O príncipe, o prefeito e o peixe americano que invadiu o Japão

Um presente inocente da cidade de Chicago ao então príncipe Akihito em 1960 causou uma crise ecológica de décadas que os cientistas japoneses agora estão prestes a solucionar.

Por Christian Elliott
Publicado 16 de jan. de 2022 07:00 BRT
crown-prince-akihito

Akihito, o então príncipe herdeiro do Japão, observa peixes tropicais em Nova York, Estados Unidos, em 30 de setembro de 1960. Ao fundo está Christopher Coates, diretor do Aquário de Coney Island. Akihito também foi a Nova York em visita de Estado dele e de sua esposa.

Foto de Associated Press

Quando o então príncipe herdeiro Akihito visitou Chicago, nos Estados Unidos, em 3 de outubro de 1960, seu único pedido foi conhecer o Aquário Shedd. O então prefeito Richard J. Daley, um ávido pescador, presenteou o príncipe com peixes que ele mesmo pescou com uma rede em um dos aquários: 18 percas-sóis-de-guelras-azuis, o peixe oficial do estado de Illinois.

O então futuro imperador de 26 anos já era um ictiólogo dedicado e planejava manter os peixes exóticos no fosso ao redor de seu palácio, segundo matéria do jornal Chicago Tribune publicada na época.

No dia seguinte, com a então princesa Michiko, Akihito se despediu da cidade no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago, cidade dos ventos, levando consigo o presente que mal podia imaginar que causaria uma crise ecológica em sua terra natal que duraria décadas.

Nos mais de 60 anos seguintes, as perca-sóis se transformaram em um pesadelo invasor e destruidor de espécies, proliferando-se em rios e lagos japoneses de água doce e exterminando a biodiversidade de peixes nativos, afirma Kenji Saitoh, pesquisador da Agência de Educação e Recursos Pesqueiros do país.

Felizmente, houve avanços científicos nos últimos anos. Agora, geneticistas japoneses conduzem experimentos com técnicas de edição de genes de Crispr (Conjunto de Repetições Palindrômicas Curtas Regularmente Espaçadas, na sigla em inglês) para esterilizar as percas invasoras. Se der certo, os responsáveis pelo manejo da fauna silvestre poderão utilizar a mesma técnica para livrar os Estados Unidos de invasores aquáticos prejudiciais, como a carpa-comum.

No Japão, a população está dividida e desconfiada das iniciativas genéticas para eliminar as percas, e é fácil entender por quê. A história de 60 anos da perca-sol-de-guelras-azuis no Japão serve como advertência sobre a intervenção humana generalizada.

Início da invasão

Após a visita aos Estados Unidos em 1960, Akihito pediu à Agência Nacional de Pesca do Japão que reproduzisse as 15 percas em cativeiro que sobreviveram à viagem transpacífica, na esperança de soltá-las na natureza como um novo peixe de caça esportiva, apelidado de ‘peixe príncipe’ em sua homenagem. Em 1966, a prole das percas foi solta no lago Ippeki-ko, próximo à cidade de Ito, na província de Shizuoka. Passados três anos, um monumento de pedra foi colocado na praia para celebrar a introdução bem-sucedida do ‘peixe príncipe’. Mais percas foram lançadas em ecossistemas de água doce em todo o Japão.

“Naquela época, não havia problemas sérios com espécies invasoras e a perca não parecia perigosa com base em sua dieta alimentar por não ser um piscívoro feroz”, conta Nakai Katsuki, pesquisador japonês do Museu do Lago Biwa que estuda espécies invasoras de peixes da América do Norte na província de Shiga, no Japão, desde 1989.

Retrato de perca-sol-de-guelras-azuis, da espécie Lepomis macrochirus, tirado em estúdio.

Foto de Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

O governo japonês logo interrompeu a reprodução da perca devido ao seu crescimento lento em cativeiro. Por algum tempo, a perca ficou esquecida, prossegue Katsuki.

Contudo, nesse ínterim, as percas proliferavam despercebidas na natureza, multiplicando-se nos rios, lagos e riachos do Japão e expandindo sua dieta de insetos, plâncton e plantas aquáticas para camarões e ovas de peixes nativos. Em seus habitats norte-americanos, as percas se reproduzem rapidamente e vivem por muito tempo, ao passo que, no Japão, os peixes nativos da costa mantiveram temporariamente a população de percas sob controle ao ingerir seus ovos e formas jovens.

Em 1999, a perca-sol-de-guelras-azuis havia colonizado todos os ecossistemas de água doce do país, suscitando pesquisas financiadas pelo governo sobre a dispersão da perca. Mas já era tarde demais.

