Quase dois anos depois, familiares de 11 vítimas de Brumadinho ainda não velaram seus mortos

Um dos maiores acidentes de trabalho ampliado do mundo, o rompimento da barragem da Vale matou 259 pessoas – outras 11 seguem desaparecidas. Reportagem especial revela a luta de famílias que buscam encerrar um ciclo.

Por Naiana Andrade, Elisangela Colodeti e Mariana Bontempo Adaid
Fotos de Ísis Medeiros
Publicado 2 de nov de 2020 07:00 BRST, Atualizado 5 de nov de 2020 02:56 BRST
† Natália de Oliveira Porto Araújo | Dona Maria Joana da Cruz até hoje espera pela ...

† Natália de Oliveira Porto Araújo | Dona Maria Joana da Cruz até hoje espera pela volta da filha adotiva. Ela conta que, no dia da tragédia, pediu a Natália que não fosse ao trabalho. "Não, mãe. Eu não posso falhar", teria dito a filha.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade
Finados sem fim – os 11 desaparecidos da tragédia de Brumadinho
Quase dois anos depois de um dos maiores acidentes de trabalho ampliado do mundo, algumas famílias não puderam velar seus mortos.

O álbum de formatura em engenharia mecânica de Tiago Tadeu da Silva virou recordação de família. Ele e os parentes não foram ao evento. Renato de Sousa não realizou o sonho de viver na casa nova com a mulher e as filhas. Lecilda de Oliveira recebeu uma carta registrada. Só ela poderia assinar, mas ficou sem descobrir o que havia no envelope. Angelita de Assis estava na terceira pós-graduação e sonhava ser médica, mas, no dia do vestibular, a cadeira que poderia ser dela estava vazia.

Juliana Resende Silva teve gêmeos e contava com a ajuda da mãe na criação dos meninos para se dedicar ao trabalho. Agora, na ausência de Juliana, as crianças passaram a chamar a vovó de mamãe. Uberlândio Antônio da Silva planejava reencontrar o filho que mora fora do Brasil e enchia a filha de carinho com mensagens quase diárias, mas que pararam de chegar no dia do aniversário dela. Nathália de Oliveira Porto de Araújo estava feliz com o marido e os filhos pequenos. Saiu atrasada para o trabalho no dia 25 de janeiro de 2019 e nunca mais voltou.

O que essas pessoas têm em comum? Morreram trabalhando e, até hoje, quase dois anos depois, as famílias não velaram suas mortes. Os corpos dessas e de mais quatro pessoas não foram encontrados. São 11 desaparecidos em meio ao mar de lama da tragédia provocada pela mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. Outros 259 mortos já foram identificados, entre eles três mulheres grávidas.

Em 25 de janeiro de 2019, às 12h28min, 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro desceram numa avalanche de lama que chegou a atingir 70km/h e destruiu tudo pela frente. O material saiu da Barragem I (B1), no Córrego do Feijão, uma das principais do complexo da mineradora Vale em Brumadinho. Especialistas em mineração explicam que a estrutura não estava mais em atividade e servia para guardar toneladas de minério das minas do Feijão e da Jangada. Laudos periciais apontam que se tratava de uma bomba-relógio que poderia explodir a qualquer momento. Diferentemente do que poderia se esperar, por questões de segurança de trabalho, logo abaixo da barragem ficava o centro administrativo da empresa – a onda de rejeitos atingiu o local em menos de um minuto.

ACIDENTE DE TRABALHO AMPLIADO

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em 8 de abril de 2019, Eduardo Armond, representante do Fórum Sindical dos Trabalhadores Diretos e Terceirizados da Vale atingidos pela Barragem de Brumadinho, disse que o rompimento da estrutura configura em um acidente de trabalho ampliado (ATA).

