História

Congelado no tempo, naufrágio no Ártico surpreende arqueólogos

Pesquisadores fazem descobertas assustadoras ao examinarem o interior do H.M.S. Terror, um dos navios perdidos durante malsucedida expedição de 1845.quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Por Roff Smith
Para investigar os conveses inferiores do H.M.S. Terror, um arqueólogo da Parks Canada insere um drone subaquático em miniatura através de uma claraboia.

Os destroços do H.M.S. Terror estão surpreendentemente bem preservados, dizem os arqueólogos da Parks Canada (agência canadense encarregada da preservação de áreas protegidas), que recentemente usaram drones subaquáticos para examinar o interior dessa embarcação histórica. O H.M.S. Terror foi um dos navios perdidos da expedição de Sir John Franklin em 1845 realizada para encontrar a Passagem do Noroeste.

“O navio está incrivelmente intacto”, diz Ryan Harris, principal arqueólogo do projeto. “Você olha para ele e acha difícil acreditar que seja um naufrágio de 170 anos. Simplesmente não vemos esse tipo de coisa com frequência”.

Descoberto em 2016 nas águas geladas da Ilha King William, no extremo norte do Canadá, o naufrágio não havia sido completamente estudado até o momento. Aproveitando o mar excepcionalmente calmo e a boa visibilidade subaquática, uma equipe da Parks Canada, em parceria com os inuítes, realizou no uma série de sete mergulhos para explorar o lendário naufrágio. Trabalhando com agilidade nas águas geladas, os mergulhadores utilizaram aberturas na escotilha principal e as claraboias das cabines da tripulação, do refeitório dos oficiais e do camarote do capitão para inseriram drones em miniatura operados remotamente.

O H.M.S. Terror e o Erebus eram navios de última geração em 1845, quando a expedição de Franklin partiu da Grã-Bretanha.

“Conseguimos explorar 20 cabines e compartimentos, examinando cômodo a cômodo”, conta Harris. “As portas estavam assustadoramente abertas”.

Os mergulhadores ficaram surpresos e encantados ao mesmo tempo: pratos e copos ainda nas prateleiras, camas e mesas em ordem, instrumentos científicos em seus estojos — e sinais de que jornais, mapas e talvez até mesmo fotografias antigas possam estar preservados sob camadas de sedimento que cobrem boa parte do interior.

“Essas camadas de sedimento, em combinação com a água gelada e a escuridão, criam um ambiente anaeróbico quase perfeito, ideal para preservar materiais orgânicos delicados, como tecido ou papel”, diz Harris. “Há uma grande chance de encontrarmos vestimentas ou documentos, sendo possível que alguns deles ainda estejam legíveis. Mapas enrolados ou dobrados no armário do capitão, por exemplo, ainda podem estar lá”.

A única área abaixo do convés que a equipe não conseguiu acessar foram os dormitórios do capitão. Aparentemente, a última pessoa a sair fechou a porta. “Curiosamente, era a única porta fechada no navio”, afirma Harris. “Adoraria saber o que há lá dentro”.

É igualmente tentadora a possibilidade de haver fotos da expedição aguardando serem descobertas. Sabe-se que a expedição tinha um daguerreótipo e, supondo que ele tenha sido utilizado, as placas de vidro ainda podem estar a bordo. “E se elas realmente estiverem lá, também será possível revelá-las", diz Harris. “Isso já foi feito em outros naufrágios. Existem técnicas para isso”.

Garrafas de vidro no refeitório dos oficiais permanecem intactas. O navio parece ter atingido o fundo suavemente.

Um grande mistério

O destino da expedição de Franklin é um dos grandes mistérios da história. O que se sabe é que Sir John Franklin partiu em maio de 1845 com uma tripulação de 133 homens e ordens para descobrir a Passagem do Noroeste — uma meta que iludia os exploradores havia séculos.

Na época, assim como nos dias de hoje, a geopolítica impulsionava a exploração do Ártico e a Marinha Real desejava garantir o famoso atalho para o Pacífico, antes dos russos, que tinham suas próprias aspirações marítimas. Com isso em mente, não foram poupados gastos.

