Fósseis de penas de dinossauros encontrados pela primeira vez perto do Polo Sul

A plumagem antiga sugere que pequenos dinossauros carnívoros enfrentaram invernos longos e frios dentro do Círculo Antártico há 118 milhões de anos.sábado, 23 de novembro de 2019

Perdidas no lago

As penas recém-descritas foram todas encontradas em um local chamado Koonwarra, cerca de 150 quilômetros a sudeste de Melbourne, no estado de Victoria. Uma estrada cortada na encosta de uma colina na década de 1960 expôs uma rica variedade de fósseis e, nos últimos 60 anos, escavações no local descobriram diversos fósseis de peixes e plantas, além de uma série de plumas bem preservadas.

Atualmente, nenhuma das penas está associada a distintos ossos de dinossauros ou aves. Pelo contrário, as penas provavelmente se soltaram durante a muda ou a limpeza das penas e foram levadas pelo vento até a superfície de um lago antigo, onde afundaram e ficaram preservadas em lama fina.

Para o novo estudo,  Tom Rich, do Museu de Melbourne, e Patricia Vickers-Rich , da Universidade Monash, que lideraram escavações em Koonwarra nos últimos 37 anos, trabalharam com uma equipe internacional para analisar as descobertas, demostrando que as 10 penas apresentam grande diversidade. Os fósseis incluem penas felpudas para isolamento, uma protopena fofa que provavelmente pertencia a um dinossauro não aviário e uma pena de voo complexa, como aquelas das asas das aves modernas.

O comprimento da maioria dessas penas é de no máximo 2,54 centímetros e talvez tenha pertencido às enantiornitinas, um grupo extinto de aves primitivas bastante diversas nesse período do início do Cretáceo, afirma Kear. Algumas das penas são tão pequenas que é possível que sejam provenientes de filhotes, acrescenta ele.

No entanto, à exceção de uma, nenhuma das penas seria capaz de alçar voo, o que ainda sugere que algumas delas podem ter pertencido a dinossauros carnívoros terrestres, afirma Martin Kundrát,  autor principal e paleontólogo da Universidade Pavol Jozef Šafárik, na Eslováquia.

A protopena “se assemelha muito a algumas das protopenas de dinossauros encontradas em tufos e identificadas em rochas do início do Cretáceo na China e em âmbar do Cretáceo no Canadá”, conta McKellar.

Com base em seu tamanho, a protopena provavelmente pertenceu a um dinossauro relativamente pequeno, como um dromeossaurídeo, o grupo de carnívoros velozes que inclui o Velociraptor e o Deinonychus. Foram encontrados alguns ossos e dentes fossilizados em Victoria, pertencentes a dromeossaurídeos, de focinho delgado, do gênero Unenlagia, bastante conhecidos por habitar a América do Sul e que podem ter se alimentado de peixes. Assim, faz sentido que dinossauros semelhantes tenham caçado perto de um lago do Cretáceo.

“Sabemos pelos abundantes fósseis de peixes no lago que haveria possivelmente uma fonte de alimento para eles”, afirma Stephen Poropat, paleontólogo da Universidade de Swinburne, em Melbourne.

Cores da estação?

Os autores do estudo também encontraram nas penas vestígios fossilizados de conjuntos de pigmentos chamados melanossomos, sugerindo que muitos dos animais teriam sido pretos, cinza ou marrons ou que tinham listras escuras.

É um tanto surpreendente para animais polares, já que a coloração escura não teria proporcionado uma boa camuflagem em ambientes de inverno com neve, observa Poropat. Talvez esses dinossauros e aves estivessem mudando de cor sazonalmente, como fazem as atuais ptármigas do Ártico, afirma ele.

“Mas também é possível que não estivesse tão frio no Polo Sul durante esse período do Cretáceo e não fosse necessária uma cor clara para se camuflar nos montes de neve”, conta ele.

Para resolver esse quebra-cabeça, serão necessários mais fósseis, e Rich espera que, um dia, a equipe encontre aves ou dinossauros fossilizados inteiros em Koonwarra semelhantes aos dinossauros com penas lindamente preservados no nordeste da China.

“Encontrar o esqueleto de um dinossauro com penas aqui na Austrália seria incrível”, diz Poropat. “E até onde sabemos, Koonwarra é o local mais propenso a encontrarmos um.”

Dez penas fossilizadas perfeitamente preservadas encontradas na Austrália representam a primeira evidência sólida de que dinossauros com penas viveram nos polos da Terra, relatam paleontólogos em um estudo a ser publicado no periódico Gondwana Research.

As penas datam de 118 milhões de anos, do início do período Cretáceo, quando a Austrália estava localizada muito mais ao sul e era unida à Antártida formando uma única massa de terra polar no sul da Terra. Embora fosse mais quente do que atualmente na Antártida, os dinossauros que possuíam essa plumagem provavelmente ficavam sujeitos a muitos meses de escuridão e temperaturas possivelmente congelantes durante o inverno (Até o fim do período Cretáceo, a Antártida já estava quente o suficiente para que os saurópodes da América do Sul atravessassem a região do Polo Sul e chegassem à Austrália).

“Fósseis de penas nunca tinham sido encontrados em ambientes polares antes”, afirma Benjamin Kear, coautor do estudo e paleontólogo da Universidade de Uppsala, na Suécia. “Nossa descoberta (...) mostra, pela primeira vez, que havia uma diversidade de dinossauros com penas e aves primitivas capazes de voar que habitavam as antigas regiões polares”.

Embora já tenham sido encontrados os frágeis ossos das aves da era dos dinossauros em regiões polares, até hoje, nenhum possuía penas fossilizadas. Fósseis de uma espécie extinta de pinguim encontrada no Peru continham plumagem, mas datam de cerca de 36 milhões de anos atrás, quando o antigo continente já estava situado mais ao norte.

Encontrar penas do Cretáceo nessa região da Austrália é, portanto, um indício vital para os muitos usos que os animais antigos podem ter feito dessas distintas coberturas corporais, tais como para rituais de acasalamento e para o voo. No caso em questão, as penas podem ter sido úteis para isolamento térmico, permitindo que pequenos dinossauros carnívoros sobrevivessem aos difíceis meses de inverno.

“Faz muito sentido que essas penas tenham ajudado a manter aquecidos os dinossauros e aves primitivas em elevadas latitudes durante o Cretáceo”, afirma Ryan McKellar, especialista em fósseis de penas e curador do Museu Real Saskatchewan, em Regina, no Canadá.

“É incrível obter dados de rochas tão antigas e tão ao sul”, acrescenta ele. “O relatório apresenta um retrato muito importante da plumagem polar do Cretáceo inicial”.

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