Para Tarcísio Márcio Magalhães Pinheiro, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador do Observatório de Saúde do Trabalhador de Belo Horizonte, o acidente de trabalho ampliado acontece quando ele se origina nos processos e ambientes de uma empresa mas seus impactos extrapolam os limites físicos da instituição. “Esses acidentes são evitáveis e frutos de um erro ou de uma falha organizacional”, diz Pinheiro. Como outros exemplos, o professor cita os acidentes na indústria química de Seveso, na Itália, em 1976, e os das usinas nucleares de Chernobil, na Bielorrússia, em 1986, e Fukushima, no Japão, em 2011.

† Juliana Resende Silva | Da esquerda para a direita: o irmão caçula, Alef, a mãe, Ambrosina, o pai, Geraldo, e as irmãs gêmeas, Fabiana e Josiana. “A mãe perdeu a gêmea dela porque a Ju era a gêmea dela igual eu e a Jojo”, diz Josiana.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

A mãe de Juliana, Ambrosina, também diz ter pedido à filha para faltar ao trabalho e levar um dos filhos, que não passava bem, ao pronto socorro.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Geraldo conta que, como ele, a filha trabalhou dirigindo caminhões. Ela começou a trabalhar como caminhoneira em uma empresa terceirizada antes de ser contratada pela Vale.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

“No Brasil, o conceito de acidente de trabalho ampliado ganhou grande visibilidade em 2015, com o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana (MG). Morreram 19 pessoas e milhares de outras pessoas foram atingidas. A importante bacia hidrográfica do rio Doce foi danificada, trazendo graves consequências ambientais e humanas”, diz Pinheiro. “O ‘acidente’, entre aspas, ocorrido em Brumadinho matou 270 pessoas, sendo que, dessas, 250 eram trabalhadores. Pode-se considerá-lo um dos maiores acidentes de trabalho ampliado do mundo. A bacia do rio Paraopeba foi também fortemente atingida.”

De acordo com Marta Freitas, coordenadora Nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, os rejeitos da barragem destruíram as plantações de hortaliças, a pesca e o sistema de abastecimento de água do Paraopeba, que atendia parte da região metropolitana da capital Belo Horizonte, distante 63 km. “Houve também aumento do custo de vida em Brumadinho logo após a Vale começar a pagar o abono emergencial, além da perda do trabalho dos moradores, tudo consequência de um acidente de trabalho ampliado”, explica Marta Freitas.

Para Pinheiro, o fato de 11 pessoas ainda não terem sido encontradas é mais uma faceta do drama desse tipo de acidente, uma vez que, do ponto de vista da saúde, os impactos são de natureza física, mental, social e espiritual.

† Angelita de Assis | O marido, Evanir Geraldo de Assis, diz sentir gratidão por ter feito parte da vida de Angelita e ter tido dois filhos com ela. 

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Depois da tragédia, Evanir decidiu passar mais tempo em casa, cuidando dos dois filhos que teve com a esposa Angelita. 

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Em nota, a assessoria de comunicação da Vale escreveu que a empresa “não tem medido esforços para manter diálogo com todas as comunidades, representantes do Poder Público e instituições de justiça e continua atuando na reparação de todos os danos causados pelo rompimento da barragem de Brumadinho, inclusive individuais” e que “mais de 8,2 mil pessoas impactadas já fecharam acordos de indenizações individuais [...]. Já foram pagos cerca de R$ 4,1 bilhões em indenizações, incluindo a assistência emergencial mensal”.

A empresa também afirma que nunca houve “qualquer alerta antecedente sobre riscos críticos ou iminentes à estabilidade da Barragem 1” e que a estrutura “possuía todas as declarações de estabilidade aplicáveis e passava por recorrentes inspeções internas e externas de segurança”. Sobre as instalações do centro administrativo, que ficava embaixo da barragem, a Vale disse tratar-se de “estruturas licenciadas pelas autoridades, construídas há décadas, assim como inúmeras outras empresas no Brasil e no exterior”.

† Vagner Nascimento da Silva | Vaguinho não está entre os 11 desaparecidos porque sua perna direita foi encontrada separada do corpo. No entanto, seus pais, Alderico Rodrigues da Silva e Arlete Gonçala de Souza Silva, ainda esperam por outras partes para enterrá-lo.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Arlete mostra mensagem que enviou pelo filho no celular. 

