
Uma surpreendente descoberta sobre a Idade Média: vulcões podem ter espalhado a Peste Negra
A lava jorra de uma fissura ativa de um vulcão em erupção e cria rios de magma. Novos estudos associam a mudança climática causada pela erupção de vulcões na Ásia e o comércio entre esta parte do planeta com as cidades-estado da Europa medieval com a propagação da Peste Negra em torno de 1347 d.C., por exemplo.
Em 1347 d.C., a Peste Negra chegou ao sul da Europa. Ela se espalhou rapidamente pela península italiana, matando metade da população em algumas áreas. Relatos de testemunhas oculares falam de famílias inteiras sucumbindo à peste, valas comuns cavadas para as vítimas e o terror que tomou conta das cidades.
O impacto desta peste é infame até hoje. Por isso mesmo, os cientistas estudaram extensivamente a bactéria Yersinia pestis, causadora da peste, bem como os ratos e as pulgas que a espalharam. Mas uma nova análise implica outro colaborador: os vulcões.
Não está claro por que a doença, que provavelmente surgiu nas populações humanas no início dos anos 1300 e devastou comunidades na Ásia Central na década de 1330, só chegou ao Mediterrâneo em 1347. O novo estudo publicado na revista “Communications Earth & Environment” relaciona o momento da Peste Negra e sua explosão na península italiana com a atividade vulcânica que resfriou o clima, causou fome e estimulou as importações de grãos para o território europeu, o que também pode ter trazido a peste.
“Há uma série de fatores que se alinharam. E se você tirasse qualquer um deles, isso não teria acontecido”, diz Hannah Barker, historiadora da Universidade Estadual do Arizona em Tempe, Estados Unidos, mas que não participou deste trabalho. Foi necessária uma confluência de mudanças climáticas, interações animais e ações humanas para produzir a pandemia da peste na Europa medieval.
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A peste conhecida como Peste Negra chegou ao sul da Europa em 1347, possivelmente com a ajuda indireta de erupções vulcânicas nos trópicos. Em poucos anos, ela se espalhou para o norte. Esta imagem de um manuscrito iluminado retrata o enterro das vítimas da peste em Tournai, Bélgica, em 1353.
Pistas sobre a epidemia vindas de anéis de árvores e núcleos de gelo
O geógrafo Ulf Büntgen, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, encontrou novas pistas sobre o papel do clima na pandemia da Peste Negra enquanto trabalhava em um arquivo climático baseado em anéis de árvores. Ele e seus colegas usam a taxa de anéis de árvores para reconstruir registros de temperatura e precipitação dos últimos 2.000 anos. “A datação é muito precisa”, diz ele.
Ao analisar os registros climáticos compilados a partir de árvores em toda a Europa, Büntgen percebeu que as temperaturas em todo o Mediterrâneo foram ligeiramente mais frias do que a média entre 1345 e 1357. “Nada muito impressionante”, diz ele. Mas Büntgen queria entender por que ocorreu o resfriamento. Ele suspeitou da atividade vulcânica, que expele aerossóis que resfriam o clima. Então, ele consultou especialistas que estudam núcleos de gelo que preservam um registro químico das condições atmosféricas da Terra.
Os núcleos da Groenlândia e da Antártida continham níveis elevados de enxofre, que é emitido por erupções, em camadas datadas de cerca de 1345. Isso sugeria que pode ter ocorrido uma ou uma série de erupções, provavelmente nos trópicos, naquela época.
Questionando-se sobre possíveis conexões sociais, Büntgen se uniu ao historiador medieval Martin Bauch para reconstruir mais da história. Bauch encontrou indícios de atividade vulcânica nos registros históricos. Pessoas na China e na Boêmia relataram eclipses lunares quando, com base nos cálculos das órbitas, eles não deveriam ter ocorrido. É possível que os céus carregados de partículas tenham alterado a aparência da Lua, levando a relatos estranhos, diz Bauch, do Instituto Leibniz de História e Cultura da Europa Oriental, em Leipzig, Alemanha.
