Museu Nacional: mais de 2 mil itens já foram localizados, mas estado de preservação é incerto

Diretoria e pesquisadores do Museu Nacional do Rio de Janeiro apresentaram à imprensa os resultados dos primeiros meses de resgate. Apesar de otimismo, futuro de peças danificadas ainda é incerto.quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Por Paulo Verri Filho
Com uma peneira, funcionário do Museu Nacional tenta separar itens do acervo de escombros do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Os integrantes da equipe de resgate do acervo no Museu Nacional demonstraram otimismo ao falar dos resultados dos seus trabalhos durante a entrada da imprensa no interior do museu na manhã de 12 de fevereiro. O motivo: eles têm encontrado mais itens do que achavam que poderiam há alguns meses. Assim, eles orgulhosamente exibiram preciosos fragmentos de ossos, pedaços de cerâmicas, rochas em bancadas e ainda anunciaram possuir duas mil fichas preenchidas com descrições de objetos encontrados em meio aos escombros. Entretanto, só prometeram um inventário detalhando dos itens no fim dos trabalhos, talvez em 2020. No fim de outubro de 2018, o museu anunciou o resgate de fragmentos do crânio de Luzia e do meteorito Angra dos Reis. 

A paleontóloga Luciana Carvalho lembrou que essa percepção não existia no início das obras, pois os desabamentos ocorridos durante o incêndio encobriam as coleções e não se conseguia imaginar o que seria encontrado. Naquele momento, explica, a sensação era de tristeza, pois parecia que eles tinham perdido todo o acervo. Agora, completa, eles estão numa outra fase, a de alegria, em que diariamente são encontradas novidades. 

Mas isso significa que todos esses itens resgatados farão parte de acervos expositivos novamente? Infelizmente não é bem assim. Apenas uma parte (ainda indeterminada) será selecionada para enfrentar os processos de restauração que costumam levar anos. O trabalho para reconstruir o Museu Nacional, após cinco meses do incêndio, apenas começou.

Arqueologia da tragédia revela sobreviventes improváveis

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As diferentes condições impostas por um incêndio num museu de história natural nem sempre causa perdas em todo o acervo mais frágil e, às vezes, surpresas acontecem. Segundo o paleontólogo Sérgio Alex Kugland Azevedo, integrante da equipe de resgate, durante os trabalhos da equipe não são encontrados só os objetos mais resistentes ao fogo como, por exemplo, os de compostos cerâmicos ou rochosos. "Na semana passada achamos tubos plásticos com álcool etiquetados e com exemplares de frágeis crustáceos. E numa das áreas mais atingidas pelo incêndio", conta Sérgio. Apesar dessa feliz descoberta, o acervo entomológico do Museu Nacional foi o mais prejudicado.

Calor deforma rochas da coleção de mineralogia

Rochas que pertenciam ao acervo de mineralogia sobreviveram ao incêndio, mas tiveram suas propriedades profundamente alteradas.

O primeiro contato com acervo resgatado de minerais que fariam parte de uma exposição permanente de mineralogia no Museu Nacional revelou que, junto com o que se perde, há também rochas que se modificaram, expandiram e tornaram-se interessantes objetos de estudo. "Isto aqui é um mineral, um vermiculita, que não tinha exatamente esta forma. Parece um sanfona toda aberta que se expandiu devido a temperatura  e ficou com este formato. São amostras alteradas passíveis ainda de serem estudadas", explica o geólogo Fabiano Richard Leite Faulstich, curador da coleção de mineralogia.

Depois de encontrados, itens passam por limpeza

As peças recuperadas em meio aos escombros passam pelo laboratório de higienização, onde são avaliadas e limpas.

Itens do acervo resgatados dos escombros do Museu Nacional são submetidos a um trabalho chamado de limpeza investigativa. Nessa fase, são identificados alguns indicadores de alteração do objeto que enfrentou o incêndio, como presença de fuligem, partes mais fragilizadas por quedas, perdas de revestimento e pintura, por exemplo. Essa higienização é realizada em fragmentos de diversos tamanhos e levam de um dia a uma semana para serem realizados. No futuro, muitos desses itens poderão serem restaurados.

Trabalho de resgate é minucioso

Para a paleontólogo do Museu Nacional Luciana Carvalho, a fase agora é de alegria. Diferente dos dias posteriores ao incêndio do museu, quando se pensava que nada seria recuperado, hoje a equipe de resgate encontra novidades diariamente.

Progressivamente no interior do Museu Nacional surgem objetos fragmentados e escondidos sob os escombros. Para resgatá-los, diversas ações precisam ser realizadas com cuidado para que vigas metálicas retorcidas e paredes inteiras de tijolos sejam retiradas sem prejudicar possíveis itens do acervo misturados ao entulho. São trabalhos que ainda demandarão muito meses para serem finalizados.

Diretoria do museu mostra otimismo

O diretor do Museu Nacional, Alexandre Kellner, falou com otimismo sobre a situação das obras de recuperação do palácio. Aparentemente, os itens do acervo que poderão ser recuperados são bem mais do que se pensava.

O paleontólogo Alex Kellner, diretor do Museu Nacional, declara que a equipe de resgate precisa ser valorizada. Segundo ele, alguns servidores estão trabalhando como voluntários."Eles poderiam estar fazendo outras coisas, mas sabem da responsabilidade que nós temos na recuperação do Museu Nacional", afirma Kellner.

 

Funcionários do Museu Nacional catalogam itens do acervo recuperados no meio dos escombros do Museu Nacional.

A arqueóloga Claudia Carvalho, coordenadora da equipe de resgate, explica que o acervo localizado não é imediatamente retirado do escombros. Segundo ela, essa intervenção é executada apenas após uma estratégia de abordagem ser definida, visando causar o menor dano possível ao objeto já fragilizado pelo incêndio e aumentar a segurança do local de trabalho. Muitos itens ao serem tocados desfazem e existe risco de desabamento. 

Ao ser recolhido, continua Claudia, esse acervo vai para uma área de triagem onde recebe um número de registro, é fotografado e tem suas condições descritas num inventário prévio. Em seguida, a situação identificada do objeto determinará se ele será ou não enviado a um laboratório para ser limpo e estabilizado (receber tratamento para prolongar a vida útil). Se o objeto puder chegar a esse laboratório, será guardado até os pesquisadores conseguirem coletar mais dados para um outro inventário, mais detalhado. Só depois disso o destino final do acervo resgatado será definido.

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