Carregando uma pedra pelo fundo do mar, no Havaí, uma surfista treina para resistir ao pior ...

Especial Dia da Mulher: o corpo feminino é excepcionalmente flexível – e isso o torna superforte

De células adiposas que se esticam a músculos mais flexíveis, os cientistas estão descobrindo que o corpo das mulheres é tão forte quanto o dos homens – além de possuir muito mais resiliência.

Carregando uma pedra pelo fundo do mar, no Havaí, uma surfista treina para resistir ao pior dos acidentes: uma onda que a arraste e a mantenha submersa. Cenas como essa ajudam a explicar por que a ciência está revolucionando o que pensávamos sobre força física — e por que a velha ideia de que homens são mais fortes que mulheres não se sustenta mais.

Foto de Paul Nicklen, Nat Geo Image Collection
Por Starre Vartan
Publicado 2 de mar. de 2026, 08:09 BRT

Em 2014, a ciência descobriu que o estrogênioum hormônio definidor do funcionamento do organismo feminino, parecia proteger o corpo contra o estresse físico da altitude, reduzindo o fator induzível por hipóxia (HIF), uma proteína que ajuda o corpo a se adaptar à falta de oxigênio, mas causa inflamação e desconforto.

A fisiologista metabólica Deborah Clegg viveu na pele essa experiência. Quando esteve nas encostas do Monte Kilimanjaro, no nordeste da Tanzânia, na África, onde o ar se tornava rarefeito, ela não se deixou abalar pela altitude. Seus passos eram firmes e sua energia, inabalável. Na mesma trilha, o parceiro de escalada de Clegg – Biff Palmer — um renomado nefrologista e alpinista que já havia escalado o Everest e seis dos picos mais altos do mundo — achou a escalada no Kilimanjaro mais desafiadora.

Após essa experiência no pico africano, em 2013, Clegg e Palmer continuaram escalando alturas juntos e perceberam um padrão. Montanha após montanha, Clegg superava Palmer consistentemente — não por bravata ou melhor condicionamento físico, observaram eles, mas por algo mais profundo. 

Outro fator parecia estar em jogo. Suas conversas passaram de competição para curiosidade: por que o corpo dela parecia tão bem adaptado ao ar com baixo teor de oxigênio ao esforço prolongado? De volta ao laboratório, eles se propuseram a responder a essa pergunta.

“As características do corpo feminino uma vez já descartadas como desvantagens — como o armazenamento de gordura, a flutuação hormonal e a sensibilidade — podem ser a base da sobrevivência humana. ”

Estrogênio e flexibilidade desafiam a ideia ultrapassada de que mulheres não são fortes

Mais estrogênio – hormônio dominante no corpo feminino – significa menos HIFtorna a altitude mais fácil de suportar. Essa não é a única vantagem que o estrogênio proporcionou a Clegg — ele também desempenha um papel central no que é conhecido como flexibilidade metabólica — a capacidade do corpo de alternar entre fontes de energia, particularmente da glicose para a gordura.

A descoberta de Clegg e Palmer faz parte de um crescente conjunto de evidências científicas que desafiam as suposições de que o corpo das mulheres não é tão forte quanto o dos homens.

ciência está mostrando cada vez mais que a flexibilidade — a capacidade de se adaptar, mudar e se recuperar ao longo da vida — é um dos principais pontos fortes que tornam o corpo feminino tão resistente. E há três maneiras cruciais pelas quais essa característica torna as mulheres excepcionalmente fortes.

Clegg, agora professora de medicina interna no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Tecnológica do Texas, nos Estados Unidos, estuda como o estrogênio e o metabolismo da gordura moldam a resistência.

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      Uma mulher se alonga ao Sol enquanto picos altos aparecem através das nuvens perto do Acampamento ...

      Uma mulher se alonga ao Sol enquanto picos altos aparecem através das nuvens perto do Acampamento Base do Everest. Estudos sugerem que o estrogênio pode ajudar as mulheres a se exercitarem em ambientes de alta altitude.

