Conflitos entre humanos e hipopótamos explodem em área intocada do Quênia

Inundações e as consequências econômicas da covid-19 estão colocando pescadores famintos contra hipopótamos famintos — trazendo consequências mortais.

Fotos de Brian Otieno
Publicado 7 de fev de 2021 09:30 BRST
Hipopótamos se banham no lago Naivasha, em parte da reserva natural Sanctuary Farm, anteriormente uma área ...

Hipopótamos se banham no lago Naivasha, em parte da reserva natural Sanctuary Farm, anteriormente uma área seca. Chuvas intensas aumentaram o nível do lago. Agora, pescadores e hipopótamos dividem as margens dos pântanos, desencadeando ataques de hipopótamos, geralmente mortais. Os hipopótamos são normalmente dóceis, mas podem se tornar agressivos ao se sentir ameaçados. Esses animais matam cerca de 500 pessoas por ano na África, mordendo-as com dentes que podem alcançar 45 centímetros de comprimento.

NAIVASHA, QUÊNIA Em maio, George Mwaura foi pescar com seu amigo Babu ao longo das margens pantanosas do lago Naivasha, no centro do Quênia. “Babu era um cara calado e bacana”, lembra Mwaura. “Foi ele que me ensinou a ter paciência. E era um excelente pescador.”

Como não tinham dinheiro para comprar um barco, entraram na água até a altura do peito para identificar quais peixes — tilápia, carpa, bagre — ficaram presos em suas redes de pesca durante a noite. “Naquele dia, a pescaria tinha sido ótima”, conta Mwaura. “Mas antes de pegarmos tudo, o hipopótamo reapareceu.”

O animal havia sido avistado naquela manhã, suas orelhas e olhos emergindo na superfície. “Batemos na água com uma vara para espantá-lo com o barulho e o hipopótamo foi embora”, disse ele.

Os amigos estavam concentrados demais nos peixes para notarem quando o animal voltou. “Babu sempre me ensinou que hipopótamos são animais perigosos”, prosseguiu Mwaura. Babu já havia sido atacado quatro vezes por hipopótamos, mas sempre havia conseguido escapar. “Mas, nessa quinta vez — não sobreviveu.”

O hipopótamo avançou primeiro contra Mwaura, que conseguiu se afastar logo porque sabia nadar. Então o animal se lançou sobre Babu, que não sabia nadar. A enorme mandíbula do hipopótamo o prendeu. Os dois dentes inferiores do animal perfuraram as costas de Babu — uma, duas, três vezes. Dezenas de pescadores correram para a beira da água, mas quando um hipopótamo agarra alguém, não há nada que possa ser feito.

Ao fim do ataque, os demais pescadores foram socorrer Babu, mas já estava morto. “É tão triste testemunhar o dia da morte do seu melhor amigo”, lamentou Mwaura. Passados alguns dias, Mwaura retornou ao lago para pescar.

Tronco de uma acácia da espécie Vachellia xanthophloea parcialmente submerso no lago Naivasha. O lago subiu cerca de 3,7 metros, atingindo um nível não registrado em quase um século.

Casas, cabanas de turistas e estufas foram construídas em áreas de várzea protegidas com o objetivo de funcionarem como áreas intermediárias e assim permitir a oscilação do lago até seus limites naturais. Agora, muitas estão embaixo d’água.

Segundo algumas estimativas, cerca de 40 pessoas — na maioria, pescadores — foram atacadas por hipopótamos no lago Naivasha em 2020 e 14 delas morreram. Todos os anos, hipopótamos matam cerca de 500 pessoas em toda a África, o que os torna os mamíferos mais mortíferos do mundo, depois dos humanos, e quase duas vezes mais letais que leões. Os hipopótamos são herbívoros e raramente incomodam outros animais. Mas os machos podem ficar agressivos se pressentirem perigo e as mães podem atacar para proteger os filhotes. E quase todos os hipopótamos ficam nervosos quando algo — ou alguém — fica entre eles e a água onde vivem.

hipopótamo, segundo maior mamífero terrestre da Terra, geralmente parece dócil, mas pode se tornar mortal. Apesar de poderem pesar até quatro toneladas, conseguem correr até cerca de 32 quilômetros por hora. Suas mandíbulas podem se abrir 180 graus e prender com uma força 10 vezes maior do que a mandíbula humana, e seus caninos inferiores podem ultrapassar 45 centímetros de comprimento. E pode ser difícil perceber a presença desses animais, já que podem prender a respiração debaixo d’água por até cinco minutos.

