Essas cobras conseguem saltar — e os cientistas querem entender por quê

Sabe-se que algumas cobras “voam”, planando entre uma árvore e outra, mas esses répteis conseguem realmente se lançar no ar.quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Para animais sem braços ou pernas, as cobras arborícolas conseguem se locomover muito bem.

Muitas espécies passam de um galho a outro fazendo uso de uma estratégia conhecida como comportamento de “ponte”: o réptil estende a parte da frente do corpo para o ar, ficando perpendicular à base, até entrar em contato com algo grande o suficiente para suportar seu peso.

As cinco espécies das chamadas cobras voadoras do gênero Chrysopelea, nativas da Ásia, têm um truque ainda mais interessante: elas conseguem achatar seus corpos no ar e deslizar pelas copas das árvores como um esquilo-voador, percorrendo até cerca de 90 metros de uma só vez.

Agora, há evidências de que as cobras australianas do gênero Dendrelaphis, de parentesco próximo as Chrysopelea, também conseguem saltar.

Depois que seu orientador, Jake Socha, filmou uma Dendrelaphis pictus saltando na natureza em 2010, Michelle Graham, Exploradora da National Geographic Society e doutoranda na Virginia Tech, ficou intrigada.

Ansiosa para aprender mais, Graham viajou para a Austrália, onde capturou temporariamente algumas Dendrelaphis da natureza e as incentivou a exibir o comportamento em um experimento de laboratório, com a ajuda de uma estrutura feita de tubos de PVC, galhos de árvores e câmeras GoPro.

“É basicamente uma pequena academia na selva”, diz Graham.

Ao investigar como as cobras se movem pelo ambiente, os cientistas desvendaram mais informações sobre as diferentes formas de locomoção animal, com implicações pertinentes ao desenvolvimento desses comportamentos peculiares.

O plano das cobras

A maioria de nós ignora o fato de que vivemos em um plano bidimensional. De modo geral, quando damos um passo à frente, sabemos que o chão estará lá para receber o pé.

Mas, para os animais que vivem nas copas das árvores, o mundo é um lugar bastante desconectado. Os pássaros navegam neste espaço tridimensional voando. Os bugios balançam entre os galhos. E aos bichos-preguiça, basta esticar o braço e agarrar o galho para o qual desejam ir. Contudo todos esses comportamentos exigem membros sofisticados que as cobras não possuem.

“O interessante dessas cobras é sua capacidade de executar todos esses comportamentos locomotivos interessantes sem possuir membros”, diz Graham.

Obviamente, conseguir que os animais selvagens exibissem esses comportamentos na estrutura que lhes foi especialmente criada não foi uma tarefa fácil. A primeira cobra capturada por Graham era uma fêmea bastante grande, que “não estava disposta a exibir seus saltos.”

Mas a persistência foi recompensada e, depois de coletar inúmeras cobras arborícolas de diversas formas e tamanhos, Graham pôde confirmar que as do gênero Dendrolaphis conseguem, de fato, saltar entre um local e outro.

Para fazer isso, as cobras se posicionam abaixo do alvo — digamos, um galho de árvore — e então se lançam para cima de forma que seu impulso as permite cruzar um determinado espaço no ar. Graham pretende publicar mais detalhes sobre sua pesquisa em dois artigos científicos em 2020.

Saltar apenas por saltar?

Agora que confirmou que essas cobras arborícolas conseguem saltar, Graham quer saber por que esses animais fazem isso.

Pode parecer senso comum, mas Graham diz que ainda não há evidências satisfatórias que revelam o motivo de os animais planadores fazerem o que fazem. Alguns cientistas levantaram a hipótese de que saltar ou planar permite que as cobras, esquilos ou lagartos economizem tempo ou energia, mas “não existem estudos empíricos” que fundamentem isso.

“Ser a primeira pessoa a estudar esse comportamento significa que realmente não se conhece o contexto em que as cobras exercem essa habilidade”, diz Graham. O salto é “um comportamento de fuga? É um comportamento de locomoção comum? É algo que elas fazem apenas para se divertir? Ninguém sabe, certo?”

Bruce Jayne, morfologista funcional da Universidade de Cincinnati, em Ohio, diz que a decisão de Graham de estudar parentes próximos de cobras voadoras é inteligente porque poderia nos dar uma ideia melhor de como se desenvolveram comportamentos de salto e movimentação no ar.

“Na verdade, quão especial é essa habilidade das cobras voadoras?”, diz Jayne. “Se olharmos para seus parentes próximos, conseguimos observar alguns precedentes do comportamento. Talvez as cobras voadoras estejam apenas em uma das pontas de uma sequência contínua.”

De qualquer forma, ele diz admirar o trabalho porque sabe como é difícil estudar essas cobras especificamente.

“Esse tipo de estudo precisa contar muito com a sorte”, diz Jayne. “Mas, considerando o histórico [no laboratório de Socha], acredito que, se qualquer pessoa consegue, esse grupo também conseguirá”.

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