      Foto de MARK STONE, Nat Geo Image Collection

      Mulheres são mais resistentes e armazenam gordura nos lugares certos do corpo

      Estudos demonstraram que o corpo masculino tende a depender mais dos carboidratos para explosões curtas de energia, o que lhes dá uma vantagem em termos de força explosiva, mas o corpo feminino tem um desempenho particularmente bom em termos de resistência

      O corpo feminino queima preferencialmente gordura, que fornece uma fonte constante de energiaA gordura, como combustível de queima lenta e consistente, ajudou nossas ancestrais a persistir durante os longos ciclos gestacionais da gravidezda amamentação, enquanto ainda caçavam, colhiam e caminhavam de 13 a 16 km por dia.

      Hoje, apesar de terem mais reservas de gordura, as mulheres lidam com níveis mais baixos de doenças metabólicas — isso é proposital.

      As mulheres armazenam gordura predominantemente nos quadris e nas coxas, que é um local realmente seguro para armazenar gordura, pois fica fora da cavidade abdominalonde os homens a armazenam”, explica ela. A gordura visceral ao redor dos órgãos na região do estômago tem impactos mais negativos na saúde do que a gordura armazenada subcutaneamente, como costuma acontecer nos corpos femininos. As células adiposas também são diferentes

      “Nossa pesquisa mostrou que a célula adiposa feminina é completamente diferente da célula adiposa masculina. A célula adiposa feminina é como uma peça de roupa de elastano, por exemplo. Ou seja, ela pode se esticar, absorvendo todo o excesso de ácidos graxoscalorias e armazenando-os de uma forma realmente saudável”, diz Clegg. Já as células adiposas masculinas não têm essa capacidade, e essa diferença é mais do que estética.

      Quando se inflamamas células adiposas ficam fibrosas e sobrecarregadasaumentando o risco de diabetes e doenças cardiovasculares. Já no caso das células adiposas flexíveis das mulheres, elas podem expandir-se e contrair-se mais facilmente de acordo com as exigências da vida — como a gravidez, a flutuação de peso e os exercícios de resistência. Essa expansibilidade nas células adiposas está “diretamente relacionada” aos hormônios sexuais, afirma Clegg. 

      Quando se trata de manter a energia por longos períodos, “é mais benéfico ser mulher do que homem”, diz Clegg. “A capacidade de alternar entre os dois diferentes substratos energéticos, glicose e ácidos graxos, também oferece benefícios para a sobrevivência e a saúde.”

      A vantagem não se limita ao alpinismo: a flexibilidade metabólica do corpo feminino reduz o risco de câncer, diabetes e síndrome metabólica — até a menopausa, quando essa flexibilidade diminui.

      “A ciência está mostrando que a flexibilidade (a capacidade de se adaptar, mudar e se recuperar ao longo da vida) é um dos principais pontos fortes que tornam o corpo feminino tão resistente.”

      A flexibilidade feminina é metabólica e também física

      Se o metabolismo mostra o lado invisível da adaptabilidade, o movimento mostra o lado visível.

      O corpo humano tem três tipos de flexibilidade física, diz Miho Tanaka, uma médica que trata atletas do time de futebol New England Revolution e do Boston Ballet, e cirurgiã de medicina esportiva no Mass General Brigham, em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos. Existe a flexibilidade funcional — “como os dançarinos, que conseguem fazer espargatas” —, a flexibilidade muscular, que depende da elasticidade de certos músculos, e a flexibilidade articular, ou o que os médicos chamam de laxidade.

      Essa flexibilidade está associada a uma maior eficiência muscular e maior forçaindependentemente do sexo, e é por isso que os atletas a incorporam em seus treinos. “A flexibilidade e a capacidade de usar todo o movimento das articulações são importantes para otimizar a biomecânica das articulações. Isso influencia diretamente a forma como um atleta gera força”, diz Tanaka.