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“Os núcleos de gelo da Groenlândia e da Antártida continham níveis elevados de enxofre, que é emitido por erupções, em camadas datadas de cerca de 1345.”
O período de frio prolongado provavelmente também afetou as colheitas em todo o Mediterrâneo, levando a ações humanas que podem ter acelerado a propagação da peste. As cidades-estado italianas davam grande importância à segurança alimentar, diz Bauch.
Isso porque, após as fomes do século anterior à Peste Negra, essas urbes italianas construíram redes de comércio de longa distância, para que pudessem adquirir trigo de lugares como o norte da África e a região do Mar Negro, a oeste.
Com base em registros históricos, administrativos e jurídicos, os preços dos grãos dispararam, e as preocupações com a segurança alimentar pareceram mais pronunciadas entre 1346 e 1347. “Mesmo grandes potências como Veneza e Gênova sentiram repentinamente a necessidade urgente de importar o máximo possível de grãos”, diz Bauch.
Nos anos anteriores, uma guerra comercial entre essas cidades-estado e os mongóis, que controlavam grande parte do norte do Mar Negro, interrompeu as importações de grãos da região, diz Barker. Mas, à medida que os mongóis morriam de peste e Veneza e Gênova ficavam cada vez mais desesperadas por trigo, ambos os lados se tornaram menos interessados na guerra comercial, permitindo que os navios levassem suas mercadorias — e a peste — para as cidades-estado italianas.
As pulgas portadoras de patógenos podem se alimentar tanto do pó dos grãos quanto do sangue de ratos e camundongos nos navios de grãos. “Fazer a paz e reabrir o comércio de grãos é o que causa a propagação”, diz ela.
No geral, as cidades-estado marítimas conseguiram evitar a fome, diz Bauch. “No entanto, elas trouxeram o pior perigo que se pode imaginar para suas cidades.” Os venezianos enviaram parte dos grãos importados para Pádua e Trento, o que pode ter desencadeado surtos de peste nessas cidades. No final de 1348, muitos locais na Itália e ao redor do Mediterrâneo haviam sofrido com a Peste Negra.

O quadro "O Triunfo da Morte", que está no Museo del Prado e foi feito em 1562, reflete a agitação social e o terror desencadeados pela Peste Negra.
As conexões climáticas que possivelmente levaram à Peste Negra
Barker, em um artigo publicado em 2021, já havia relacionado o comércio de grãos à propagação da peste. Mas a conexão com a atividade vulcânica ainda não era conhecida. “Esta é mais uma prova de que historiadores trabalhando em conjunto com paleocientistas levam a bons resultados”, diz Timothy Newfield, historiador especializado em doenças da Universidade de Georgetown, em Washington D.C., Estados Unidos, que não participou do trabalho. Normalmente, os historiadores pesquisam, escrevem e publicam sozinhos, diz ele. O trabalho “eleva o padrão de como estudamos a relação entre as pragas do passado e o clima”.
Esse tipo de estudo, que combina fontes históricas com registros climáticos, pode ajudar os pesquisadores a entender melhor o que leva ao surgimento e à transmissão de doenças, afirma Kyle Harper, historiador da Universidade de Oklahoma, em Norman, que não participou deste estudo.
Embora a mortalidade humana por infecções por Yersinia pestis tenha caído drasticamente, sua relevância científica persiste. No geral, antibióticos, vacinas e acesso à água potável reduziram significativamente a taxa de mortalidade por doenças infecciosas, diz Harper. Portanto, os pesquisadores precisam olhar para o passado em busca de estudos de caso para entender melhor os fatores em jogo, especialmente a relação entre mudanças climáticas e saúde.
A coincidência de eventos necessários para produzir os “surto impressionantes” da peste ocorreu algumas vezes ao longo da história, diz Harper. Portanto, os pesquisadores devem aprender com eles. “A Peste Negra é extremamente improvável”, diz Harper. “Se você estiver calculando as probabilidades, isso nunca deveria acontecer.”