História

Crânio enigmático pode ser do mais antigo humano de fora da África

Estudo controverso alega que Homo sapiens primitivos estavam na Grécia há 210 mil anos, o que suscitou um intenso debate.Thursday, July 18, 2019

Por Maya Wei-Haas
Esses fósseis fragmentados, encontrados a apenas alguns centímetros de distância um do outro, poderiam ser os crânios de duas espécies de hominídeos separadas por dezenas de milhares de anos — um neandertal de 170 mil anos de idade (esquerda) e um humano moderno primitivo de 210 mil anos de idade.

NOSSOS ANTEPASSADOS podem ter permanecido um tempo no litoral escarpado ao sul da Grécia, um refúgio de clima ameno da invasão das geleiras que ocorreu no Pleistoceno médio. Embora a maior parte tenha sumido sem deixar vestígios, os crânios de dois indivíduos foram, de alguma forma, varridos para dentro de uma fenda profunda no solo, onde os ossos foram pavimentados sob um monte de terra.

Centenas de milhares de anos depois, as análises desses restos mortais sugerem uma identidade inesperada: um fragmento de crânio pode ter sido de um humano moderno primitivo que viveu pelo menos 210 mil anos atrás, fazendo dele o fóssil humano mais antigo já encontrado fora da África.

“É muito empolgante”, disse por e-mail a principal autora do estudo, Katerina Harvati, da Universidade Eberhard Karls, de Tübingen. “É gratificante ver que minhas hipóteses sobre a importância da região para a evolução humana são corroboradas por nossas descobertas”.

Se confirmada, a descoberta ajudaria a esclarecer os deslocamentos iniciais de nossa espécie quando os humanos anatomicamente modernos saíram da África. Porém, nem todos estão convencidos da solidez dessa nova evidência.

“Não consigo ver nada que sugira que o indivíduo pertença à linhagem sapiens,” afirma Juan Luis Arsuaga, paleoantropólogo da Universidade de Madri. A análise de um crânio encontrado nas proximidades, realizada por ele e seus colegas em 2017, concluiu que era provável que todos os restos sejam de origem neandertal, datando de pelo menos 160 mil anos atrás.

“Fiquei completamente perplexo”, afirmou ele sobre as conclusões desafiadoras da equipe.

Novas técnicas para antigas descobertas

No final da década de 1970, foram descobertos fragmentos de crânio retirados da parede da Caverna Apidima, um local nos arredores da cidade peloponésica de Areopoli. Contudo, o estudo dos fósseis de Apidima, como passaram a ser chamados, envolveu muitos desafios. Para começar, os crânios fragmentados estavam escondidos em sua matriz rochosa até o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Mesmo após serem removidos da rocha, suas identidades não ficaram óbvias logo de início.

Um crânio estava quase completo, mas havia sido distorcido durante os milênios que passou no invólucro rochoso. Mesmo assim, um trabalho anterior identificou que o crânio era de um neandertal, conclusão esta compartilhada pelo último estudo. O segundo fragmento de crânio estava apenas a alguns centímetros de distância na rocha e era pequeno — um único fragmento um pouco maior que a palma da mão de um adulto — de forma que os pesquisadores anteriores concluíram que provavelmente era da mesma espécie e idade que o primeiro.

Como parte das análises em andamento desses fósseis enigmáticos, os cientistas do Museu de Antropologia da Universidade de Atenas entraram em contato com Harvati para perguntar se ela tinha interesse em estudá-los. Ansiosos para aplicar técnicas modernas nesses restos mortais famosos, ela e seus colegas agarraram essa oportunidade com todas as forças.

“É uma coincidência incrível haver dois crânios lado a lado, a 30 centímetros de distância,” exalta o autor do estudo Rainer Grün, da Universidade de Griffith, na Austrália. “Há apenas mais um crânio dessa época em toda a Grécia e nada mais. Portanto, é uma maravilha da natureza o fato dos dois terem sido encontrados juntos”.

Harvati e sua equipe fizeram imagens por tomografia computadorizada dos fósseis, em seguida, dois integrantes da equipe trabalharam de forma independente em reconstruções virtuais, cada um usando dois protocolos diferentes em uma tentativa de reduzir a parcialidade ao retocar os fósseis digitalmente. Por fim, os cientistas compararam as características das reconstruções com uma variedade de crânios que sabiam ser de Homo sapiens ou neandertal, bem como crânios eurasiáticos e africanos de espécies debatidas que datam do Pleistoceno médio.

Nova tentativa

A identidade resultante do pequeno fragmento de crânio foi a primeira grande surpresa da equipe: era notavelmente semelhante aos crânios de humanos modernos.

Embora um fragmento de crânio possa parecer uma prova insuficiente para uma conclusão tão grande, a parte posterior do crânio contém uma série de sinais que podem apontar ao H. sapiens. É quase tão determinante quanto o queixo — um traço característico do H. sapiens entre os hominídeos, explica o paleoantropólogo Eric Delson da Universidade da Cidade de Nova York, que não participou da equipe de pesquisa, mas escreveu um artigo na Nature News and Views que acompanhava o estudo.

Por um lado, há o formato. Ao colocar a mão na parte de trás da cabeça, é possível sentir como ela se curva, parecido com uma laranja. Mas as cabeças dos neandertais são mais alongadas, com uma protuberância chamada de chignon, que em francês significa “coque”. O antigo fragmento de crânio de Apidima não tem essa elongação.

