A arte mais antiga do mundo não está na Europa: descobertas pinturas de 67 mil anos na Indonésia

Marcas pré-históricas de mãos foram datadas em mais de 67.800 anos em uma caverna da ilha indonésia de Muna. A descoberta redefine a história da criatividade humana e revela pistas sobre a primeira migração para a Austrália.

Por Dyna Rochmyaningsih
Publicado 28 de jan. de 2026, 10:01 BRT
Shinatria Adhityatama examina a arte rupestre em uma das cavernas de Sulawesi, na Indonésia. Recentemente, arqueólogos ...

Shinatria Adhityatama examina a arte rupestre em uma das cavernas de Sulawesi, na Indonésia. Recentemente, arqueólogos encontraram a arte rupestre mais antiga do mundo na caverna Liang Metanduno, na ilha indonésia de Muna.

Foto de Maxime Aubert

Em Muna, uma ilha tropical ao sudeste de Sulawesi, na Indonésia, há uma caverna decorada com pinturas pré-históricas. Os habitantes locais a chamam de Liang Metanduno. Eles visitam a galeria de arte arcaica para se maravilhar com as representações de figuras humanas voadoras, barcos cheios de passageiros e guerreiros montados, desenhados com pigmentos vermelhos, marrons e, às vezes, pretos. 

Em 2015, Adhi Agus Oktaviana, arqueólogo da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia (BRIN), viajou para Liang Metanduno em busca de uma forma muito mais antiga de expressão artística humana, anterior às pinturas de pássaros, porcos e cavalos feitas em suas paredes há apenas alguns milhares de anos.

No teto, perto de um rabisco marrom de uma galinha, Oktaviana encontrou o que procurava: dois estênceis de mãos, um dos quais tinha um dedo pontudo como uma garra de animal.

Usando uma nova técnica de datação, ele e o explorador da National Geographic Maxime Aubert – arqueólogo e geoquímico da Universidade Griffith, na Austrália – juntamente com outros colegas, tentaram determinar a idade da obra de arte. Eles descobriram que o estêncil em forma de garra tem pelo menos 67.800 anos — a arte rupestre mais antiga atribuída aos humanos modernos encontrada até agora. Eles relataram suas descobertas na quarta-feira na revista científica “Nature”.

Os estênceis de mãos, cujo mais antigo data de cerca de 67.800 anos atrás, são vagamente ...

Os estênceis de mãos, cujo mais antigo data de cerca de 67.800 anos atrás, são vagamente visíveis à esquerda e à direita do pássaro pintado encontrado na caverna Liang Metanduno, na ilha de Muna, no sudeste da Indonésia.

Foto de Maxime Aubert

A idade do estêncil de mão em Muna mostra que os primeiros humanos modernos que habitaram Nusantara durante o final do Pleistoceno já tinham uma cognição sofisticada”, diz Oktaviana, referindo-se à área que hoje é o arquipélago indonésio.

A arte de Muna, recentemente datada, é cerca de 16.600 anos mais antiga do que a arte rupestre que os pesquisadores documentaram anteriormente nas cavernas de Maros-Pangkep, em Sulawesi, e cerca de 1.100 anos mais antiga do que os estênceis de mãos encontrados na Espanha, que se acredita terem sido desenhados por neandertais.

“Esta é a prova mais forte de que nossa espécie estava presente no arquipélago indonésio naquela época e que eles transformaram de forma lúdica e criativa uma marca de mão humana em outra coisa”, afirmou Adam Brumm, arqueólogo também da Universidade Griffith e coautor do artigo, durante uma coletiva de imprensa.

Os pesquisadores também dataram estênceis de mãos encontrados em duas outras cavernas nas ilhas vizinhas. Sua análise mostra que os estênceis foram criados entre 44.500 e 20.400 anos atrás

Isso sugere que os antigos habitantes da Indonésia continuaram fazendo arte rupestre por dezenas de milhares de anos até o auge da última era glacialquando o nível do mar era mais baixo e uma parte do Sudeste Asiático integrava uma massa de terra exposta chamada Sundaland

Os autores acrescentam que as descobertas podem fornecer pistas para entender melhor a população que cruzou pontes terrestressaltou entre ilhas para se tornar os primeiros habitantes da Austrália há cerca de 65.000 anos.

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    “Os achados em Muna oferecem insights sobre a inteligência humana primitiva: os primeiros humanos da Indonésia eram capazes de imaginar seres inexistentes.”

    Humanos primitivos eram capazes de imaginar seres fantasiosos

    Para descobrir a idade dos estênceis de mãos, os pesquisadores usaram uma técnica desenvolvida por Aubert e outros chamada datação por ablação a laser da série do urânio, que permite a datação precisa da arte rupestre à base de ocre. Esse método usa um laser para coletar e analisar uma quantidade muito pequena de depósitos de carbonato de cálcio que se formaram na parte superior de uma camada pigmentada.  

    Na Universidade de Southern Cross, na Austrália, eles usaram a técnica e dataram o estêncil de mão em forma de garra entre 75.400 e 67.800 anos, e o outro estêncil de mão em cerca de 60.900 anos atrás.

    Os achados em Muna se somam a recentes descobertas de arte rupestre na Indonésia que oferecem insights sobre a inteligência humana primitiva. Em 2019, Aubert e Oktaviana relataram ter encontrado arte rupestre retratando teriantropos — figuras humanas com cabeças e caudas de animais — caçando javalis e búfalos anões endêmicos de Sulawesi, os chamados anoa

    As cenas narrativas, que mais tarde se descobriu terem 51.200 anos, mostram que os primeiros humanos que viviam na Indonésia eram capazes de imaginar seres inexistentes. Os estênceis de mãos recém-datados em Muna mostram sinais de que os artistas que os pintaram também tinham essa mesma capacidade cognitiva, afirmam os pesquisadores.