Apesar dos riscos representados pelos hipopótamos, a extensão da tragédia em curso no lago Naivasha é incomum, decorrente de dois fenômenos extraordinários que mudaram a forma de interação entre humanos e hipopótamos.

Chuvas intensas iniciadas em outubro de 2019 fizeram com que o lago Naivasha expandisse para sua maior extensão em quase um século, inundando a região de pasto de centenas de hipopótamos. Com a água avançando pelas cercas das propriedades rurais e casas que circundam o lago, os animais foram forçados a conviver na mesma margem rasa onde pescadores como Mwaura e Babu lançam suas redes de pesca.

E o número de pescadores — antes na casa das dezenas, talvez algumas centenas no máximo — aumentou para milhares depois que a crise econômica global causada pela pandemia de covid-19 assolou a região. O Quênia é o quarto maior exportador de flores do mundo, mas, com a chegada da pandemia, os europeus pararam de comprá-las. Milhares de trabalhadores de campos de flores ao redor do lago Naivasha foram dispensados. Com poucas outras fontes de renda, muitos recorreram à pesca.

Naivasha é um local de convergência de humanos e animais silvestres há muito tempo. Na margem leste do lago encontra-se uma península cujo nome, Ilha Crescent, não fazia sentido até que recentemente uma enchente submergiu a estreita faixa de terra que a conecta ao continente.

Pescadores puxam as redes ao amanhecer no lago Naivasha, enquanto gaivotas e pássaros-martelo voam no alto, na esperança de se banquetear com a pescaria. A indústria pesqueira de Naivasha começou por acidente quando chuvas torrenciais inundaram uma criação de peixes acima do nível do rio Malewa e um grupo de carpas escapou para o lago. O lago também abriga tilápias, achigãs e bagres.

Tilápias pescadas no lago Naivasha em uma lona. Uma tilápia pequena pode custar 20 xelins apenas (cerca de 18 centavos de dólar), ao passo que um achigã sai por cerca de 200 xelins (cerca de US$ 1,80). Os peixes são embalados e enviados a Nairóbi e outras cidades, onde custam entre duas e três vezes o preço recebido pelos pescadores.

Turistas têm acesso ao local de barco, depois fazem uma caminhada para fotografar girafas, búfalos, gazelas, impalas, macacos-vervet e às vezes até hienas — todos os quais agora estão isolados devido à elevação do lago. Ao mesmo tempo, centenas, talvez milhares, de hipopótamos banham-se perto da costa, pressionados contra as cercas submersas das propriedades produtoras de flores, casas e cabanas de turistas, todas atualmente inundadas.

O resultado é uma mistura mortal: humanos e hipopótamos competindo por um estreito território. A natureza está reivindicando Naivasha, e o resultado tem levado a embates perigosos — embates cujos derrotados são os humanos.

Com a maior parte do trabalho concentrado na área do lago, não existe solução simples e óbvia. Ruth Mumbi perdeu o marido quando um hipopótamo virou seu barco de pesca há quatro anos. Arrimo de família, ele deixou quatro filhos, um dos quais passa os dias consertando redes de pesca. “Se fosse decisão minha, não deixaria que meus filhos trabalhassem no lago”, afirma Mumbi. “Mas como não tenho muito dinheiro e não há outra alternativa de trabalho, se é a vontade deles, tenho que aceitar.”

Uma depressão no vale

O lago Naivasha é denominado “lago amplificador” por cientistas devido à rápida flutuação em seu nível em função da precipitação. “É possível notar quando há uma mudança climática — nas variações no nível do lago, na salinidade”, explica Lydia Olaka, professora de geologia ambiental e ciência climática na Universidade de Nairóbi.

