
Especial Dia da Mulher: as mulheres deveriam governar o mundo? O Egito Antigo testou suas rainhas – e funcionou
A rainha Nefertiti é há muito celebrada por sua beleza, mas estudiosos afirmam que ela desempenhou um papel importante na política do Egito Antigo como co-governante do rei Akhenaton — e, possivelmente, limpou a bagunça deixada por ele após sua morte.
Ler as notícias hoje em dia costuma ser uma tarefa deprimente e ansiogênica. As fontes dessas malignidades humanas modernas são geralmente as mesmas: líderes masculinos que querem manter o poder econômico, político e religioso a qualquer custo.
Isso levanta a questão: as mulheres governariam de maneira diferente dos homens? Se a história serve de indicador, a resposta é sim. Aproveitando a semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado no mundo todo em 8 de março (8M), National Geographic foi investigar como o planeta reagiria se as lideranças fossem femininas.
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Aprendendo a lição: as mulheres governavam durante as crises políticas
Os antigos egípcios certamente acreditavam na sabedoria das governantes mulheres. De fato, quando havia uma crise política, eles escolhiam uma mulher repetidas vezes para preencher o vácuo de poder — precisamente porque ela era a opção menos arriscada. Para esses povos, nesse momento da história, colocar mulheres no poder era muitas vezes a melhor proteção para o patriarcado em tempos de incerteza.

A poderosa Cleópatra: esta estátua de basalto preto da rainha do Egito é uma das poucas representações sobreviventes da última faraó da dinastia ptolomaica.
Em comparação com outros estados da época, o reino do Egito era diferente. As fronteiras naturais dos desertos e do mar protegiam-no das constantes invasões, guerras e agressões que a Mesopotâmia, a Síria, a Pérsia, a Grécia ou Roma sofreram. Nessas terras, se uma criança assumisse o trono, isso seria um convite à competição militar para tomá-lo dela.
No Egito, onde os soberanos, por mais jovens que fossem, eram reverenciados como reis-deuses, as mulheres os protegiam. Em vez de ver a criança como um obstáculo ao poder, mães, tias e irmãs defendiam os jovens no centro da roda do poder. Essa tendência estabilizadora foi empregada repetidamente na história do Egito.
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Retratada como uma esfinge, a faraó Hatshepsut usa uma juba de leão, bem como a tradicional barba do rei.
As faraós que governaram no Egito
Merneith foi a primeira rainha regente documentada que conduziu seu filho ao trono e garantiu a estabilidade no Egito. Na 1ª dinastia (ca. 3000-2890 a.C.), quando seu marido, o rei Djet, morreu, a rainha Merneith assumiu o poder em nome de seu filho pequeno, em vez de permitir que um tio servisse como regente e manipulasse o herdeiro.
Na 12ª dinastia (aproximadamente 1985-1773 a.C.), quando a endogamia (ou outros fatores) fez com que não houvesse nenhum príncipe herdeiro para assumir o trono, Neferusobek, esposa do rei falecido, assumiu o poder e governou o Egito até que outra dinastia estivesse pronta para assumir o poder.
Já durante a 18ª dinastia (aproximadamente 1550-1295 a.C.), uma nova pioneira liderou o Egito durante uma era de crescimento e prosperidade. Quando o rei morreu após apenas três anos no trono, uma criança pequena tornou-se faraó; a tia do menino assumiu o cargo, e a era de Hatshepsut começou. Ela liderou o Egito por mais de duas décadas, o mais longo reinado de qualquer rainha, e deixou o reino melhor do que o encontrou.
Mais tarde, na 18ª dinastia, quando o rei Akhenaton impôs o extremismo religioso ao seu povo, ele nomeou sua esposa Nefertiti como co-governante. Ela deve ter sido a opção mais segura para manter o poder, e foi provavelmente ela quem teve que limpar a bagunça deixada por ele após sua morte.
Na 19ª dinastia (1295-1186 a.C.), outra mulher, a rainha Tawosret, foi colocada como regente de um menino (que não era seu filho) e até mesmo autorizada a governar como rei após a morte dele, mas ela não foi páreo para o senhor da guerra que a removeu do poder com impunidade, tomando a coroa para si.