Franklin assumiu o comando de dois navios de última geração, o Erebus e o Terror, ambos equipados com cascos robustos de ferro, motores a vapor, os melhores equipamentos científicos, além de alimentos e suprimentos suficientes para três anos nas regiões mais remotas do Ártico. Foi uma das expedições mais bem equipadas e preparadas de todos os tempos a deixar a costa da Grã-Bretanha.

Após breves paradas nas Ilhas Orkney da Escócia e na Groenlândia, os dois navios partiram para o Ártico do Canadá, na esperança de navegar por labirintos de estreitos, baías e ilhas e, por fim, chegar ao Oceano Pacífico. Os últimos europeus a verem os navios foram as tripulações de dois navios baleeiros que encontraram o Erebus e o Terror no final de julho de 1845, na travessia da Groenlândia à remota Ilha de Baffin, do Canadá. Depois disso, nunca mais foram vistos ou se ouviu falar deles.

Com o passar dos anos, sem nenhuma comunicação por parte da expedição, foram enviados grupos de busca. Com o tempo, a descoberta de esqueletos e equipamentos descartados — bem como evidências perturbadoras de canibalismo — deixou claro que a expedição havia acabado em desastre. Mas o motivo e a forma como tudo aconteceu permanecem um mistério.

Uma breve nota encontrada sob um monte de pedras conta um pouco da história. Datada de abril de 1848 e assinada por Francis Crozier, capitão do Terror que na época havia assumido o comando da expedição, a nota dizia que os navios estavam presos no gelo já havia um ano e meio, que 24 dos homens já estavam mortos — incluindo Franklin — e que Crozier e os outros sobreviventes planejavam caminhar por terra até um remoto posto de comércio de peles a centenas de quilômetros de distância no continente canadense. Nenhum deles jamais chegou ao destino pretendido.

Os motivos que fizeram uma expedição tão bem equipada dar totalmente errado continuam sendo um mistério. Mas, nos últimos anos, as duas maiores peças do quebra-cabeça — os próprios navios — foram descobertas: o Erebus foi localizado em 2014 a cerca de 11 metros de profundidade, próximo à Ilha King William, e o Terror foi encontrado dois anos depois em uma baía a aproximadamente 72 quilômetros de distância, a cerca de 24 metros de profundidade e praticamente intacto.

Pratos ainda nas prateleiras, como se estivessem prontos para a próxima refeição. O lodo cobre grande parte do interior dos destroços, impedindo a oxidação e ajudando a preservar o que há por baixo.

Os arqueólogos esperam descobrir por que os navios foram parar em localidades tão distantes uma da outra, qual deles afundou primeiro e por que e como afundaram.

“Não há nenhuma razão óbvia para o Terror ter afundado”, diz Ryan. “Ele não colidiu contra o gelo e não há aberturas no casco. No entanto parece que afundou rápida e repentinamente e se acomodou suavemente no leito do mar. O que será que aconteceu?”

Encontrar as respostas não será fácil, mesmo com tantos recursos disponíveis. Existem planos para escavar os destroços de ambas as embarcações, mas será um processo lento, que levará anos.

“Mergulhar nessa região é extremamente difícil”, diz Ryan. “A água é muito gelada, o que impede a nossa permanência lá embaixo por muito tempo, e a temporada de mergulho é curta — dura apenas algumas semanas se tivermos sorte ou alguns dias se não tivermos”.

Mesmo assim, o trabalho realizado no Terror nessa temporada já forneceu algumas pistas tentadoras que ajudarão os pesquisadores a traçarem a cronologia do desastre.

“Observamos que a hélice do navio ainda está no lugar”, diz Ryan. “Sabemos que ela tinha um mecanismo que a removia da água durante o inverno, para que não fosse danificada pelo gelo. Portanto, o fato de que a hélice estava sendo usada sugere que o navio afundou durante a primavera ou o verão. O mesmo acontece com o fato de que nenhuma das claraboias estava fechada com tábuas, como teriam sido para proteção contra as nevascas do inverno”.

Sem dúvida, as camadas de sedimento nessas cabines escodem muitas respostas, diz Ryan. “De uma forma ou de outra, tenho certeza de que conseguiremos desvendar toda a história”. 

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