      Por outro lado, “a inflexibilidade geralmente é uma resposta à perda de força nos limites finais do movimento”, diz Sophia Nimphius, vice-reitora de Esportes da Edith Cowan University, na Austrália. Em geral, os corpos femininos têm maior elasticidade muscular e amplitude de movimento nas articulações. Isso provavelmente se deve ao fato de elas terem mais estrogênio, o que aumenta o colágeno nos tecidos conjuntivos — uma vantagem natural que ainda não foi bem pesquisada.

      flexibilidade física também mantém o corpo mais seguro ao exercer força.

      “Estudos mostram que quanto mais flexíveis são os músculos, menor é a probabilidade de sofrer uma lesão ou distensão muscular”, diz Tanaka. Mas esse equilíbrio é delicado. “Se você tem muita laxidade, fica mais propenso a lesões nas articulações. É realmente uma linha tênue entre ter flexibilidade suficiente e ter muita laxidade.”

      Essa linha tênue é uma teoria que explica por que as mulheres têm quatro a oito vezes mais chances do que os homens de sofrer lesões no joelho sem contato. “Assimetrias na flexibilidade e desequilíbrios musculares podem aumentar o risco.” 

      No entanto, outra teoria sugere que as mulheres são mais propensas a sofrer essas lesões porque têm menos treinamento e apoio. “Se a laxidade fosse principalmente um mecanismo baseado no sexo, esperaríamos que as diferenças nas lesões fossem consistentes em todos os esportes, mas não são”, diz Nimphius.

      Pesquisas demonstraram que no esqui alpino, onde o treinamento é individual e começa desde cedonão há diferença entre os sexos nas taxas de lesões.

      É por isso que pesquisas e treinamentos específicos para o corpo feminino são tão importantes. Apenas 6% dos estudos de medicina esportiva se concentram exclusivamente nas mulheres, e é sabido na ciência do esporte que, por muito tempo, as mulheres foram treinadas como homens menores, em vez de com base em suas próprias forças físicas.

      Os futuros regimes de treinamento que se adaptam às necessidades específicas de cada atleta têm o potencial de reduzir as lesões (como alguns estudos já demonstraram). Tanaka aponta para o potencial da IA e do aprendizado de máquina para analisar grandes quantidades de dados, o que permitirá que médicos como ela “prevejam lesões e personalizem os planos de treinamento de acordo com elas”.

      (Mais sobre Saúde: Como forçar uma célula do câncer a se autodestruir? Cientistas investigam uma proteína-chave do corpo)

      Um metabolismo flexível ajuda as mulheres a se adaptar melhor às grandes mudanças da vida

      Além do metabolismo e do movimento, talvez exista a flexibilidade mais surpreendente de todas: a capacidade do corpo feminino de passar por mudanças dramáticas.

      Da primeira menstruação à menopausa, passando pela gravidez, parto e recuperaçãoos sistemas femininos se reconfiguram repetidamente — circulatório, imunológico e musculoesquelético — sem entrar em colapso.

      Essas mudanças fisiológicas podem até ter vantagens. Pesquisas recentes mostraram que a amamentação pode reduzir o risco de câncer de mama devido ao recrutamento de células imunológicas para a mama. Também há evidências de que algumas atletas femininas retornam ao esporte ainda mais fortes após a gravidez o parto, igualando ou superando suas habilidades pré-gravidez. 

      A adaptação, na verdade, é o fio condutor. Em todas as escalas — das mitocôndrias às fibras musculares e ao ciclo hormonal —, o poder desconhecido do corpo feminino reside em sua capacidade de se dobrar sem quebrar.

      Para Clegg, a lição se cristalizou no meio da escalada de uma montanha: ela era mais forte por causa de seu corpo feminino, e não apesar dele. As características do corpo feminino uma vez já descartadas como desvantagens — como o armazenamento de gorduraflutuação hormonala sensibilidade, por exemplo — podem, na verdade, ser a base da sobrevivência humana

       

      Starre Vartan é autora do livro “The Stronger Sex: What Science Tells Us About the Power of the Female Body” (“O Sexo Forte: O que a Ciência Diz Sobre o Poder do Corpo Feminino”), já disponível nas livrarias.

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