Comportamentos como procrastinação podem parecer falta de autocontrole, mas pesquisas sugerem que eles geralmente estão ligados ...

O que acontece no cérebro quando procrastinamos? Saiba como evitar a autossabotagem

Pesquisas mostram que o adiamento de tarefas importantes é motivado pela forma como o cérebro processa o estresse e a ameaça — e não por má gestão do tempo ou falta de disciplina.

Comportamentos como procrastinação podem parecer falta de autocontrole, mas pesquisas sugerem que eles geralmente estão ligados à forma como o cérebro processa o estresse e a percepção de ameaça.

Foto de solidcolours, Getty Images
Por Erica Sweeney
Publicado 23 de fev. de 2026, 16:15 BRT

prazo de entrega da tarefa está no seu calendário há semanas. Mas, na noite anterior, o trabalho ainda não está concluído. Talvez você tenha subestimado o tempo necessário, pensado demais em como fazer tudo certo ou se preocupado com a recepção do público.

Se esse cenário lhe parece familiar, você pode estar vivenciando uma forma de autossabotagem, um padrão “que impomos a nós mesmos, muitas vezes inconscientemente, e que acaba sabotando nossas vidas, nossos planos ou até nossos objetivos”, afirma Charlie Heriot-Maitland, psicóloga clínica e autora do livro “Controlled Explosions in Mental Health” (em tradução livre em português: “Explosões Controladas na Saúde Mental”), ainda inédito.

Em vez de uma falta de motivação ou disciplina, a autossabotagem pode ter origem na forma como o cérebro reage a ameaças percebidas. Heriot-Maitland argumenta que ela pode “derivar de mecanismos evolutivos de sobrevivência”. Traumasmedospadrões aprendidos podem reforçar ainda mais essa resposta.

O resultado é um ciclo silencioso: comportamentos que parecem protetores no momento — adiamento, evitação, autocrítica — podem impedir que as pessoas alcancem os objetivos que mais lhes importam, muitas vezes sem que elas se deem conta. “Muitos desses ciclos de medo simplesmente os mantêm estagnados ou até mesmo os fazem regredir”, acrescenta Heriot-Maitland.

Entender por que a autossabotagem acontece, dizem os pesquisadores, é o primeiro passo para interrompê-la. Veja aqui está o que os cientistas sabem sobre por que o cérebro faz isso — e o que pode ajudar a mudar esse padrão.


autossabotagem refere-se a pensamentos e sentimentos que minam seus objetivos de longo prazo, afirma Tim Pychyl, psicólogo que estuda a procrastinação e autor do livro "Solving the Procrastination Puzzle" (em tradução livre: “Desvendando o Enigma da Procrastinação”). 

maioria das pessoas experimenta alguma forma de autossabotagem em algum momento, dizem os pesquisadores, embora para algumas ela permaneça ocasional, enquanto para outras se torna persistente e prejudicial.

Ela pode assumir muitas formas diferentes, incluindo procrastinação, compulsão alimentargastos excessivosobsessão por jogos de azar ou vícios diversos, afirma Pychyl. Além de comportamentos nocivos como perfeccionismopessimismoautocrítica ou automutilação são outras maneiras de autossabotagem, acrescenta Heriot-Maitland.

Quem se autossabota é frequentemente percebido erroneamente como preguiçoso ou indisciplinado, diz Pychyl, mas há uma diferença. Na procrastinaçãopor exemplo, você quer e está disposto a concluir uma tarefa, mas fatores emocionais ou psicológicos atrapalham. Já quando é um caso de preguiça, há uma "falta de vontade de se esforçar", afirma ele.

O estresse é um dos fatores que pode ativar o mecanismo de autossabotagem e, aprender a ...

O estresse é um dos fatores que pode ativar o mecanismo de autossabotagem e, aprender a lidar melhor com as emoções pode contribuir com a saúde mental.

Foto de Domínio público

Por que nos autossabotamos?


autossabotagem provavelmente tem múltiplas causas, e mais pesquisas são necessárias para compreendê-la completamente, afirma Philip Jean-Richard-dit-Bressel, professor sênior de psicologia da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália, que estuda a psicobiologia da tomada de decisões e do comportamento.

Um mecanismo fundamental é a resposta de luta ou fuga, ou resposta ao estresse, explica Pychyl. Essa resposta automática de sobrevivência é ativada na amígdala, a parte do cérebro que regula as emoções e as memórias

De uma perspectiva evolutiva, a resposta foi projetada para proteger o indivíduo de ameaças que representavam risco de vida ou morte para os primeiros humanos.

Ameaças modernas, como prazos ou críticas, ainda podem ativar essa resposta, mesmo que não sejam fisicamente perigosas, acrescenta Pychyl.

Quando isso acontece, as pessoas podem recorrer a comportamentos que reduzem o desconforto ou proporcionam uma sensação de segurança momentânea, como ignorar prazos, tomar decisões precipitadas ou ser autocríticas, mesmo quando essas escolhas frequentemente acarretam consequências, afirma Heriot-Maitland. Dessa forma, a autossabotagem se torna um mecanismo de autoproteção.

Por exemplo, se você não terminar sua apresentação, pode estar se protegendo de medos subjacentes de fracasso ou julgamento: "Vou causar esse pequeno prejuízo agora para evitar um prejuízo maior", diz Heriot-Maitland.