Resistência ineficaz

Em 2000, Saitoh, especialista em genética e evolução de peixes, foi aos Estados Unidos para rastrear as origens da perca no Japão. Na época, havia um debate acirrado entre cientistas japoneses questionando se a praga tão abundante tivera de fato uma única origem.

A equipe de pesquisa, liderada por Kouichi Kawamura, biólogo da Universidade de Mie, a sudoeste de Tóquio, comparou o DNA mitocondrial de 13 populações diferentes da perca dos Estados Unidos com 56 populações no Japão. Em uma barragem do rio Mississippi perto de Guttenberg, Iowa, uma pequena cidade contornada por penhascos de calcário, a equipe encontrou uma amostra idêntica: todos os peixes príncipes haviam se originado das 15 percas-sóis-de-guelras-azuis oferecidas a Akihito por Daley décadas antes. A diversidade genética limitada pela consanguinidade não pareceu ser empecilho às percas japonesas.

Até hoje, as percas representam uma séria ameaça a importantes espécies nativas em todo o país. No lago Biwa, o maior e mais antigo corpo de água doce do Japão, as percas dizimaram a população de carpas da espécie Carassius carassius, peixe exclusivo do lago e apreciado como uma iguaria fermentada denominada funazushi. Por isso, o governo da província de Shiga ofereceu uma recompensa de R$ 16 por quilo de perca para incentivar pescadores comerciais a buscar o peixe, e impôs uma multa de R$ 5,5 mil à criação de carpa-sol-de-guelras-azuis e robalo para a pesca esportiva. Diversas equipes de pesquisa desenvolveram novos tipos de armadilhas para capturar as percas e seus ovos. Em 2002, o Ministério do Meio Ambiente do Japão identificou formalmente a perca-sol-de-guelras-azuis como ameaça invasora.

O Governo da Província criou um site que promove receitas com perca, na esperança de incentivar o consumo do peixe. Uma empresa local de processamento de frutos do mar passou a vender sushi e funazushi da perca. A Universidade Fukui, nas proximidades, tentou vender um “hambúrguer ecológico” da perca. Nenhuma dessas iniciativas deu certo, segundo Katsuki.

“Originalmente aceita e celebrada como um peixe saboroso”, conta Katsuki, em 2002 a perca se transformou em “um peixe infame devido a sua invasão. Nesse processo, o sabor da perca ficou praticamente esquecido no Japão”.

Em junho de 2005, a Lei de Espécies Exóticas Invasoras do Japão proibiu a importação, posse e transporte de 97 espécies, incluindo a perca. Dois anos depois, o imperador Akihito emitiu um pedido formal de desculpas por ter introduzido o peixe no país, no que foi chamado pelo jornal Japan Times de “uma rara manifestação de arrependimento”. “Meu coração dói ao ver as consequências”, declarou Akihito.

Pescadores no lago Biwa (Biwako), em Shiga, no Japão.

Foto de Trevor Mogg, Alamy Stock Photo

Em 2007, a população de peixes príncipes atingiu cerca de 25 milhões. Somado ao robalo, trazido dos Estados Unidos para a pesca esportiva na década de 1970, os invasores representavam 90% de toda a fauna do Lago Biwa, que já abrigou 30 espécies de peixes nativos. Em 2005, o governo da província de Shiga gastou R$ 6,64 mi para remover 420 toneladas de peixes invasores do lago. Graças à pesca comercial contínua patrocinada pelo governo, a população caiu pela metade desde então, mas a perca-sol-de-guelras-azuis e o robalo permanecem no lago, pois as redes de espera tradicionais não conseguem capturar peixes jovens pequenos. Nos últimos três anos, as iniciativas de erradicação custaram ao governo da província R$ 1,5 mi por ano. Se a pesca cessasse, a população de percas voltaria a aumentar.

“O número de habitats parece ter diminuído um pouco, e o tamanho da população em grandes corpos d’água como o Lago Biwa diminuiu desde 2005, mas a distribuição não parece ter reduzido”, observa Kawamura. “Não tenho esperanças.”

Uma solução que pode não se concretizar

Finalmente, a tecnologia pôde oferecer uma solução. Pesquisas em andamento lideradas por Hiroyuki Okamoto, geneticista de peixes, concentram-se na “supressão induzida por genes em populações invasoras” por meio da ferramenta de edição de genes Crispr-Cas9. A equipe de Okamoto sequenciou o genoma da perca e recentemente produziu peixes machos de primeira geração que poderiam transportar um gene estéril específico da fêmea à população de percas na natureza, eliminando sua capacidade de produzir ovos. O programa está em seu sexto ano em laboratório.

