Raro e contagioso, câncer cruza o oceano, atinge espécies marinhas e deixa cientistas perplexos

Algumas doenças malignas podem afetar diferentes espécies marinhas, comprova recente série de descobertas que mudou o que sabemos sobre o câncer.quinta-feira, 14 de novembro de 2019

HÁ MUITO TEMPO, embora não saibamos quanto, um mexilhão-do-pacífico em algum lugar do Hemisfério Norte desenvolveu um câncer semelhante à leucemia. Começou como uma mutação em uma única célula danificada, que se dividia descontroladamente e se espalhava pela hemolinfa do mexilhão, o fluido em seu corpo que faz o papel do sangue.

Mas, então, o câncer fez algo que não deveria fazer, ou assim acreditávamos: de alguma forma, ele foi transmitido a outros mexilhões através da água. Clonando-se repetidamente nesses novos hospedeiros, a malignidade continuou a se proliferar e infectar novos indivíduos.

Ainda mais estranho, a doença não ficou restrita apenas aos mexilhões-do-pacífico: ela já foi detectada em outras duas espécies de mariscos em extremos opostos do mundo: mexilhões-comuns na França e mexilhões-chilenos na Argentina e no Chile.

Essa descoberta, descrita em um artigo publicado na revista científica eLife, é a mais recente de uma série de estudos que demonstram que os cânceres contagiosos são mais comuns do que se pensava anteriormente — especialmente no oceano. Esse novo campo de pesquisa pode nos ajudar a entender melhor como o câncer se desenvolve em animais e seres humanos, além de trazer benefícios à sombria vida das criaturas marinhas.

“O fato de estar atingindo duas novas espécies é impressionante”, diz Elizabeth Murchison, que estuda cânceres contagiosos na Universidade de Cambridge, “além de preocupante”. Os mexilhões não somente são importantes do ponto de vista ambiental, como também são um alimento muito apreciado em diversas culturas — embora não haja evidências de que comer mariscos infectados com câncer tenha algum impacto na saúde humana.

Terra e mar

Os cânceres contagiosos, que não ocorrem naturalmente nos humanos, foram reconhecidos pela primeira vez em dois animais terrestres nas últimas décadas. Em 2006, os pesquisadores descobriram que um câncer que afetava o diabo-da-tasmânia, espécie ameaçada de extinção — chamado tumor facial do diabo-da-tasmânia — poderia ser transmitido quando um animal mordia o outro, o que é um comportamento comum. Mais de 80% dos animais foram infectados e mortos por essa doença contagiosa e um segundo tipo de câncer transmissível muito semelhante ameaça extinguir a espécie.

Também em 2006, os cientistas descobriram que cães domésticos podem transmitir tumores venéreos, que causam massas cancerosas em seus órgãos genitais. Como todos os cânceres transmissíveis, as células são idênticas e, no caso dos cães, derivam de um único canino que viveu cerca de 11 mil anos atrás.

Essas descobertas mudaram profundamente a nossa compreensão sobre o câncer, que antes se pensava estar restrito a mutações celulares nos indivíduos. Embora diversos tipos de vírus possam causar danos e ser precursores do câncer, como o papilomavírus humano (HPV) ou o vírus da leucemia felina em gatos domésticos, foi um choque descobrir que células cancerosas isoladas poderiam ser transmitidas a uma população.

Na última década, os pesquisadores descobriram outros cânceres que afetam mariscos. Michael Metzger, principal autor do novo artigo e pesquisador do Instituto de Pesquisa do Noroeste do Pacífico, em Seattle, identificou vários deles, inclusive em uma população de mexilhões-do-pacífico (Mytilus trossulus) na Colúmbia Britânica.

Alguns anos atrás, ele iniciou um processo de colaboração com laboratórios na França e na Argentina, que descobriram um novo tipo de câncer nas populações locais de mexilhões. Essas células cancerosas destacam-se como únicas ao microscópio devido à sua aparência estranhamente redonda. Inicialmente, Metzger pensou que eram tipos de câncer diferentes, mas descobriu que se tratava da mesma condição: as doenças que atingiram os mexilhões-comuns franceses (Mytilus edulis) e os mexilhões-chilenos (Mytilus chilensis) eram idênticas — e haviam sido claramente transmitidas pelos mexilhões-do-pacífico, porque as células cancerosas conservavam a assinatura genética daquela espécie.

Mas os mexilhões-do-pacífico vivem apenas no Hemisfério Norte, ao longo da costa da América do Norte e da Europa. (O câncer também era diferente de outro tipo que o grupo de Metzger havia identificado anteriormente nos animais da espécie M. trossulus.)