Cobrindo cerca de 180 quilômetros quadrados em uma época normal, a superfície do lago Naivasha é mais de três vezes o tamanho de Manhattan, mas tem profundidade máxima média de apenas 18 metros. Três rios deságuam no lago, que também recebe o escoamento das terras circundantes. O lago não tem nenhum ponto de saída. A cada ano, cerca de um metro e oitenta de água evaporam de sua superfície em dias de sol. Há uma década, após uma série de estiagens, os moradores temiam que o lago pudesse desaparecer, levando consigo todo um ecossistema e a indústria do turismo.

Propriedades produtoras de flores cercam o lago Naivasha. Essas estufas — construídas muito próximas ao lago — inundaram. O Quênia é o quarto maior exportador de flores do mundo. Porém, com a chegada da pandemia, os europeus pararam de comprá-las. As propriedades dispensaram milhares de trabalhadores. Muitos não tiveram nenhuma outra opção a não ser recorrer à pesca, base da economia local.

Pescadores andam pela margem pantanosa até seus barcos.

Mas, no fim de 2019, a bacia do lago Naivasha recebeu o triplo da precipitação normal — resultado de um fenômeno milhares de quilômetros a leste, denominado Dipolo do Oceano Índico. Ele ocorre quando as águas superficiais do oceano além da costa leste da África ficam excepcionalmente quentes, ao mesmo tempo em que há um resfriamento das águas próximas à Ásia.

As estações chuvosas de 2020 também foram mais úmidas do que o normal. A quantidade maior de chuvas aumentou a cobertura de nuvens, reduzindo assim a evaporação do lago. Parte da expansão do lago também é causada por humanos: resultado de décadas de desmatamento na bacia do lago, que provoca o assoreamento do lago. Naivasha não é um caso isolado. A quatro horas de carro ao norte de Naivasha, no Vale do Rift, no Quênia, o lago Bogoria e o lago Baringo também inundaram, expulsando milhares de pessoas e incontáveis animais silvestres.

O desaparecimento da área seca de pasto para os hipopótamos é devido não apenas à elevação das águas do lago Naivasha, que subiu cerca de 3,65 metros, mas também à invasão humana ilegal na áreas de várzea protegidas na fronteira. Foram construídas casas, cabanas de turistas e até estufas nesse terreno, mas agora muitas dessas estruturas estão submersas. A cidade à beira do lago de Kihoto, por exemplo, foi inundada no ano passado. Hoje, paredes de blocos de concreto se projetam sobre as águas escuras. Vários quilômetros a oeste, os topos curvos das estufas marcam o local de inundação das propriedades produtoras de flores.

Se o lago continuar em expansão, mais construções ficarão submersas. No entanto, recentemente, a Autoridade de Recursos Hídricos do Quênia cogitou permitir que pessoas se fixassem ainda mais perto.

“Estamos em uma época sem precedentes”, disse Olaka, observando que os modelos climáticos projetam mais precipitação e que o aumento do tamanho do lago Naivasha “poderia ser o novo normal”.

Fui pescar

A indústria pesqueira de Naivasha começou por acidente décadas atrás quando chuvas torrenciais inundaram uma criação de peixes acima do nível do rio Malewa. Um grupo de carpas escapou para o lago, onde dizimaram a maior parte dos lagostins, fartaram-se de ovos de tilápia, achigãs e outras espécies apreciadas na pesca esportiva.

Emmanuel Adinda foi atacado por um hipopótamo em uma noite de maio de 2020 ao caminhar pelo lago Naivasha para lançar suas redes de pesca. Pai de três filhos, com 40 anos, ele explica que não há outra maneira de obter renda. “Muita gente é atacada”, afirma. “Mas é no lago que se consegue o ganha-pão de cada dia, não há mais nenhum ofício disponível.”

Job Wainana, de 25 anos, trabalhava como pescador em Kasarani, na margem norte do lago Naivasha, até 2016, quando foi atacado por um hipopótamo ao caminhar até o lago. Wainana foi levado às pressas para o hospital local, onde os médicos amputaram sua perna esquerda.

As carpas se multiplicaram e a pesca se transformou no meio de subsistência. Quando o lago Naivasha expandiu subitamente em 2019, pareceu, a princípio, uma bênção à indústria pesqueira. Os peixes se reproduziam no solo rico e intocado da área de várzea recém-inundada. Transformaram-se em centenas de quilos de alimento fresco — mais peixes do que qualquer um pode lembrar.