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Ao chegar a esse ponto, a equipe enviou a análise para publicação, mas foi rejeitada. Na época, devido à proximidade dos fósseis, os pesquisadores haviam presumido que ambos tinham a mesma idade, datado de pelo menos 160 mil anos atrás. Contudo não havia evidência física dessas populações em tal proximidade até cerca de 60 mil anos atrás, por isso os revisores estavam “naturalmente céticos” de que o fóssil era um humano moderno posicionado tão perto dos restos de um neandertal, afirma o autor do estudo Chris Stringer do Museu de História Natural de Londres.

A equipe trabalhou para reforçar suas análises dos crânios e também para tentar datar o fragmento. Foi quando se depararam com a segunda surpresa: ele tinha cerca de 210 mil anos de idade. Se confirmada, a idade do fóssil supera a dos restos mortais de humanos modernos mais antigos documentados anteriormente — parte de um maxilar encontrado em Israel que data de cerca de 180 mil anos atrás. Também seria mais de 150 mil anos mais velho do que os fósseis anteriores de H. sapiens mais antigos já encontrados na Europa.

A viagem épica dos hominídeos

Se a equipe estiver correta, o fragmento de crânio de Apidima se soma à evidência de que pequenos grupos de humanos modernos saíram da África muito antes do que se acreditava anteriormente. Até recentemente, pensava-se que os humanos modernos haviam levado algum tempo para se aventurar fora do continente, e as raízes das populações humanas atuais remontam a uma multidão de H. sapiens que fez essa viagem há apenas 60 mil anos.

Por outro lado, alguns primos dos humanos antigos chegaram à China central há 2,1 milhões de anos, conforme comprovado por ferramentas de pedra que deixaram para trás. Os ancestrais do diminuto Homo floresiensis chegaram ao sudeste asiático há 700 mil anos. E os antepassados dos neandertais saíram rumo à Europa meio milhão de anos atrás, dividindo-se em seus parentes hominídeos de Denisova há 400 mil anos.

Harvati sustenta que essa descoberta mais recente sugere que os humanos modernos chegaram bem mais ao norte e em uma data muito anterior do que se acreditava antes. Contudo, vários outros pesquisadores consideram que ainda é muito cedo para reescrever os livros de História.

“É preciso um rosto para defender tal alegação”, rebate Arsuaga.

Em um estudo de 2014, Arsuaga e seus colegas descreveram crânios de 430 mil anos de idade de Sima de los Huesos, na Espanha, ou “poço de ossos,” que tinham rostos neandertais, mas sem a reveladora elongação craniana. Ele argumenta que talvez o fragmento do crânio de Apidima tenha igualmente vindo de um neandertal primitivo. Os autores do novo estudo reconhecem que é possível que seja esse o caso, mas ressaltam que o fragmento craniano difere dos restos de Sima, como também dos neandertais primitivos de idade similar à do fragmento de Apidima.

“Da mesma forma que ocorre com qualquer nova descoberta complicada, a reação inicial normal deveria ser um ceticismo saudável, mesmo quando meu próprio nome está no artigo”, afirma Stringer. “Não temos o osso frontal, o arco superciliar, a face, os dentes nem a região do queixo, cujas formas teriam sido menos ‘modernas’”. Ele também enfatiza inúmeras medidas adotadas pela equipe para reduzir qualquer possível incerteza.

“Reconstruções são uma espécie de encontro da arte com a ciência,” explica Christopher Walker, antropólogo biológico da Universidade do Estado da Carolina do Norte. Embora tais análises possam estar influenciadas pelas expectativas e modelos de crânio utilizados para comparação, ele afirma que a equipe foi minuciosa e concorda que o fragmento de crânio “realmente é uma mistura de características semelhantes às do Homo sapiens”.

Porém, Warren Sharp do Centro de Geocronologia de Berkeley discorda da data antecipada do fragmento, descrevendo os dados da equipe para esse resultado como “imprecisos e bastante dispersos.” Sharp também se preocupa com a datação relativa aos mais antigos restos de H. sapiens, e o segundo em termos de antiguidade, encontrados em Israel, alegando que o fóssil não pode ter mais de 70 mil anos.

“Apresentamos todos os detalhes no artigo”, rebate Grün. “Não há nada que tenhamos varrido para baixo do tapete e, na minha opinião, essa é a melhor interpretação dos resultados”.

Quer os H. sapiens tenham chegado à Grécia há 210 mil anos ou não, parece que a excursão inicial não vingou e provavelmente esses aventureiros morreram sem deixar vestígios genéticos nos humanos atuais. No entanto, ainda podem restar pistas das populações nos traços de DNA semelhante ao de H. sapiens encontrados em neandertais — o resultado de uma suposta fase primitiva de miscigenação entre os dois grupos há centenas de milhares de anos.

De acordo com Harvati, talvez os fósseis de Apidima pertencessem a uma população que se encontrou e se miscigenou com nossos primos neandertais. Mas sem mais evidências, é difícil afirmar qual a área abrangida por essa população ou por quanto tempo perdurou.

“Temos um breve segmento”, afirma Delson. “Isso certamente nos indica que vale a pena procurar em outros lugares”.

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