Embora a esterilização genética pareça funcionar, Okamoto estima que precisaria soltar uma quantidade de peixes alterados equivalente a 7% da população invasora para erradicar completamente a perca das vias aquáticas do Japão. Ainda assim, ele acredita que a supressão genética pode ter êxito.

A tarefa pode parecer árdua, mas “não há maneira mais eficiente de eliminar espécies invasoras”, ressalta Okamoto. “A pesca comercial por contratos leva tempo, precisa de orçamento, que, no Japão, é muito reduzido e cada vez mais limitado, pois já fazemos isso há 20 anos. Agora que a tecnologia Crispr está disponível, talvez seja possível resolver esse problema.”

Ainda assim, ele não tem certeza se as autoridades aprovarão a soltura de sua perca portadora de genes estéreis em ecossistemas naturais. Devido a suas pesquisas, Okamoto revela que enfrenta críticas e ameaças online de pessoas que alegam que organismos alterados com Crispr não devem estar na natureza.

“Embora estejamos cientes dos métodos genéticos desenvolvidos para interromper a reprodução da perca, permanecemos cautelosos com os possíveis impactos nos ecossistemas nativos e suas relações nas leis e regulamentações”, escreveu por e-mail Masaki Ohara, chefe de seção da Divisão de Estratégia Internacional do Ministério do Meio Ambiente do Japão.

Há outro grande obstáculo: o limitado apoio da população no Japão ao manejo da perca em geral.

Okamoto comparou o orçamento de R$ 250 mi do Comitê de Coordenação Regional de Carpas Invasoras dos Estados Unidos para 2021 com o orçamento japonês de R$ 88 mi para todos os assuntos de pesca em águas interiores. “Diante dessa discrepância”, comenta ele, “acredito que a população dos Estados Unidos tem uma preocupação muito maior com peixes invasores”.

Saito concorda. “As pessoas comuns não prestam muita atenção ao que ocorre na água porque lhes é invisível.”

Sem solução simples

Do outro lado do mundo, no estado de Illinois, onde fica Chicago, local de origem das percas do Japão, Kevin Irons enfrenta uma espécie invasora própria: a carpa-comum. Como gerente do programa de espécies aquáticas prejudiciais do Departamento de Recursos Naturais de Illinois, ele supervisiona as iniciativas de captura em massa para remover 750 toneladas de carpas ao longo dos cerca de 530 quilômetros de extensão da bacia do rio Illinois a cada ano.

Na última década, cientistas do Japão e dos Estados Unidos vêm trocando ocasionalmente orientações e métodos para controlar seus respectivos invasores. As equipes de Irons coletam amostras de água para testar o DNA de células descamadas de carpas, uma técnica pioneira criada por geneticistas japoneses para rastrear a perca-sol-de-guelras-azuis. Em 2012, Nakai Katsuki, pesquisador de peixes do Museu do Lago Biwa, viajou a St. Paul, Minnesota, nos Estados Unidos, para apresentar avanços na pesca elétrica e no desenvolvimento de ninhos artificiais para uma conferência de gestores de carpas. Ele se lembra de ter comido carpa-prateada frita.

Apesar do avanço tecnológico, não parece haver “uma solução simples no momento para erradicar a carpa”, admite Irons.

Mas a técnica em desenvolvimento no Japão pela equipe de Okamoto – biocontrole genético, ou genética dirigida – é alvo de muita esperança para alguns pesquisadores da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

“As repercussões podem ser notáveis: pela primeira vez, pode haver de fato uma ferramenta com o poder de eliminar permanentemente uma espécie visada do planeta”, escreveram três cientistas na revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences em 2015, pouco antes do início das pesquisas de Okamoto na prática.

“A questão não é mais se é possível controlar espécies invasoras por meio da genética dirigida”, escreveram, “mas se esse método deveria ser empregado”.

Mas, segundo os pesquisadores, há dilemas e riscos com a técnica, como mutações não pretendidas e acidentais presentes nessa população por gerações, ou a perda global de uma espécie se os indivíduos modificados de alguma forma escaparem e retornarem ao seu habitat nativo. Também é possível que outro invasor preencha em pouco tempo o espaço deixado vazio.

Como demonstrado por décadas, se um príncipe japonês leva para casa um aquário de percas como lembrança ou um produtor dos Estados Unidos importa carpas-comuns do leste da China, ou em qualquer intervenção ambiental humana, boas intenções nem sempre bastam.

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