Donald Trump, o vilão do clima

O presidente americano tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. O que o mundo perde ou ganha com isso, afinal?

Trump joga para a "torcida", ou seja, os seus eleitores. E recebe críticas do resto do mundo.
Trump joga para a "torcida", ou seja, os seus eleitores. E recebe críticas do resto do mundo.
Foto de Bruno Algarve

Logo depois que o presidente Donald Trump confirmou a sua decisão de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris começaram as especulações. Quais os reais motivos? O anúncio, feito no primeiro dia de junho, com certa pompa, no Jardim das Rosas da Casa Branca, não foi exatamente uma surpresa. Trump deixou claro a intenção de abandonar o acordo histórico das Nações Unidas contra o aquecimento global (celebrado por 195 países, em dezembro de 2015), ainda durante a campanha à Presidência. Chegou a alegar, em um tuíte, que as mudanças climáticas eram uma farsa inventada pela China para prejudicar a indústria americana. É uma acusação absurda, mas está registrada para a posterioridade – e, até onde sei, não foi renegada.

Uma vez eleito, no entanto, Trump deu sinais de que poderia mudar de ideia em relação a Paris. Circularam notícias de que havia uma discussão entre os principais assessores da Casa Branca, contra e a favor da saída do acordo. De um lado, estariam a filha do presidente, Ivanka, e o seu marido, Jared Kushner, assim como o secretário de Estado Rex Tillerson, responsável pela política externa dos Estados Unidos. Esse grupo defendia a permanência do país no tratado assinado por Barack Obama. Contra eles, ou seja, a favor da saída, estariam o influente assessor Steve Bannon e Scott Pruitt, diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), órgão que é uma espécie de ministério do meio ambiente americano.

Um sinal claro da confusão da nova política ambiental é o fato de que Tillerson, ex-CEO da ExxonMobil – maior empresa petrolífera do mundo e uma das grandes emissoras de gases de efeito estufa –, defende o acordo climático; ao mesmo tempo, o diretor da EPA, encarregado de proteger o ambiente, advoga pela saída dos Estados Unidos do acordo. É um mundo de cabeça para baixo.

Muitas pessoas questionam os motivos da saída, já que a permanência pouco exigiria em termos de medidas específicas – diferentemente do que afirmou Trump. Os custos da participação dos Estados Unidos no acordo são pequenos diante da contribuição histórica e contínua do país para o acúmulo de gases que aquecem o planeta. Afinal, até mesmo Estados petrolíferos, como Arábia Saudita, Rússia e Venezuela, continuam dentro do acordo. Dezenas de milhares de cientistas e diplomatas dedicaram anos, décadas das suas vidas para formular uma proposta, trabalhando, inclusive, para torná-la aceitável para os Estados Unidos. Como se explica uma atitude tão agressiva para com as Nações Unidas e a comunidade mundial?

“Donald Trump foi obrigado a ouvir até da Coreia do Norte que a decisão de sair do Acordo de Paris é 'míope e frívola'.”

A resposta curta, creio, é que Trump jogou para a torcida, ou seja, para a sua base de apoio na população. O atual presidente apresenta os Estados Unidos como um país vítima de ameaças externas que vão de imigrantes ilegais e terroristas islâmicos a elites globalizantes e tratados internacionais desfavoráveis, como o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) . Trump repete aos seus eleitores que os bons empregos industriais foram exportados para outros países, onde a mão de obra é mais barata. E, por isso, diz que vai renegociar os tratados internacionais prejudiciais aos Estados Unidos.

Trump não consegue realizar todas as suas promessas de campanha. Enfrenta obstáculos no Judiciário e até mesmo no Congresso, apesar deste último ser controlado pelo seu Partido Republicano no momento. Mas não perde a chance de criar fatos marqueteiros que avancem a sua agenda nacionalista e politicamente incorreta. Se acontece um atentado terrorista inspirado pelo Estado Islâmico em Londres, por exemplo, sai atacando o prefeito mulçumano Sadiq Khan, no Twitter. E não perde nenhuma chance de desmontar a herança ambiental de Barack Obama. É esse o show do Trump.

A retirada dos Estados Unidos do pacto climático deve ser entendida nesse contexto. Trump sempre foi a favor dos combustíveis fósseis, grandes emissores de gases estufa, mas não é esse o único motivo que o levou a deixar o Acordo de Paris. Pois, hoje, mesmo as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos se dizem favoráveis (após décadas de lobby para desacreditar a ciência climática, diga-se). Segundo a revista de negócios Forbes, Darren Woods, o atual CEO da ExxonMobil, enviou uma carta pessoal ao presidente pedindo para manter a posição do país. BP, Chevron, Conoco- Phillips e Shell também manifestaram apoio ao tratado da ONU. Até mesmo uma importante empresa mineradora de carvão, a Cloud Peak Energy, tomou o mesmo partido. Em carta a Trump, seu CEO argumentou que seria mais fácil negociar apoio às tecnologias de redução de emissões de queima de carvão sendo signatário do Acordo de Paris.

O fato é que a notícia da saída dos Estados Unidos foi destaque em jornais, sites, revistas e canais de TV do mundo todo. Tamanha repercussão é um tanto irônica, ao menos para quem, como eu, acompanha há anos a discussão das mudanças climáticas. O polêmico presidente conseguiu o que milhares de pesquisadores e ambientalistas sonhavam: trazer o desafio de controlar o aquecimento global ao seu devido lugar de destaque na mídia mundial.

Trump se posicionou como o grande vilão do clima. E constrangeu e irritou aliados tradicionais dos Estados Unidos na Europa, entre outros. Recebeu a demissão de dois dos seus conselheiros mais influentes, Elon Musk, CEO da Tesla, fabricante de automóveis elétricos, baterias e painéis solares, e Robert Iger, CEO da Disney. E foi obrigado a ouvir até da Coreia do Norte que a decisão de sair do Acordo de Paris é “míope e frívola”.

E mais: poucos dias depois do anúncio, o governador da Califórnia, Jerry Brown, havia articulado novos tratados entre o seu estado e os governos da China e da Alemanha. Alianças regionais com nomes sugestivos, como We’re Still In e Under2colation, se formaram ou se fortaleceram, juntando cidades, estados, empresas e outras organizações em grupos de apoio ao Acordo de Paris.

São sinais de como responder à pergunta que Donald Trump, o vilão do clima, agora nos coloca: o que fazer para reverter tanta atenção e energia a favor das evidências científicas? Há uma bola quicando na área. Quem vai se apresentar para fazer esse gol?

Matthew Shirts é jornalista e foi editor da National Geographic e do portal Planeta Sustentável.
Matthew Shirts é jornalista e foi editor da National Geographic e do portal Planeta Sustentável.
Foto de Emiliano Capozoni
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