“Todas as atividades — turismo, pecuária, floricultura —dependem do lago Naivasha”, conta David Kilo, presidente da Associação de Proprietários de Barcos de Naivasha. Antes da chegada da covid-19, havia 180 barcos de pesca licenciados no lago — tantos quantos o ecossistema do lago era capaz de suportar de forma sustentável. Agora, o cais de Karagita, na costa sudoeste, é invadido todas as manhãs por pescadores descarregando seus pescados.

Na cidade, as mulheres tecem longos fios em redes de pesca, que vendem por mil xelins (US$ 9). Adolescentes recebem centavos para consertar redes velhas com nós ou cortadas por hélices. E todos os dias, chegam turistas que contratam capitães de barcos para levá-los em passeios para avistar hipopótamos.

Uma manhã, um capitão chamado Douglas Mokano pilotou em direção a um grupo de hipopótamos. “Estão dormindo agora”, disse ele. Apontando para um hipopótamo cuja cabeça e costas subiram à superfície da água, explicou: “aquele é o bebê”. Era do tamanho de uma vaca adulta.

Os hipopótamos aconchegam as cabeças gigantes nas costas uns dos outros. Apesar da cintura enorme, conseguem ficar tão comprimidos que um grupo com cinco hipopótamos parece um único corpo cinza e rosa. É impossível dizer onde termina um e começa o outro. Mokano acelerou o motor, tentando agitá-los para que levantassem suas magníficas cabeças acima da superfície. Hipopótamos não podem ser incomodados.

Ruth Mumbi, com 37 anos, perdeu o marido em 2016 em um ataque de hipopótamo perto da Praia de Karagita. Para repor a renda do marido, seu filho John Muthee, de 18 anos, agora trabalha no mesmo lugar, desembaraçando redes de pesca de outros pescadores. Mumbi gostaria que seu filho não tivesse que trabalhar no lago, mas há poucos outros ofícios.

Pescadores desembaraçam redes de pesca na Praia de Karagita, no lago Naivasha.

“Não se pode permitir que todos pesquem. O ecossistema do lago seria afetado”, explica Kilo. E, ainda assim, foi o que aconteceu com a chegada da covid-19.

O Serviço de Vida Selvagem do Quênia não conseguiu ou não se dispôs a coibir a pesca ilegal. A agência não respondeu aos repetidos pedidos de comentários.

Voluntários da Associação de Pescadores de Naivasha ajudavam os guardas-florestais a realizar patrulhas noturnas, com holofotes em busca de pescadores ilegais. Uma noite, ao tentar prender um grupo de pescadores, houve resistência. Os infratores amarraram os guardas florestais, viraram e incendiaram o barco dos guardas, deixando-os presos até que pudessem ser resgatados.

Agora, “são raras as patrulhas”, afirma Kilo.

Hipopótamos famintos

Cientistas estimam que entre 29% e 87% dos ataques de hipopótamo são fatais. Há probabilidade maior de sobreviver a um ataque de tubarão, um encontro com um crocodilo — e até a um ataque de urso-pardo. Embora os hipopótamos sejam herbívoros, quando o pasto é escasso, em raras ocasiões, alimentam-se de outros animais — até mesmo de hipopótamos mortos.

Kilo testemunhou ou investigou oito ataques letais a pescadores. Os ataques se tornaram tão comuns que ele transformou seu carro em um veículo de resgate improvisado, removendo os bancos traseiros para que as vítimas pudessem entrar facilmente e forrando com plástico para proteger do sangue derramado. “Meu veículo parece uma ambulância”, contou Kilo. “Se alguém vê meu veículo dando ré, grita: ‘ataque de hipopótamo!’”

Hipopótamos pastam à noite na reserva Sanctuary Farm. Na década de 1990, as autoridades quenianas de animais silvestres estimaram em 1,25 mil a população de hipopótamos na região. Mais recentemente, estimaram o número em 700, mas moradores desconfiam que seja muito mais.