    Conforme observou a equipe, um dos dedos do estêncil parece pontudo como uma garra de animal, um estilo artístico que só foi encontrado em Sulawesi, afirmam eles. Aubert diz que só pode especular que isso tem algo a ver com as relações entre humanos e animais. Mas o fato de o artista ter modificado o estêncil da mão — seja retocando o dedo com um pincel ou movendo a mão para criar um efeito semelhante a uma garra — mostra um pensamento complexo”, diz Aubert.

    “Eles estão desenhando algo que não existe realmente”, diz ele.

    R. Cecep Eka Permana, um etnoarqueólogo da Universidade da Indonésia que não participou da pesquisa, afirma que os estênceis de mãos podem estar relacionados à prática de afastar o azar, um ritual encontrado em alguns grupos indígenas em Sulawesi.

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      Estênceis de mãos com dedos estreitos de Leang Jarie, Maros, Sulawesi.

      Estênceis de mãos com dedos estreitos de Leang Jarie, Maros, Sulawesi.

      Foto de Ahdi Agus Oktaviana

      Essas evidências de uma mente sofisticada, afirmam os pesquisadores, desafiam as visões eurocêntricas da inteligência antiga que antes dominavam a arqueologia.

      Muitas pessoas acreditavam que nos tornamos cognitivamente modernos quando chegamos à Europa Ocidental”, diz Aubert. Essa visão, afirma ele, decorre da falta de tecnologia avançada de datação para arte rupestre na época.

      maioria das pinturas rupestres datadas na Europa foi feita com carvão, permitindo que os cientistas realizassem a datação por carbono, diz Aubert. Enquanto isso, a arte rupestre do Sudeste Asiático é feita principalmente com ocre, um pigmento inorgânico vermelho-marrom derivado do óxido de ferro, que é difícil de datar por carbono

      nova técnica de datação ajuda a mostrar que humanos inteligentes viviam na região muito antes de os humanos modernos pisarem na Europa, afirmam os autores. É também uma evidência, dizem eles, de que os primeiros povos dessa região também podem ter tido a inteligência necessária para realizar uma viagem marítima até a Austrália.

      (Sobre história, saiba mais: Uma surpreendente descoberta sobre a Idade Média: vulcões podem ter espalhado a Peste Negra)

      Humanos inteligentes o suficiente para migrar para a antiga Austrália 

      Pesquisas sugerem que alguns humanos modernos deixaram a África há 60.000-90.000 anosatravessando o Oriente Médio e o Sul da Ásia antes de finalmente chegarem a Sundaland, que hoje compreende Sumatra, Java e Bornéu.

      Lá, eles tiveram que navegar pelo marpulando de uma ilha para outra, até finalmente chegarem a Sahul, a massa continental que cobria Papua e Austrália na época. Sulawesi e outras ilhas tropicais entre as duas regiões — conhecidas como região de Wallacea por sua história geológica e flora e fauna únicas — contêm pistas importantes para a história dessa épica migração humana.

      Como os restos humanos da era pleistocênica em Sulawesi são raros, a arte rupestre está entre as poucas fontes de evidência da presença humana na época.“É uma janela íntima para olhar para o passado”, diz Aubert.

      O professor Maxime Aubert trabalhando em uma caverna.

      O professor Maxime Aubert trabalhando em uma caverna.

      Foto de Ahdi Agus Oktaviana
      Adhi Agus Oktaviana investigando uma das cavernas Maros-Pangkep em Sulawesi, Indonésia.

      Adhi Agus Oktaviana investigando uma das cavernas Maros-Pangkep em Sulawesi, Indonésia.

      Foto de Maxime Aubert

      Oktaviyana diz que a arte rupestre aborígine em Madjebebe, no norte da Austrália, provavelmente foi herdada de seus ancestrais em Nusantara, o mesmo povo que deixou suas marcas de mãos em Muna há 67.800 anos. As escavações de restos humanos podem levar muito tempo, “mas a ciência arqueológica pode preencher essa lacuna de conhecimento”, diz ele.

      Helen Farr, arqueóloga marítima da Universidade de Southampton, na Inglaterra, que não participou do trabalho, diz que a descoberta em Muna é interessante.

      É ótimo ver a arte preservada e datada, proporcionando uma pequena janela para uma ampla gama de atividades que muitas vezes são mal interpretadas”.

      Ela acrescenta que a nova descoberta corrobora sua pesquisa genética sobre o povoamento de Sahul, que mostrou que “as pessoas possuíam tecnologia marítima eram capazes de atravessar mares abertos entre Wallacea e a Austrália há 65 mil anos”.

      Mas qual rota essas pessoas seguiram para chegar à Austrália?

      descoberta em Muna sugere que elas podem ter seguido a rota norte, passando pelas ilhas indonésias de Sulawesi, Maluku e Papua. Mas Oktaviana diz que também é possível que tenham seguido a rota sul.

      Durante uma entrevista à National Geographic, ele abriu o Google Mapsampliou uma ilha muito pequena e isolada mais ao sulentre Sulawesi e Flores, que pode ter sido um possível ponto de partida para a Austrália.

      “Veja isso”, diz ele. “Há uma caverna aqui e pode haver outra arte rupestre.” Ele diz que precisará buscar financiamento para visitar a ilha e descobrir. Mas, para Oktaviana, vale a pena tentar se houver uma chance de fazer outra descoberta sobre a arte rupestre e a migração humana antiga, como fez em Muna.

       

      National Geographic Society, organização sem fins lucrativos comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do explorador Maxime Aubert. Saiba mais sobre o apoio da Sociedade aos exploradores. 

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