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

VIDAS QUE SEGUEM

Daise Laura da Silva conheceu Tiago ainda na adolescência, em Brumadinho, mas foi na vida adulta que começaram o namoro. Da relação veio a gravidez, antes mesmo do casamento. “A gente decidiu antecipar a cerimônia por causa da gestação. Nos casamos em um sítio, numa festa que durou três dias. Do jeito que Tiago queria, porque ele era uma pessoa muito alegre”, recorda-se Daise. Depois da primeira filha, o casal teve outro bebê – que perdeu o pai aos sete meses de idade.

Segundo Daise, Tiago tinha acabado de ser transferido entre unidades da Vale. Ele saiu da mina da Jangada, em Sarzedo, para trabalhar na mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, distantes nove quilômetros uma da outra. A expectativa era de, ao se formar, conseguir uma vaga como engenheiro mecânico ali. Ainda sem encontrar o corpo do marido, Daise tem um único desejo. “Quero enterrar meu Tiago e viver em paz com os meus filhos. E que isso não se repita, que isso sirva de aprendizado”, diz ela.

Esse é o mesmo sentimento dos pais de Tiago, Lúcia Aparecida e Arnaldo. “Eu quero achar o corpo, mas não sei se vou aguentar, porque, no fundo, eu ainda tenho esperança. Ao encontrar o corpo, isso vai morrer dentro de mim”, diz ela. “A dor pior que existe é a de uma mãe”, “Aí vem uma empresa e mata meu filho na lama e nem o corpo dele ela me devolve?”

† Tiago Tadeu da Silva | Os pais de Tiago, Arnaldo Nunes da Silva e Lúcia Aparecida da Silva, seguram retrato do filho. “Eu quero achar o corpo, mas não sei se vou aguentar porque, no fundo, eu ainda tenho esperança. Ao encontrar o corpo, isso vai morrer dentro de mim”, diz Lúcia.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

A esposa de Tiago, Daise Laura da Silva, quer enterrar o corpo do marido para que os filhos tenham um lugar para interagir com o pai, mesmo que morto.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

A mesma dor é também sentida, todos os dias, por Eva Aparecida de Sousa, mãe de outro funcionário da Vale, Renato. “Quem matou eles não vai ser preso. Quem está preso é meu filho. Nem enterrar meu filho eu pude. Ele foi chamado para trabalhar na Vale e ficou lá por nove ou dez anos, fez curso de mecânico e estava querendo crescer. Me deu duas joias que são minhas netas”, lamenta. Angélica Maria de Sousa diz que o irmão, Renato, amava o que fazia. “Eles o tiraram da gente de forma bruta. Enquanto ele não for encontrado, e as outras dez joias, a gente não vai parar. A gente precisa fechar esse ciclo.”

Gleyciane da Silva nunca pensou que no dia 25 de janeiro, data de seu aniversário, não receberia os parabéns do pai, Uberlândio, trabalhador terceirizado da Vale. “Ele sempre me ligava e mandava mensagem no dia do meu aniversário. Achei muito estranho ele não ter entrado em contato”. Ela mora com a família no Espírito Santo e conta que, quando o patrão do pai falou que ele estava no Córrego do Feijão durante o horário do almoço, teve a certeza de que ele não voltaria mais. Para ela, a luta é para que as buscas continuem. “O meu pai não tem culpa do que aconteceu. Eu tenho certeza que ele vai estar lá. Só preciso que encontrem.”

É na fé que Evanir Geraldo de Assis encontra paz para seguir a vida e cuidar dos dois filhos, frutos do casamento com Angelita, que trabalhava na Vale e ainda está desaparecida. Ele também trabalhou na mineradora por 18 anos e conta com orgulho que Angelita estava na terceira pós-graduação e planejava cursar medicina. Agora, Evanir assumiu os serviços da casa para ficar mais próximo dos filhos. Um dia ouviu do caçula: “Pai, a palavra de Deus fala que o homem veio do pó e ao pó retornará, não é isso? A lama quando seca vira o quê? Pó. Pois, então, o corpo da mãe já está no pó, já está no lugar certo”. Entender isso trouxe paz à família. Mas ele deixa claro que aceitar e compreender a morte da esposa não exime a Vale de suas responsabilidades. “A Vale, que tanto praticou a política da vida em primeiro lugar, foi exatamente quem atentou contra a vida”, diz ele.