Esse alívio pode parecer gratificante a curto prazo, acrescenta Pychyl, "mas acaba se voltando contra nós".

Algumas pessoas podem ser biologicamente mais propensas a esses padrões do que outras. Um estudo de 2018 publicado na revista científica Psychological Science encontrou uma ligação entre um maior volume da amígdala e a "orientação para o estado", ou seja, uma tendência a hesitar e adiar o início de ações, o que pode prejudicar o "comportamento direcionado a objetivos". 

Além disso, sob estresse, a atividade no córtex pré-frontal do cérebro — responsável pelo planejamento e autocontrole — pode ser reduzida, dificultando a supressão dos impulsos de evitação gerados pela amígdala.

(Você pode se interessar: Como o estresse afeta o corpo?)

A autossabotagem também pode ser aprendida e se tornar um hábito. Por exemplo, crescer em um ambiente de críticas severas pode ativar seu sistema de alerta em qualquer situação em que você receba feedback, afirma Heriot-Maitland.

Pesquisas sugerem que os procrastinadores, especificamente, costumam adotar comportamentos de autopreservação. Um estudo mais antigo, publicado no Journal of Research in Personality, descobriu que os procrastinadores frequentemente criam obstáculos externos — como esperar até o último minuto — e atribuem o baixo desempenho a esses obstáculos, o que pode ajudar a preservar a autoestima.

As experiências da infância também podem ser importantes. Algumas pesquisas sugerem que pessoas com pais emocionalmente imaturos ou que sofreram negligência emocional por parte dos pais podem ser mais propensas à autossabotagem.

medo do fracasso é outro fator comum, afirma Hal Hershfield, professor de marketing e tomada de decisões comportamentais na Universidade da Califórnia, Los Angeles (Estados Unidos), e autor do livro "Your Future Self" (em tradução livre, “Seu Eu do Futuro”). "Ironicamente, o medo de fracassar me impede de fazer algo, e então acabo fracassando."

As pessoas também tendem a supervalorizar o presente e desconsiderar o futuro, o que leva à procrastinação, diz Hershfield. Muitas pessoas também "simplesmente têm muita dificuldade em associar ações a resultados", acrescenta Jean-Richard-dit-Bressel.

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    Como parar de se autossabotar?


    A autossabotagem nem sempre está sob "controle consciente, mas existe um padrão aprendido que você pode desaprender", diz Heriot-Maitland.

    Aqui estão algumas abordagens que os pesquisadores dizem que podem ajudar a reduzir a autossabotagem:

    Pratique mindfulness ou  meditação

    Tomar consciência das suas reações internas — como o medo do fracasso ou a vontade de procrastinar — é um primeiro passo importante, afirma Pychyl. O objetivo não é eliminar esses sentimentos, mas reconhecer que você não precisa agir de acordo com eles, o que muitas vezes é mais fácil dizer do que fazer.

    “As pessoas nem sempre têm plena consciência de como seu comportamento está sabotando a busca por seus objetivos”, diz Jean-Richard-dit-Bressel.

    Uma maneira de desenvolver essa percepção é analisar como você normalmente lida com tarefas ou situações e o que essas reações tendem a produzir, explica ele. Para isso, a prática de mindfullness ou meditação pode ser interessante para ajudar nesse processo. Se isso for difícil, pergunte a um amigo ou parente de confiança como eles veem sua autossabotagem.

    (Conteúdo relacionado: Veja 7 maneiras simples de melhorar sua saúde mental, de acordo com a ciência)

    Desenvolva a autocompaixão

    Uma vez que esses padrões estejam mais claros, diz Heriot-Maitland, o próximo passo é responder com autocompaixão em vez de autocrítica.

    Criar uma distância entre seu comportamento passado e o que você espera para o futuro também é importante, afirma Hershfield. Pesquisas sugerem que o autoperdão, o reconhecimento de erros passados ​​sem se apegar a eles, pode ajudar algumas pessoas a evitar a repetição do padrão.

    Ele acrescenta que, quando você se sentir tentado a procrastinar ou ser excessivamente autocrítico, considere como se sentirá amanhã ou na próxima semana por causa disso.

    Não podemos controlar as coisas que tornam o futuro incerto, mas podemos controlar as respostas que damos às ameaças agora”, diz Hershfield. “Uma maneira de fazer isso é lidar com os comportamentos, lidar com os tipos de situações que podem piorar as coisas para nós.”

    Procure terapia, se necessário

    Para algumas pessoas, o apoio profissional é essencial. A terapia cognitivo-comportamental, um tipo de psicoterapia que ajuda os indivíduos a identificar e modificar padrões e comportamentos que interferem no seu bem-estar, é frequentemente recomendada para pessoas que lutam contra a autossabotagem, afirma Pychyl.

    Abordar medos subjacentes ou traumas passados ​​costuma ser necessário, acrescenta Heriot-Maitland. “Tentamos entender quais são esses medos que estão impulsionando esses padrões em você. Há muito que podemos fazer a respeito, mas leva tempo e não existem soluções rápidas.”

    Com o tempo, aprender a interromper padrões de autossabotagem pode facilitar a busca por objetivos de longo prazo, diz Pychyl — não forçando a mudança, mas compreendendo o que está motivando o comportamento em primeiro lugar.

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