Quem assassinou essa família indígena na Amazônia peruana? E por quê?

Os trágicos assassinatos de membros de um povoado que já viveu sem contato externo mostram como deixar o isolamento pode ser perigoso.

Fotos de Charlie Hamilton James
Publicado 26 de nov de 2020 08:00 BRST
Shuri e sua esposa Janet em frente à maloca, um abrigo feito de palha de palmeira, em ...

Shuri e sua esposa Janet em frente à maloca, um abrigo feito de palha de palmeira, em maio de 2017. No dia 11 de novembro, os corpos de Shuri, Elena, sua outra esposa, e sua sogra Maria foram encontrados neste local alvejados com flechas, junto com seus cães de estimação. Apesar de Janet não ter sido encontrada, ela é considerada morta.

Foto de Charlie Hamilton James, National Geographic

O BRUTAL ASSASSINATO de uma família indígena da etnia mastanahua na Amazônia peruana deixou os povoados locais aflitos enquanto as autoridades estão em busca de respostas.

Os corpos de Shuri, sua esposa Elena e sua sogra Maria foram encontrados duas semanas atrás crivados de flechas perto dos restos carbonizados de sua maloca, um abrigo feito de palha de palmeira, perto do rio Curanja, na região do Alto Purús, no Peru. A segunda esposa de Shuri, Janet, não foi encontrada, mas ela é considerada morta.

Shuri era seu nome mastanahua, ele também era chamado de Epa. As mulheres receberam seus nomes de missionários cristãos. Povos que vivem nas profundezas da floresta, longe do mundo moderno, já foram chamados de “sem contato” — agora são conhecidos como isolados.

Shuri posa em frente a uma placa que indica o posto de controle da Reserva Indígena Mashco Piro para povos isolados, administrado pelo Ministério da Cultura do Peru e que conta com agentes de proteção dos povoados locais huni kuin. Shuri e sua família moravam a uma hora de caminhada do posto de controle e eram visitantes assíduos, frequentemente pediam comida ou ajuda médica aos guardas. (As pessoas retratadas na placa não são membros do povoado mashco piro).

Foto de Charlie Hamilton James, National Geographic

A família de Shuri morava perto da fronteira da Reserva Indígena Mashco Piro para povos isolados. A reserva ocupa o mesmo espaço do Parque Nacional do Alto Purús, o maior parque do Peru, e protege alguns dos ecossistemas mais remotos e intactos de toda a Bacia Amazônica.

A região abriga uma das maiores concentrações de povos isolados do mundo inteiro. Os mashco piro, o maior povoado isolado do Peru, estimado em cerca de 700 indivíduos, constituem a grande maioria.

Uma equipe de investigação, que inclui o Ministério da Cultura do Peru, a polícia, líderes indígenas e outras autoridades, está no rio Curanja para averiguar os assassinatos. Os investigadores ainda não divulgaram nenhuma informação. Mas depoimentos não oficiais dos vizinhos huni kuin, que vivem rio abaixo e que descobriram os corpos, descrevem as pegadas descalças de 50 agressores e os mesmos tipos de flechas utilizadas pelos mashco piro.

Os mastanahua e mashco piro estão envolvidos em um conflito que provavelmente se estende há muitas gerações. O próprio Shuri havia sobrevivido a um ataque anterior com flecha lançada pelos mashco piro e tinha uma grande cicatriz nas costelas que comprovava o atentado.

Se os assassinos foram os mashco piro, esse pode ter sido seu último ataque a inimigos mortais — ou uma tentativa de defender o que resta de seu território e fontes de alimento da floresta.

Essas não são as únicas explicações plausíveis. Talvez Shuri e sua família tenham sido atacados por narcotraficantes que operam rio acima ou por um povo isolado do qual eram amigos ou mesmo parentes. Talvez eles tenham sido alvos porque Shuri não tinha mais condições de fornecer facões ou outros produtos manufaturados dos quais eles dependiam.

Nas duas últimas décadas, trabalhei no rio Curanja com os huni kuin. Nossa equipe os ajudou a desenvolver habilidades de vigilância, como o uso da tecnologia GPS para proteger suas terras de madeireiros e outros invasores, e os ensinamos a gerenciar seus recursos abundantes — tartarugas, peixes, resinas de árvores medicinais — de forma sustentável e lucrativa.

Janet, a esposa mais nova de Shuri, geralmente o acompanhava em visitas ao posto de controle da reserva e às comunidades huni kuin, a jusante do rio Curanja. Seu rosto está pintado com suco da fruta jenipapo.

Foto de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

Quando missionários fizeram contato com alguns membros do povo mastanahua em 2003, apenas Shuri e sua família direta optaram por encerrar seu isolamento na floresta. Eles faziam negócios com os moradores locais e mantinham contato com os cerca de 20 membros migratórios de seu grupo.

Foto de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

Vi em primeira mão a tênue relação entre grupos indígenas que disputam recursos. Eles incluem os huni kuin, que vivem em assentamentos há décadas; o povo isolado mascho piro; entre outros, que assim como Shuri e sua família, estão nos primeiros estágios de contato com o mundo moderno.

Também tive o privilégio de visitar Shuri e sua família de vez em quando e testemunhar sua notável — embora extremamente difícil — transição de caçadores e coletores isolados para uma vida estabelecida à margem da sociedade moderna.

Conheci Shuri e sua família não muito depois de 2003, quando foram convencidos a sair da floresta por missionários evangélicos dos Estados Unidos. Ele só vestia um cinto de casca de árvore em volta da cintura, umas contas em seus braços e abaixo dos joelhos, e uma insígnia de metal redonda presa ao nariz, feita a partir de uma colher. Ele carregava apenas um arco e duas flechas de 1,8 metro, que ficavam em destaque em comparação ao seu corpo de apenas um metro e meio.

