Imagens raras mostram baleias ameaçadas de extinção se 'abraçando'

Restam menos de 400 baleias-francas-do-atlântico-norte no oceano; registrar esse comportamento incomum é um bom sinal.

Publicado 12 de mai. de 2021 17:00 BRT
Vídeo raro mostra baleias se 'abraçando'

Elas nadavam juntas como se fossem uma única baleia-franca-do-atlântico-norte, uma com a nadadeira sobre o corpo da outra.

Parecia que estavam se abraçando.

“Estarão elas demonstrando afeto? Elas estão demonstrando amor?” se perguntou Michael Moore, especialista em baleias-francas do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, em Massachusetts, EUA. Ele estava em um pequeno barco na baía de Cape Cod com a colega Amy Knowlton, o fotógrafo Brian Skerry e seu assistente. “Nós concordamos que 'afeto' era uma palavra que poderíamos supor.”

Os cientistas foram para a água em 28 de fevereiro para contar as baleias-francas e avaliar, visualmente, tamanho e saúde geral. Na primavera, as baleias migram para o norte, das águas quentes do Caribe, onde dão à luz, para as águas frias do nordeste dos Estados Unidos e Canadá, onde o zooplâncton que comem é mais abundante.

Moore diz que esta era a primeira vez que observava baleias-francas nadarem assim – um gesto a que cientistas se referem como comportamento de barriga com barriga. Ele diz que o vídeo dos dois machos, gravado por um drone lançado por Skerry, explorador da National Geographic, oferece a visão mais clara já vista do fenômeno.

A filmagem mostra baleias de um "grupo ativo de superfície" e revela um de dois grupos diferentes avistados, com quatro horas de intervalo, na baía. Ambos nadavam e possivelmente se acasalavam.

“Muito do que queríamos fazer com minha cobertura fotográfica era tentar criar empatia por esses animais”, diz Skerry. “A ciência por si só não tem sido suficiente para engajar a opinião pública. Esta é uma espécie que pode se extinguir ainda durante as nossas vidas.”

Uma baleia-franca-do-atlântico-norte macho, uma fêmea, e um indivíduo não identificado mostrando apenas sua nadadeira nadam juntos na superfície. Cientistas reconhecem as baleias-francas-do-atlântico-norte com base no conjunto único de marcas ou calosidades que pontuam suas cabeças.

Foto de Brian Skerry

Restam menos de 400 baleias-francas-do-atlântico-norte no oceano, o que faz delas uma das espécies mais ameaçadas de extinção do planeta. Um século de caça comercial colocou as baleias em declínio acentuado no século 20, e as populações continuam caindo. Só nos últimos quatro anos, 34 baleias-francas-do-atlântico-norte foram encontradas mortas em praias depois de ficarem presas em redes e equipamentos de pesca ou terem sido atropeladas por navios. Autópsias são feitas em cada baleia que chega à costa para determinar a causa da morte.

Estudos sugerem que as baleias formam grupos para brincar, manter laços sociais, acasalar ou se preparar para o acasalamento. “As baleias-francas-do-atlântico-norte se envolvem, muito comumente, nessas interações sociais na superfície”, diz Susan Parks, ecologista comportamental da Universidade de Syracuse, no interior do estado de Nova York. “O comportamento foi observado em todos os habitats conhecidos, em todas as épocas do ano.”

Para Moore, o que parecia um abraço de baleia era mais do que um curioso comportamento animal. “Um dos motivos pelos quais isso foi tão impressionante para mim é que tivemos muitas más notícias sobre as baleias-francas nos últimos 20 anos”, diz ele. “Já fiz muitas necropsias, desmembrando-as na praia.”

O que mais o surpreendeu foi “a gentileza da situação como um todo. Foi como uma valsa lenta”, diz ele. “Ter um assento de camarote em um momento privado daquele grupo trouxe, de alguma forma, um pulsar de esperança.”

Comportamento pacífico das baleias-francas  

“Esses caras estão apenas interagindo”, diz Knowlton, do Aquário de Nova Inglaterra, em Boston, referindo-se ao aparente abraço. “O que isso significa, não podemos ter certeza.” 

Moore diz que o vídeo revela o comportamento pacífico das baleias-francas. Se os machos estão se preparando para acasalar, eles estão sendo “gentis, relaxados e lentos”, diz ele.

“As baleias se tocam. Os peixes se tocam. Pássaros, insetos, ratos se tocam. Isso não é necessariamente novo ou relevante, é simplesmente adorável de se ver”, diz Michelle Fournet, cientista de mamíferos marinhos da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova Iorque. Chamar o que eles estão fazendo de abraço, diz ela, é um exemplo de nosso impulso de interpretar o comportamento animal em termos humanos – antropomorficamente –, o que pode distorcer uma compreensão precisa dessa atitude.

Mas Skerry aponta para comportamentos antropomórficos comprovados pela ciência – orcas demostrando tristeza ou baleias beluga gritando de alegria, por exemplo.

Na série documental O Segredo das Baleias, Skerry, que a filmou,  diz: “[os cientistas] diziam que as baleias têm cultura e personalidade, alegria e tristeza. Algumas décadas atrás, esse não era o caso. Muitos cientistas tradicionais estão dizendo essas coisas hoje.”

Um 'grão de esperança'  

Atropelamentos por navios e emaranhamento de equipamentos de pesca são os maiores desafios para a recuperação das baleias-francas-do-atlântico-norte, mas suas taxas de natalidade também estão diminuindo, possivelmente devido à escassez de alimentos em suas áreas de alimentação do norte, um resultado das mudanças climáticas.

Apenas cerca de cem das baleias restantes são fêmeas em idade reprodutiva, capazes de produzir um filhote a cada três anos. Essa baixa taxa de natalidade mostra a importância de cada indivíduo.

“Estou muito interessado em saber o que é necessário para uma baleia-franca estar preparada o suficiente para engravidar”, disse Moore.

Cerca de 30 filhotes devem nascer a cada ano para sustentar a espécie, de acordo com Moore. Entre dezembro de 2020 e março deste ano, 17 recém-nascidos foram vistos nadando entre a Flórida e a Carolina do Norte. É uma boa contagem, diz ele, visto que nos últimos quatro anos apenas 22 foram contados.

O Serviço Nacional de Pesca Marinha dos EUA está no processo de definir novos regulamentos para evitar que baleias sejam apanhadas em linhas de lagosta e caranguejo, e a agência impôs limites de velocidade para navios que viajam ao longo das rotas de migração de baleias. (Conservacionistas pressionam por medidas mais rigorosas.)

“Há tão poucas notícias boas”, diz Moore. “E este pequeno clipe de vídeo vem como um grão esperança”, disse Moore. Aquelas baleias que nadam pela baía de Cape Cod, se não estavam de fato se acasalando, “estavam, pelo menos, procurando parceiros”, diz ele.

Brian Skerry é explorador da National Geographic Society e bolsista de reportagem. Saiba mais sobre o apoio da Society aos Exploradores do oceano. Esta viagem de pesquisa foi possível com o apoio da Fundação da Lei de Conservação, do Instituto Oceanográfico de Woods Hole e do Aquário de Nova Inglaterra.

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