Nenhum desses mexilhões vive em áreas equatoriais. Desta forma, a doença deve ter ultrapassado os trópicos ao pegar carona em navios ou se esconder na água de lastro, explica Metzger.

“É bastante intrigante o fato de esse único clone canceroso ter se espalhado pelo oceano todo”, diz Murchison, que não participou do estudo publicado no periódico eLife. “Provavelmente deveríamos estar prestando mais atenção ao potencial que as atividades humanas têm de espalhar esses cânceres.”

Ramificações

Cânceres contagiosos semelhantes, todos com impacto na hemolinfa e amplamente semelhantes à leucemia, foram descobertos em amêijoas, como as da espécie Mya arenaria e berbigões, um tipo de marisco encontrado em toda a Europa, incluindo a espécie Cerastoderma edule. Metzger e colegas também descobriram que um câncer que atingia amêijoas-douradas (Polititapes aureus) na verdade surgiu pela primeira vez em amêijoas da espécie Venerupis corrugata, um marisco semelhante também encontrado na Europa Ocidental.

Essa foi a primeira evidência de que esses tipos de câncer podem ser transmitidos entre espécies. Mas essa última descoberta é ainda mais extraordinária, pois o câncer se espalhou para duas novas espécies.

Embora esses mexilhões tenham parentesco próximo e, portanto, provavelmente, vulnerabilidades semelhantes, “não sabemos como impedir a transmissão”, diz Metzger. É provável que as células cancerosas se espalhem após serem liberadas e absorvidas por mariscos durante o processo de filtragem de detritos, parte normal de sua biologia. Além disso, o modo como a doença se prolifera é um mistério.

Até o momento, não parece que o câncer seja devastador para as populações dos animais, embora muitas vezes seja fatal para os indivíduos infectados. Metzger afirma que o câncer recém-descoberto nos mexilhões-comuns e nos mexilhões-chilenos atingiu cerca de 10% da população local.

“No momento, não conhecemos o real tamanho dessa ameaça”, diz ele. “Não parece estar dizimando as populações.”

Preocupações ecológicas

Mas essas são espécies comuns, variedades comercialmente importantes, geralmente consumidas por pessoas e outras espécies silvestres. Embora inofensivos para os seres humanos, os cientistas temem que esses tipos de câncer possam ter sérios impactos em outras espécies — e considerando que os cientistas apenas começaram a identificar essas doenças, talvez elas sejam muito mais prevalentes.

“Estou muito preocupado com a ecologia”, diz Jose Tubio, que estuda esse tipo de câncer marinho transmissível no Centro de Pesquisa em Medicina Molecular e Doenças Crônicas da Espanha. O grupo de Tubio recebeu um importante financiamento do Conselho Europeu de Pesquisa para identificar novos tipos e já encontrou cinco novos e diferentes cânceres em berbigões — cujos estudos ainda serão publicados.

“É provável que muitas espécies de bivalves tenham seus próprios cânceres contagiosos”, diz Tubio, “mas não sabemos ao certo quais são os impactos.”

Beata Ujvari, pesquisadora da Universidade Deakin, em Victoria, Austrália, diz que o câncer pode ser mais uma ameaça à vida marinha e pode ser exacerbado pela redução dos níveis de oxigênio nos oceanos e temperaturas mais altas causadas pelas mudanças climáticas, condições consideradas mais propícias para as células cancerosas.

A movimentação intencional ou acidental de mariscos entre diferentes áreas é uma ameaça, dando espaço à introdução de novos tipos de câncer que podem ter sérios impactos, acrescenta Tubio.

O câncer, é claro, geralmente surge a partir de uma mutação que ocorre nas células do corpo e, se o sistema imunológico não a reconhecer e destruir, ela pode se transformar em um tumor. Mas na maioria das vezes, um único tumor não chega a ser mortal — o câncer normalmente é fatal porque se espalha pelo corpo, um processo conhecido como metástase.

Mas, nesses cânceres contagiosos, “é quase como se fosse uma metástase que atinge hospedeiros diferentes”, diz Murchison.

“Entender como as células cancerosas sobrevivem durante o transporte ... poderia desvendar os segredos das células metastáticas”, afirma Ujvari.

“Estudar os mecanismos subjacentes pode nos ajudar a obter mais informações sobre a evasão imune no câncer”, que pode ser aplicada para qualquer espécie afetada pela doença — inclusive os humanos, diz ela. 

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