A rainha mais conhecida de todas foi Cleópatra, da dinastia ptolomaica (305-285 a.C.), que eliminou seus irmãos para assumir o trono sem oposição, apenas para dedicar todas as suas energias à criação de uma dinastia para seus muitos filhos.
No final, mesmo essa sedutora dos líderes romanos governou de maneira diferente de seu parceiro da época, influente general e político romano Marco Antônio. Enquanto ele era o agressor (derrotado) na Pártia, ela permaneceu no Egito e tentou criar calma. Durante o tempo em que ele se envolvia de maneira tola na Batalha de Ácio, Cleópatra percebeu o que estava por vir e fugiu com sua frota, de volta ao Egito, onde poderia fazer algo de bom.
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A rainha Binao de Madagascar diante de sua corte em 1913. Mais tarde, ela foi destituída do poder pelos colonizadores franceses.
Um futuro com mais mulheres em cargos de poder
A história mostra que os egípcios sabiam que as mulheres governavam de maneira diferente dos homens. E assim eles as usavam para proteger o patriarcado, para agir como substitutos temporários, até que o próximo homem pudesse ocupar o topo da pirâmide social.
No entanto, não importava quanto poder elas detivessem, mesmo que muitas delas fossem chamadas nada menos que de reis, essas mulheres formidáveis do antigo Egito não foram capazes de transcender a agenda patriarcal e mudar o próprio sistema. Quando seus reinados terminaram, a estrutura de poder masculina egípcia permaneceu intacta.
Os cientistas cognitivos sabem que o cérebro feminino é diferente do masculino. Os investigadores sociais, por sua vez, sabem que os homens são os principais responsáveis por crimes violentos, incluindo estupros e homicídios. No geral, as mulheres são menos propensas a cometer assassinatos em massa, menos inclinadas a iniciar uma guerra, mais propensas a entrar em contato com suas emoções e expressá-las, e mais interessadas em nuances do que em decisões. Talvez essas qualidades fossem o que o antigo Egito buscava em tempos de crise.
Essas rainhas clamam do passado, desafiando-nos a colocar as mulheres no poder político, não como representantes de uma dinastia patriarcal, mas como mulheres que servem às suas próprias agendas diferentes de conexão social e coesão emocional, em vez de imitar a agressividade de seus pais, irmãos e filhos. Se há muito tempo as mulheres realmente governavam o mundo, a história mostra que foram capazes de fazê-lo mesmo sem o feminismo existir, sem a sororidade ser uma realidade e sem sua própria agenda ou poder de longo prazo.
“Quando havia uma crise política, eles escolhiam uma mulher repetidas vezes para preencher o vácuo de poder.”
É hora de olhar para a história, para as mulheres poderosas do antigo Egito que foram a salvação de seu povo repetidas vezes. E se hoje elas pudessem governar com toda a força de suas emoções — e usando essa característica tão demonizada nas mulheres – com seus altos e baixos, sua tristeza e alegria, sua natureza mercurial?
Essa característica poderia ser aproveitada para se conectar com outras pessoas, encontrar um meio-termo, tirar o dedo do gatilho, buscar uma solução mais sutil? É esse elemento de emocionalidade que poderia conduzir a humanidade através das provações e tribulações do século 21. Devemos deixar que a história antiga seja nosso guia e permitir que as mulheres sejam nossa salvação mais uma vez, desta vez com seus próprios interesses em primeiro plano.
Kara Cooney é professora de egiptologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Especializada em história social, estudos de gênero e economia no mundo antigo, ela é autora de “When Women Ruled the World: Six Queens of Egypt” (“Quando As Mulheres Governavam o Mundo: Seis Rainhas do Egito”, 2018) e “The Woman Who Would Be King: Hatshepsut’s Rise to Power in Ancient Egypt” (“A Mulher Que Seria Rainha: A Ascensão de Hatshepsut ao Poder no Egito Antigo”, 2014).
No mundo antigo, as governantes mulheres eram raras, mas há milhares de anos, no Egito desta época, as mulheres reinavam supremas. O livro de Kara Cooney, “When Women Ruled the World: Six Queens of Egypt”, explora a vida de seis notáveis faraós mulheres, de Hatshepsut a Cleópatra — mulheres que governaram com poder real — e lança uma luz penetrante sobre nossas próprias percepções das mulheres no poder hoje.