Um mestre da fotografia na missão de nos ajudar a ver os oceanos

Sem a fotografia, o mundo embaixo da linha d'água seria um grande mistério. Ainda bem que temos David Doubilet.quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Por Becky Harlan
Fotos de David Doubilet
Um redemoinho de barracudas em torno de Dinah Halstead, na Baía de Milne, Papua-Nova Guiné. Os cardumes de barracudas muitas vezes formam círculos no mar como um mecanismo de defesa. Dinah estendeu a mão enquanto nadavam ao redor dela, criando um gesto que torna a imagem mais forte.

O pioneiro fotógrafo subaquático David Doubilet – cuja primeira foto foi publicada na National Geographic em um longínquo 1972 – dedica sua vida a capturar a ação, o drama e a poesia do nossos oceanos. As imagens que ele traz do fundo mar permite que a maioria de nós, meros mortais, testemunhe cenas que nunca seriam vistas de outra maneira.

Perguntei a Doubilet, o que o fez começar e o que o mantém nadando, olhando e compartilhando histórias sobre os nossos mares em constante mudança. Uma versão editada da entrevista está publicada abaixo, junto com algumas das imagens mais memoráveis de sua carreira.

O que primeiro o atraiu para a fotografia subaquática?

Quando tinha uns dez anos, estava obcecado por uma foto na revista National Geographic que mostrava Luis Marden em pé com o capitão Jacques Cousteau no convés do barco Calypso. Cousteau era uma lenda, uma estrela internacional. Luis Marden era fotógrafo subaquático da National Geographic e meu herói –queria ser como Luis Marden e trazer de volta imagens de um mundo secreto.

Qual foi a primeira fotografia que você tirou debaixo de água?

Jacques Cousteau dá instruções a Luis Marden antes de um mergulho em Aqualung.

Minhas primeiras fotos foram patéticas, falhas escuras com pedaços de peixe e pés humanos. Mais tarde, aprendi a usar uma Leica anterior a Segunda Guerra Mundial com uma caixa-estanque de alumínio e em todo tempo acordado que tive passei fotografando embaixo d’água em Nova Jersey ou nas Bahamas. Acho que minhas primeiras fotos bem-sucedidas foram de mergulhadores que descomprimiam na Baía Small Hope, quando eu tinha 13 anos. Ganhei uma medalha de bronze muito legal, que ainda guardo por razões sentimentais.

Como era o campo de trabalho naquela época?

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Meus colegas e eu nos apoiávamos no excelente trabalho de Hans Hass e Jacque Cousteau. Havia muitos de nós fazendo imagens subaquáticas com equipamentos primitivos. O campo estava muito aberto porque na verdade ele nem existia. Conversávamos sobre equipamentos e como melhorá-los. Era, e ainda é, um desafio fazer grandes imagens em um mundo onde você pode ver por 30 metros em um bom dia. Estávamos trabalhando em um oceano repleto do bizarro e do maravilhoso, limitado pela luz, pelo tempo e pela tecnologia. Era frustrante porque poderíamos "ver" fotos que não podíamos fazer.

Em sua carreira até agora, qual foi o momento mais memorável que você experimentou no mar?

Fotografava na Ilha Heron, na Grande Barreira de Corais quando passei por um peixe-papagaio dormindo que parecia sorrir com dentes incrivelmente brancos. Eles usam os dentes para morder e moer pedaços grandes de coral, que produzem uma fina areia branca. Lembrei do meu dentistas quando fotografava esse sorriso.

Tive muitos momentos mágicos e surreais no mar. Mergulhar com leões marinhos, passar embaixo de icebergs – mas uma conexão permanece com alegria e preocupação. Saímos de um barco perto de Kimbe Bay, na Papua-nova Guiné, para sermos recebidos por uma pequena tartaruga-de-pente. Ela nadou comigo durante todo o mergulho, olhando por cima do meu ombro, descansando em corais, beliscando esponjas e me observando fotografava outras coisas. Voltei ao barco para trocar de tanque várias vezes, e ela esperava debaixo do barco. No último mergulho do dia, ela deve ter ficado cansada, porque se agarrou no meu tanque e descansou enquanto eu nadava por nós dois. Ao deixar o recife, eu estava encantado pela experiência, mas ansioso por pensar que ela poderia se aproximar de um barco de pesca e ser levada para um mercado local, virada para torrar no sol quente à espera de um comprador.

Existe uma contrapartida para isso? Um pior momento?

Uma tartaruga-de-pente nada em um mar de barracudas e peixes-morcego na Baía Kimbe, Papua-Nova Guiné. A tartaruga nos encontrou quando entramos na água e nadou conosco durante toda o mergulho, descansando nos nossos tanques depois de cansar de nadar.

Eu estava em Futo, Japão, em missão para fotografar a Península de Izu. Uma manhã saí para pegar nosso barco e o porto foi fechado. Eu perguntei por que e eles disseram, "Os golfinhos estão aqui." Eu pensei que iria caminhar para baixo e ver um monte de golfinhos na enseada, mas eu encontrei um mar vermelho de sangue cheio de vida, golfinhos mortos e morrendo. Peguei minhas câmeras e comecei a fotografar nas docas de concreto. Os golfinhos tinham sido conduzidos para a enseada e arrastados junto com as redes. O pescador pegava um golfinho pelo seu rostro, cortava sua artéria carótida e deixava-o nadar sangrando até a morte. Os gritos e choros dos golfinhos subiram através do concreto, através das solas dos meus pés e alcançaram minha alma.