Mas Kilo não é paramédico. Não sabe fazer torniquetes nem cuidar de feridas, intervenções cruciais para salvar a vida das vítimas, adverte George Wabomba, médico do Hospital de Referência do Condado de Naivasha. Wabomba trata uma média de uma ou duas vítimas de hipopótamos por semana. “Quando vamos receber uma vítima de ataque de hipopótamo, todos ficam ansiosos no hospital”, conta ele. “Não sabemos o que esperar.”

Os hipopótamos podem atropelar ou arrastar as vítimas. “Às vezes, o hipopótamo solta a vítima após só uma mordida. Mas também há muitos ferimentos abdominais”, disse Wabomba, acrescentando que as lacerações podem estar cheias de terra e grama. “Não sabemos o que tem na boca de um hipopótamo, o que tem na água.”

Esses ferimentos requerem atenção imediata, conta Wabomba, mas muitas vezes as vítimas demoram horas para chegar. Os pescadores precisam esperar até que seja seguro resgatar a vítima — quando o hipopótamo se afasta — e depois transportam o ferido ao hospital. O hospital mais próximo fica a apenas oito quilômetros de Karagita, mas fica a 38 quilômetros de distância pelas estradas irregulares do outro lado do lago.

Wabomba estima que 40% das vítimas de hipopótamos atendidas por ele morrem. Ele se recorda de um pescador de 35 anos que atendeu no ano passado, atacado antes do nascer do sol ao lançar redes de pesca, mas que só chegou ao hospital ao meio-dia. “Parte das tripas dele estavam para fora”, disse Wabomba. “Fizemos o possível. Chamamos de cirurgia de controle de danos”.

“Não foi possível salvá-lo”, lamentou. Menos de meia hora após a cirurgia, ele faleceu.

Abater os hipopótamos?

A única solução ao impasse de Naivasha é “uma adaptação ao comportamento dos hipopótamos”, afirma Richard Hartley, que administra duas áreas de preservação ao redor do lago. Recentemente, ao dirigir com seu Land Cruiser por uma dessas áreas em uma tarde, ele parou para observar um hipopótamo solitário descansando em uma poça rasa de lama. “Era um macho adulto em busca de fêmeas, do tipo que os machos mais velhos não querem por perto”, comenta Hartley.

Um pescador retorna de sua pescaria matinal. O aumento do nível do lago inundou as acácias ao longo da margem.

Após um dia de trabalho no lago, os pescadores relaxam após atracarem na Praia da Tarambeta.

As placas com a palavra “perigo” alertam os turistas para não sair para caminhadas noturnas. Mas é só entrar em um Land Cruiser e ligar os faróis que certamente serão avistadas silhuetas de hipopótamos nas pastagens. Às vezes, observam você, surpreendidos pelas luzes. Mas geralmente trotam para longe, mostrando apenas seus traseiros rosados enquanto balançam freneticamente as caudas minúsculas.

Desde o transbordamento do lago, árvores parcialmente submersas tombam todos os dias, espirrando água quando suas raízes são arrancadas. Os pescadores começaram a lançar suas linhas a partir desses troncos, com as pernas a centímetros da cabeça dos hipopótamos. Periodicamente, ouvem-se os grunhidos dos hipopótamos, lembrando aos pescadores que o perigo está apenas a um passo de distância.

“Alguns pescadores parecem não sentir medo algum. Alguns ficam literalmente a um passo de distância — e não entendem”, alerta Hartley. “Há uma mãe com um filhote ou um hipopótamo agressivo atrás deles ou de seu barco. E não é possível notar a aproximação dos animais porque estão submersos — e são rápidos.”

Quando se acredita que um determinado hipopótamo atacou várias vezes, os pescadores às vezes pedem aos guardas para abatê-lo. “Há muita pressão da comunidade para o extermínio do animal. No entanto quase nunca é culpa do hipopótamo”, conta Hartley. Ele afirma que, às vezes, os guardas-florestais encarregados dessa função disparam a esmo propositalmente para salvar a vida do hipopótamo. Com cada vez mais pescadores no lago, alguns pedem que os hipopótamos sejam abatidos para diminuir sua população.