† Nathália de Oliveira Porto Araújo | Márcia de Oliveira (à esquerda), Telma Oliveira (no centro) e Tânia Efigênia de Oliveira Queiroz seguram retrato da prima, que foi criada por Maria Joana da Cruz, sua tia, cujo retrato abre esta reportagem.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Nathália herdou as botas e o uniforme que a prima Tânia utilizava quando trabalhou na Vale. "Eu passo às vezes de três a quatro dias sem dormir direito, tomo medicamentos, mas não consigo parar de pensar”, diz Tânia.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

A bota que Tânia usava no tempo em que trabalhou na Vale como vigilante passou para a prima Nathália. Mas não apenas a bota. Também o uniforme e o amor incondicional de uma vida inteira. “Não consigo acreditar que ela foi embora e que até hoje não foi encontrada”, conta Tânia. Ela explica que a mãe de Nathália morreu quando a menina tinha apenas seis meses de vida e que, por isso, foi criada pela tia, dona Maria.

No dia da tragédia, logo que soube do rompimento, Tânia pediu ajuda ao marido, que também trabalhava no local, para encontrar a prima. O marido estava num lugar mais afastado e conseguiu se salvar, mas disse ter visto Nathália minutos antes da tragédia, falando ao telefone. Do outro lado da linha estava o marido de Nathália – “A terra tá tremendo, tá fazendo muito barulho”, foi uma das últimas frases que ele ouviu. Por fim, ela disse: “Deus me dá o livramento”. Desesperado, o marido saiu em busca da esposa até o local onde ela teria sido vista pela última vez. “Ele ajudou a salvar vidas, mas voltou sem achar a mulher que amava”, disse Tânia.

ÚLTIMA VIAGEM

Maria de Lurdes da Costa Bueno, Malu, o companheiro e os filhos eram hóspedes da pousada Nova Estância, que ficava perto da barragem. A filha, Patrícia Borelli, que mora nos Estados Unidos, conta que não imaginava que a mãe estaria na região no dia da tragédia. “Eles estavam fazendo uma viagem de comemoração porque a noiva do filho do meu padrasto estava grávida de 5 meses”, relata. Depois de ter certeza de onde a mãe estava, Patrícia foi a Brumadinho com o irmão em busca de respostas. De acordo com ela, funcionários da pousada disseram que a família estava tomando um cafezinho, depois foi para os quartos descansar antes de ir para o museu de Inhotim. Foi nessa hora que veio a lama.

† Lecilda de Oliveira | Em novembro de 2019, chegou uma carta registrada que só Lecilda estava autorizada a receber. Depois de conseguir acesso ao envelope, a família descobriu se tratar de orientações para a aposentadoria de Lecilda. "Não houve sequer um cuidado com a gente por parte da empresa”, diz a irmã Natália (à direita).

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

† Renato de Sousa | O pai, Geraldo Eustáquio de Souza, a mãe, Eva Aparecida de Sousa e a irmã de Tiago, Angélica Maria de Souza, seguram seu retrato. "Enquanto ele não for encontrado, e as outras dez joias, a gente não vai parar. A gente precisa fechar esse ciclo", diz Angélica.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Para Patrícia, cada mês sem encontrar o corpo da mãe traz mais aflição. “No primeiro ano eu sonhava que estava lá na lama e que eu a encontrava. Todo dia eu acordava e pensava: será que vai ser hoje? Vai ser hoje”, recorda. “Com o tempo, eu comecei a internalizar que não iria conseguir fazer uma cerimônia de enterro do jeito que eu gostaria.”