Essas são experiências intensas em extremos opostos do espectro. Que outros tipos de histórias despertam seu interesse?

Um golfinho se rende à morte em um mar de sangue durante a caça anual aos golfinhos em Futo, Japão. Eu estava em em Futo para outra reportagem quando um pescador reuniu um grupo de golfinhos em uma pequena enseada. Eles queriam que eu saísse, mas fiquei e fotografei enquanto o pescador pegava cada golfinho pelo rostro, cortava a artéria carótida e o deixava sangrar até a morte. Os gritos dos golfinhos vibraram através do cais de concreto e subiram pelos meus pés. Foi um dos piores momentos no mar em minha carreira.

Quando comecei a fotografar debaixo d'água, tudo era mistério – o mar era uma fronteira desconhecida. Esqueça o medo dos tubarões; as pessoas tinham medo de agarrar seu pé em moluscos gigantes e de se afogar. Comecei minha carreira fotografando recifes de coral e suas camadas complexas de vida. Fiquei interessado em ecossistemas temperados da Tasmânia, Nova Zelândia, Japão, Califórnia e Colúmbia Britânica. Uma história sobre corais do Pacífico levaria à descoberta de um avião ou naufrágio de uma história da Segunda Guerra Mundial. Decidi captar histórias que eram temas menos populares, mas precisavam ser contadas, como a extinção de enguias de água doce, os meros e o Mar dos Sargazos.

Agora estou interessado em documentar uma mudança do mar, e para isso estou nadando das linha do Equador para os polos. Os icebergs me hipnotizam porque são uma metáfora perfeita para o mar: uma pequena fração visível a olho nu. O jardim dos icebergs da Groenlândia, na Ilha Vermelha do Fiorde de Scoresbysund, é um lugar onde as belas esculturas de iceberg revelam uma verdade muito feia sobre o recuo das geleiras. Estou interessado em colocar um rosto nas mudanças climáticas que ninguém pode ignorar. Encontramos essa cara em uma missão para a National Geographic no Golfo de São Lourenço. É o rosto do filhote de foca-da-groenlândia nascido no gelo marinho. Temperaturas elevadas têm deixado o gelo instável e elevam a taxa de mortalidade dos filhotes a quase 100%.

Você está fazendo muito mais do que apenas obter a melhor foto de qualquer coisa velha. Suas imagens são criadas para contar histórias importantes. Como as histórias impulsionaram sua fotografia?

Um filhote de foca-da-groenlândia espera pacientemente pelo retorno da mãe no Golfo de São Lourenço, Canadá. Os filhotes nascem no gelo no final de fevereiro e são amamentados por 12 a 15 dias até que a mãe os abandona para se acasalar e migrar. O filhote, engordado com leite enriquecido, espera pela mãe até que a fome ou o gelo fraco o force a ir ao mar para aprender a nadar e comer. A mortalidade natural já é alta em condições normais, mas temos visto a perda de mais de 90% dos filhotes quando tempestades enfraquecem o gelo em temperaturas mais quentes do que o normal.

Eu abordo uma história na esperança de desenvolver uma maneira diferente de olhar para um assunto. Por exemplo, os nudibrânquios são pequenas e delicadas lesmas-do-mar tóxicas que desenvolveram padrões selvagens e cores brilhantes que anunciam, "me coma e você vai morrer”. Eles se misturam no fundo no mar, mas eu queria compartilhar essas criaturas com o mundo de modo que pudessem encontrá-los face a face e realmente "vê-los". Eu construí um estúdio de vidro em miniatura montado em um tripé que levávamos até os nudibrânquios a 10, 20, 30 metros de profundidade – onde quer que eles estivessem. Um especialista em nudibrânquios movia cuidadosamente os nudibrânquios para o estúdio, onde eu os fotografava como se fossem modelos de moda, depois devolvia os bichos para o lugar onde estavam. Ironicamente, as imagens se tornaram virais e alguém lançou um site chamado "turbine meu nudibrânquio".

O que te leva a passar a vida inteira nadando pelo mundo da linha do Equador até os polos para capturar imagens?

Um nudibrânquio Chromodoris parece sorrir para a câmera no mini estúdio subaquático que criei para fotografar essas tóxicas lesmas-do-mar. As cores brilhantes advertem os predadores: "me coma e você morre". O pequeno estúdio foi montado em um tripé e levado para onde os nudibrânquios viviam.

Eu continuo nadando e tirando fotos porque as imagens têm o poder de educar, comemorar e honrar. Os retratos são uma língua universal que podem ganhar corações, mudar mentes e comportamentos. Os oceanos têm problemas sérios. E se os oceanos se forem, nós vamos juntos.

Como podemos ajudar?

Todo dia é o dia do oceano. Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. Comer frutos do mar sustentáveis. Recicla e reduzir o uso de plástico no mundo. Tornar-se um cidadão cientista. E visitar o oceano – marque um encontro com o mar.

Siga David Doubilet no Instagram e no Twitter.

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