Mamães-chimpanzés são como nós: choram, fazem carinho e reservam um tempo só para elas

Novas pesquisas estão revelando mais informações sobre as mães chimpanzés. Esse conhecimento é fundamental para ajudar a conservar as espécies de chimpanzés que estão ameaçadas de extinção.

Publicado 16 de mai. de 2021 08:00 BRT
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Um bebê chimpanzé abraça sua mãe. Esses grandes primatas compartilham cerca de 99% de seu DNA com os humanos.

Foto de Eric Gevaert, Alamy

Cuidados com seus filhotes 24 horas o ano todo. Amamentação por até cinco horas por dia. Um relacionamento intenso e duradouro de mais de uma década.

Alguém se identifica? Assim como as mães humanas, as chimpanzés se empenham muito para que seus filhos se tornem adultos saudáveis. Assim, os chimpanzés chegam, em média, a 40 anos de vida quando criados na natureza. Embora as comunidades de chimpanzés que vivem entre a região de Uganda até a savana da Tanzânia sejam diversas e tenham comportamentos particulares, todos os grupos têm algo em comum: os impressionantes laços entre mães e filhos.

Nos últimos anos, novas pesquisas destacaram a maternidade dos chimpanzés e trouxeram a público informações valiosas sobre esses grandes símios que estão ameaçados de extinção.

As populações de chimpanzés diminuíram em pelo menos 70% devido à destruição de seu habitat, caça e doenças. Em 1900, havia cerca de um milhão de chimpanzés; hoje esses números estão entre apenas 172 mil e 300 mil indivíduos. Aprender mais sobre as relações sociais dos chimpanzés pode ser bastante útil para as medidas de proteção aos chimpanzés e ajudar os ambientalistas a entender quais são os fatores determinantes para que as comunidades de chimpanzés se desenvolvam, como por exemplo o tamanho ideal do habitat.

Segundo Rachna Reddy, pós-doutoranda na Universidade de Harvard, que há anos observa os chimpanzés na natureza, há alguns aspectos das relações entre os chimpanzés “que são de certa forma indescritíveis, assim como nas relações amorosas entre os humanos”.

Conheça algumas descobertas que estão mudando o que conhecemos sobre as mães chimpanzés e revelando semelhanças entre elas e os humanos.

Laço entre mãe e filho

Gerações passadas de primatólogos chegaram a documentar a forte ligação entre mães chimpanzés e seus filhos adultos. Mas um estudo realizado no ano passado revelou que essa relação, além de comovente, é um padrão de comportamento entre os chimpanzés.

Reddy e o co-autor da pesquisa, Aaron Sandel, passaram três anos observando a interação de 29 adolescentes e jovens adultos do sexo masculino na comunidade de chimpanzés Ngogo, do Parque Nacional Kibale, de Uganda, com outros chimpanzés. Os chimpanzés machos não tinham mais contato com suas mães com a frequência de antes, mas quando as encontravam, afagavam e limpavam os pelos de suas progenitoras por longas horas, provavelmente repetindo comportamentos de quando ainda eram mais jovens.

Alguns tinham comportamentos ainda mais íntimos: “Cerca de um terço dos machos adultos são os melhores amigos de suas mães”, afirma Reddy.

É provável que esse tipo de relacionamento duradouro entre mãe e filho ocorra entre todos os grupos de chimpanzés. Por outro lado, esse comportamento é bastante incomum entre os mamíferos, pois a maioria dos machos deixa seu grupo de origem quando atinge certa maturidade. Entre os chimpanzés, são as fêmeas que saem para encontrar um novo grupo, talvez por isso os parentes mais próximos de um chimpanzé fêmea sejam seus próprios filhos.

E os machos jovens, ainda que não deixem suas comunidades de origem, enfrentam uma transição difícil: adentrar a hierarquia social dos machos adultos.

O estudo também revelou que as mães desempenham um papel crucial nessa transição pela qual os machos jovens devem passar, defendendo seus filhos em conflitos contra machos mais velhos e os reconfortando com afagos.

Cuidados pessoais das mães chimpanzés 

Sean Lee, cientista e pós-doutorando na Universidade George Washington, tem reconsiderado os conhecimentos clássicos sobre a vida cotidiana dos chimpanzés fêmeas.

Por exemplo: por muito tempo os especialistas concordaram que as mães chimpanzés não eram tão sociáveis em suas comunidades porque passavam muito tempo com seus filhos.

Mas com a mente aberta e se baseando em conjuntos de dados mais abrangentes, Lee e seus colegas descobriram que as mães chimpanzés passam tempo de qualidade com outros chimpanzés adultos, assim como seus famosos primos gregários, os bonobos.

Lee e seus colegas registraram imagens do comportamento de bonobos amamentando, na República Democrática do Congo, para um estudo que foi publicado no início deste ano. Os pesquisadores compararam os resultados de sua pesquisa com os dados de outros estudos de décadas passadas relacionados aos chimpanzés do Parque Nacional Gombe Stream, na Tanzânia.

Eles observaram quanto tempo cada espécie passava realizando algumas atividades, como alimentação, migração de um lugar para outro, catação e diversão.

De fato, as mães chimpanzés passam mais tempo sozinhas com seus filhotes — e menos tempo com outros chimpanzés — do que as mães bonobos. Mas as mães chimpanzés também passavam tanto tempo quanto — ou mais — que as mães bonobos em atividades sociais, como praticar catação e brincar.

“Foi exatamente o oposto do que esperávamos”, afirma Lee. As descobertas proporcionadas pela pesquisa mostram que “as mães chimpanzés ainda precisam interagir e passar tempo com outros chimpanzés — e elas fazem isso”.

Sofrendo juntos 

Pesquisas com chimpanzés em cativeiro também trazem algumas respostas sobre o comportamento de seus parentes que vivem na natureza.

Moni, um dos membros de menor escalão de sua comunidade no Royal Burgers’ Zoo , na Holanda, tentou se relacionar com os outros 14 chimpanzés no recinto em que estava, encarando os chimpanzés com quem ela queria se socializar através da catação ou simplesmente puxando os pelos deles.

“Ela realmente não sabia como ser um chimpanzé”, diz Zoë Goldsborough, candidata a doutorado na Universidade de Utrecht, que passou meses observando Moni e sua comunidade.

Certa manhã, Goldsborough e sua colega, Kayla Kolff, descobriram um recém-nascido morto no recinto e perceberam que um dos motivos para que Moni se mantivesse isolada dos outros era a gravidez.

Aquela comunidade de chimpanzés ficou estranhamente quieta naquele dia. Em vez de evitar Moni, como de costume, naquele dia os chimpanzés se sentaram perto dela, a beijaram e ofereceram os dedos para ela segurar ou colocar na boca.

Os pesquisadores já sabiam que os chimpanzés sofrem juntos, mas a experiência de Moni pode ser a primeira evidência documentada de que os chimpanzés — pelo menos quando estão em cativeiro — consolam o indivíduo que sofreu uma perda, diz Goldsborough, autora principal de um estudo recente sobre esse comportamento.

Embora a afeição intensa dos outros chimpanzés para com Moni tenha durado apenas algumas horas, a perda que passou pode tê-la ajudado a ganhar posição no grupo: agora ela é uma chimpanzé de médio escalão e tem vários parceiros de catação.

Segundo Goldsborough, a consciência sobre a morte era vista como algo que “distanciava os animais dos humanos”, mas a pesquisa mostra que os chimpanzés também têm experiências de sofrimento intenso com as perdas — e essa é apenas uma entre tantas outras emoções que compartilhamos com nossos primos primatas.

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