Ambrosina Resende arruma cuidadosamente a roupinhas dos dois netos, que brincam felizes de carrinho de um canto para o outro da casa. As crianças são filhos do primeiro fruto do casal, Juliana, que está entre os desaparecidos. Suas irmãs Fabiana e Josiana, gêmeas, nasceram três anos depois. Alef é o caçula, 12 anos mais novo que a primogênita. Fabiana conta que Juliana, a Ju, era extremamente próxima da mãe. “E eu e a Jojo [Josiana] sempre vimos a Juliana como um exemplo. A mãe perdeu a gêmea dela porque a Ju era a gêmea dela igual eu e a Jojo”, diz ela.

Ambrosina lembra que Juliana começou como caminhoneira de uma empresa que prestava serviços para a Vale antes de ser contratada pela mineradora. Tempos depois, virou funcionária especialista em dados. Casou-se com um trabalhador da mineradora e tiveram gêmeos na maior alegria. No dia da tragédia, Juliana estava atrasada. A mãe chegou a pedir para ela não trabalhar e levar um dos filhos ao médico porque ele não estava se sentindo bem, mas a filha preferiu adiar. “Deixaram os dois meninos órfãos de pai e de mãe”, diz Ambrosina.

Ao lado do pai, Geraldo, Josiana se tornou uma liderança entre as famílias que ainda procuram pelos seus entes. “Com a saída de algumas pessoas que encontraram seus familiares desaparecidos, fomos tomando a frente e hoje somos referência das 11 joias, das 11 famílias”. Ela, Geraldo e Natália Oliveira, que também perdeu a irmã Lecilda na mesma tragédia, lutam diariamente pelo encontro de todos. Há cerca de um mês, o trio esteve numa reunião com o atual presidente da Vale, Eduardo Bartolomeo, para levar a ele o pedido para que as buscas não parem. “Quando o presidente da Vale falou que esse compromisso está assumido, a gente espera que não meçam esforços para que as buscas continuem mesmo no período chuvoso, que é um dificultador”, explica Jojo.

O coveiro Wellington de Souza Maia conta que, todo dia 25 de janeiro, data de aniversário da tragédia, várias famílias visitam o cemitério para prestar homenagens aos seus entes falecidos.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

O cemitério de Brumadinho, em Minas Gerais, raramente enterrava mais de uma pessoa no mesmo dia. De repente, os coveiros tiveram que abrir cerca de 300 covas para as vítimas da tragédia.

Foto de Ísis Medeiros, Produção de Naiana Andrade

Conviver com a dor da perda também tem sido um desafio para Natália Oliveira, irmã da Lecilda. “Eu sinto muita falta porque tudo que acontecia na família a Lecilda estava presente. Ela tinha quase 30 anos de Vale, era uma das primeiras mulheres porque eram poucas quando a Lecilda começou. Então, acho que ela ficou como uma referência para as mulheres da empresa”, diz Natália. “[Ela] gostava demais da Vale, das pessoas, do ambiente, tinha um orgulho de vestir o uniforme. Mas a Vale não conhecia a Lecilda. Para minha irmã, a Vale era parte da família dela há 30 anos.”

Em novembro de 2019, os familiares receberam uma carta registrada que só Lecilda poderia assinar para receber. Com dificuldade, conseguiram ter acesso ao envelope. “Era inacreditável: a carta era um aviso da Vale com orientações à funcionária Lecilda sobre o passo a passo da aposentadoria. Não houve sequer um cuidado com a gente por parte da empresa”, diz Natália. Ao mesmo tempo, a irmã encontra conforto na fala de amigos e antigos funcionários da Vale que a procuram para dizer: “O que sua irmã fez por mim, nem familiar faz.”

Os familiares fazem questão de honrar as vítimas sempre que podem. Todos os dias 25 de cada mês, integrantes da Avabrum, a associação que representa os familiares de atingidos pela tragédia, prestam homenagens aos 259 mortos e aos 11 desaparecidos no letreiro com o nome Brumadinho na entrada da cidade. As famílias de Cristiane Antunes Campos, Olímpio Gomes Pinto e Luís Felipe Alves, vítimas continuam desaparecidos, não quiseram conceder entrevistas para esta reportagem.

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