Um pescador lava pratos no lago Naivasha após um almoço com peixes recém-pescados.

Um homem sentado em um barco de pesca na Praia da Tarambeta. Atrás dele, a vegetação é formada por aguapés flutuando no lago.

O último censo completo de hipopótamos de Naivasha foi realizado na década de 1990. Estimou-se que existiam 1,25 mil hipopótamos. No ano passado, segundo Kilo, o Serviço de Vida Selvagem do Quênia estimou sua população aproximada em 700 indivíduos. Os hipopótamos são muito difíceis de contar, pois passam os dias em bandos debaixo d’água, geralmente apenas com os olhos e orelhas acima da água. Kilo e Hartley afirmam que, embora exista certa caça ilegal, não há razão para acreditar que a população de hipopótamos tenha reduzido drasticamente.

O abate às vezes é considerado quando um habitat não pode mais suportar a população de animais nele existente — quando a população excede o suprimento de pasto necessário para sua alimentação, esclarece Hartley. Se o lago continuar a engolir mais pastagens, segundo ele, os guardas-florestais poderão cogitar o abate de hipopótamos em vez de deixar dezenas morrerem de fome. Seria uma vergonha internacional ao Quênia, nação conhecida por seus animais selvagens, afirma Hartley. “O abate seria uma admissão de derrota, equivaleria a afirmar que não nos importamos mais com animais selvagens.”

“Às vezes, não me sinto eu mesmo”

Em pé à beira do lago, Meshack Ogjah mancou em direção à margem do pântano. Ele apontou para uma pequena área de água aberta, cercada por aguapés e árvores caídas e disse que, uma vez, ao anoitecer, pescava nas águas escuras quando um hipopótamo roçou em seu lado esquerdo.

Ele conhecia os perigos de pescar em um lago repleto de hipopótamos. “Um amigo meu havia sido atacado — e ele não sabia nadar”, contou Ogjah. O hipopótamo o mordeu ao menos duas vezes. Seu amigo não sobreviveu. Ainda assim, Ogjah continuou pescando. “É só quando se passa por essa experiência que se entende”, disse ele.

O sol se põe sobre o lago Naivasha, no Vale do Rift, no Quênia.

Ogjah mergulhou nas águas turvas para instalar uma armadilha para peixes feita de plástico quando o hipopótamo roçou nele. “Começou a me tocar, da barriga até a coxa”, lembrou. “Voltei à superfície para ver sua movimentação. Então comecei a nadar, mas ele me perseguiu.”

Ele gritou por socorro, mas não havia nada que pudesse ser feito pelos outros pescadores. Ele mergulhou, na tentativa de que o hipopótamo não o encontrasse. Quando alcançou a parte rasa, “o animal conseguiu me enxergar nitidamente”, disse Ogjah — e me mordeu.

Os dentes do hipopótamo tinham cerca de “quinze centímetros de comprimento e eram grossos”, prosseguiu. Perfuraram sua coxa direita e seu sangue coloriu a água. “Senti como se eu não estivesse lá.”

Ogjah conseguiu escapar. Outro pescador o puxou e o levou de motocicleta ao hospital. Os médicos limparam e costuraram a ferida. Ogjah teve sorte de sobreviver. Apesar disso, sente que falta uma parte dele. “Às vezes, não me sinto eu mesmo. É uma tortura”, desabafa Ogjah, que agora têm dificuldade para andar. “Ainda tenho um longo caminho pela frente.”

Questionado se ele culpa o hipopótamo — e se acredita que o governo deveria abater os hipopótamos — Wycliffe Injindi, amigo de Ogjah que testemunhou da margem o ataque, interrompe. Incendiariam todos os veículos porque alguém sofreu um acidente?”, indaga Injindi. “No Quênia, temos muita sorte por ter hipopótamos — outros países não têm a mesma sorte.”

A solução, segundo ele, é aprender a conviver com os animais — aprender a pescar com mais segurança em um barco, em vez de entrar em um lago turvo. “Não é justo matar os hipopótamos.”

Ogjah e Injindi balançam a cabeça negativamente quando lhes pergunto se voltarão a pescar. “Não posso voltar para a água”, responde Injindi. “Foi um dia terrível.”

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