em uma imagem reconstruída digitalmente em 3D a partir de uma foto de Mauricio de Paiva feita em 2012 para a reportagem Cidade oculta – publicada pela revista National Geographic Brasil em abril de 2013. Depois de cinco anos da publicação, De Paiva foi contatado por José Luis Lira, advogado e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, no Ceará – ele queria utilizar as imagens no projeto de reconstituição do rosto de Dom Pedro I.

Entusiasta da técnica de reconstrução facial digital, Lira já havia liderado projetos de reconstrução do rosto de São Valetim – considerado na Europa e nos EUA o santo protetor dos namorados – e de Maria Madalena – a partir de um crânio atribuído à personagem bíblica. Para reconstruir Dom Pedro, Lira chamou o designer 3D e pesquisador independente Cicero Moraes, que trabalhou na reconstrução do suposto rosto de Santo Antônio, além de dezenas de outros projetos de reconstituição facial.

Com o acesso ao túmulo do imperador restrito e uma nova exumação do corpo improvável, Moraes teria que se valer da foto feita por Mauricio de Paiva cinco anos antes. Isso não foi um problema. No fim das contas, a técnica especializada do fotógrafo foi fundamental para a reconstituição do rosto.

Exumação

Mauricio acompanhava o trabalho da historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, na época mestranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, na primeira exumação de Dom Pedro I, quase dois séculos após sua morte. Ele conta que teve apenas 20 minutos para tirar entre 30 e 40 fotos do crânio. E, mesmo sem imaginar que suas imagens um dia ajudariam na reconstituição do rosto de Dom Pedro, teve uma ideia que calhou muito bem ao novo projeto. “Pensei na ideia de um reflexo, como um duplo, um jogo imagético em um fundo escuro para valorizar o crânio”, disse Maurício em entrevista à National Geographic.

O esforço em colocar o crânio do imperador sobre um espelho acabou permitindo que o designer Cicero Moraes triangulasse pontos de vistas diferentes a partir de uma única imagem. “Quando ele fez essa foto, talvez tenha buscado transmitir o maior número de informações possíveis daquele objeto que estava sendo fotografado”, disse Moraes em entrevista por telefone. “Sem essa fotografia, não seria possível fazer a reconstrução facial de um dos homens mais importantes da história do Brasil”.

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