A mais jovem das duas esposas de Shuri, Janet, vinha logo atrás. Ela levava uma tartaruga imensa e um cesto ainda mais pesado de mandioca pendurados em suas costas, que eram sustentados por um cipó enrolado na testa. Mais tarde, descobri que Shuri precisava ficar com os braços livres para poder disparar uma flecha a qualquer momento em caso de necessidade — por isso, Janet fazia o trabalho árduo de carregar os itens essenciais.

A região da cabeceira do rio Curanja, perto da área ocupada simultaneamente pelo Parque Nacional do Alto Purús e pela Reserva Indígena Mashco Piro, abriga uma das maiores concentrações de povos isolados na Amazônia.

Foto de Charlie Hamilton James, National Geographic

“Eles eram a representação perfeita das complexidades do contato”

Shuri vivia entre dois mundos distintos. Ele negociava tartarugas, queixadas e outras carnes silvestres com os vizinhos huni kuin em troca de itens cobiçados, como roupas e facões. Ele também caminhava por dias selva adentro para visitar os membros restantes de seu povoado mastanahua, que ainda viviam em isolamento, possivelmente algumas dezenas de indivíduos. Ele era o vínculo deles com a sociedade moderna.

Em 2017, o fotógrafo da National Geographic Charlie Hamilton James me acompanhou ao Curanja para fotografar Shuri. As fotos seriam usadas na matéria de capa da edição de outubro de 2018 da revista sobre ameaças a povos isolados na Amazônia e o processo de contato. Charlie tem uma vasta experiência de trabalho no Peru e uma perspectiva única sobre os desafios que os povos indígenas enfrentam ao deixar seu isolamento nas profundezas da floresta.

“Minha experiência ao conhecer Shuri e Janet foi que eles eram a representação perfeita das complexidades do contato”, conta Hamilton James. “Eles fugiram de uma vida de medo na floresta, para entrar em um mundo que pouco tinha a lhes oferecer e cujas tentativas de apadrinhamento eram confusas e vazias.” Ele diz que a família queria aproveitar os benefícios da vida moderna, mas não estava equipada para tanto nem recebia apoio suficiente.

“Conhecê-los foi sombrio”, relembra. “Eles reclamavam de fome e vermes. Queriam remédios para curar suas doenças, e todos os seus cães haviam morrido, deixando-os solitários e desolados.”

A história deles é comum entre os povos indígenas que saem do isolamento, ele explicou: “Eles são relegados a um mundo no qual não têm as habilidades necessárias para exercer as atividades com eficácia. Como consequência, se inserem na sociedade no degrau mais baixo e muitas vezes enfrentam os abusos mais árduos.”

Shuri me disse uma vez que o medo dos mashco piro foi a principal razão pela qual a família decidiu deixar a floresta e seguir os missionários.

Shuri, Janet, Elena e Maria tinham o costume de visitar outros membros de sua ainda isolada família mastanahua nesse remoto vilarejo próximo à fronteira entre o Peru e Brasil, a alguns dias de caminhada de sua maloca no rio Curanja.

Foto de Charlie Hamilton James, National Geographic

O isolamento tem sido a estratégia de sobrevivência dos mashco piro. Provavelmente foi adotada há mais de um século para fugir da violência e das doenças levadas pelos seringueiros que quase exterminaram esse povo indígena.

Hoje em dia, seu território está novamente sob ameaça. Imagens de satélite mostram que novas fazendas de coca instaladas por agricultores que migraram da região florestal central do Peru e pistas de pouso clandestinas estão surgindo praticamente de forma repentina em toda a região. É provável que isso esteja forçando os mashco piro a irem para áreas menos remotas e mais populosas, como as margens ao longo do rio Curanja. Isso possibilitaria encontros violentos quando saem em busca de alimento: animais, como antas e queixadas, bem como ovos de tartaruga.

Avatar de outra época

A trágica perda de Shuri, Elena, Maria e provavelmente Janet é um lembrete cruel da vulnerabilidade dos povos indígenas na região.

As políticas brasileiras e peruanas de abrir mais a Amazônia para estradas e indústrias extrativistas são uma ameaça direta para alguns dos últimos povos isolados do mundo. Se a tendência continuar, deixará a vida mais perigosa para povoados de áreas remotas, onde os serviços governamentais, como autoridades policiais, exército ou guardas de áreas protegidas, são escassos ou inexistentes.

A sogra de Shuri, Maria, sentada com seus dois cães de estimação no abrigo que ela construiu atrás do posto de controle da Reserva Mashco Piro.

Foto de Charlie Hamilton James, National Geographic

Para mim, Shuri era um avatar vivo e pulsante de outra época, de outra era.

Segui-lo pela selva será para sempre um dos pontos altos da minha existência. Observei como ele pisava cuidadosamente com seus pés largos no chão da floresta ao mesmo tempo em que examinava as copas das árvores e farejava o ar em busca de animais. Vi como ele reagia de forma diferente a vários cantos de pássaros e ao barulho dos galhos se partindo na vegetação baixa, enquanto apontava para os espinhos nos quais eu estava prestes a tropeçar. Uma vez, ele casualmente apontou para uma formiga-cabo-verde — conhecida por sua picada dolorosa — em uma árvore a poucos centímetros da minha cabeça.

Shuri era a encarnação da relação íntima com a natureza que os povos indígenas desenvolveram ao longo de várias gerações, uma relação que desapareceu entre a maioria de nós.

Ficar na presença de Shuri me dava esperança.

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