Ciência

Como abordamos a evolução científica do DNA ao longo dos anos?

Há 42 anos, a National Geographic publicou sua primeira reportagem sobre o assunto. Acompanhe como nossa cobertura evoluiu juntamente com o avanço dos estudos sobre a molécula da vida. Quarta-feira, 25 Abril

Por Michael Greshko

Em 25 de abril de 1953, a revista Nature publicou uma foto que provocou uma revolução: a primeira imagem estrutural da molécula de DNA. Essa descoberta divisora de águas, graças ao  trabalho de cristalografia de raios X de Rosalind Franklin e Maurice Wilkins, posicionou Francis Crick e James Watsonat na vanguarda da florescente área da biologia molecular.

Em algumas semanas, o New York Times anunciou que a descoberta “revolucionaria a história bioquímica” e, nos anos posteriores, os veículos de notícias publicaram fartas matérias a respeito do DNA e sua importância para revelar a maneira como a vida acontece.

National Geographic, contudo, não se aprofundou na biologia molecular durante os 23 anos seguintes à descoberta da dupla hélice.

Para uma revista havia muito tempo guiada por narrativas e fotografias de lugares, tratar do mundo microscópico da “nova biologia” chegou a causar certo desconforto na equipe da National Geographic. Mais de dois anos foram consumidos para a revista montar sua primeira incursão na biologia molecular, uma centelha chamativa intitulada “Os surpreendentes mundos contidos em uma célula”, apresentada na edição de setembro de 1976.

Hoje, revendo a matéria, a possibilidade de ter havido um suspiro aliviado do pessoal por como a história foi para a imprensa é quase palpável.

“Não há artigo algum já publicado que tenha sido mais difícil na medida de esforço e expertise como foi este para a sua preparação, ou na perspicácia que os leitores devem ter para entender este novo e complexo campo da ciência”, escreveu Gil Grosvenor, então editor-chefe da National Geographic, aos leitores.

Uma base sólida

De alguma maneira, a matéria impulsionou a transição da National Geographic para uma instituição que abordaria, de forma crescente, as complexidades da ciência sob todos os ângulos – inclusive uma investigação constante das maravilhas e desafios do desbloqueio do DNA. A molécula surge como um convidado, por exemplo, em uma matéria de 1977 sobre novas tecnologias  microscópicas. E, em dezembro de 1984, o geneticista Robert Weaver - filho do antigo editor da National Geographic, Kenneth Weaver – escreveu um artigo sobre o então novíssimo campo da biotecnologia, dando início a décadas de interesse envolvendo essa ciência em rápida evolução.

De acordo com o aprendizado dos leitores, a caixa de ferramentas do DNA cada vez mais versátil consegue rastrear as origens do marfim de elefante, identificar doenças antigas em múmias, auxiliar na solução dos mistérios do envelhecimento e até mapear a história da vida retornando às suas origens. A dupla hélice estava sendo empregada também para estudar espécies ameaçadas e agir similarmente como uma técnica de “impressão digital” a fim de identificar cada indivíduo no planeta.

Assim que o trabalho da revista avançava, os leitores ficavam familiarizados com a linguagem da genética.

"Não foi preciso esperar pelo dia no qual você não teve de pegar um parágrafo para dizer: isso é o material da dupla hélice e é assim que as características individuais são herdadas", diz Jamie Shreeve, editor e ex-executivo da National Geographic para ciência. “Minha carreira se passou desde quando você sempre teve de fazer até quando você quase nunca precisou fazer. Isso é uma coisa legal.

Indubitavelmente, Shreeve é um dos mais influentes cronistas genéticos da National Geographic. Como jornalista freelancer, ele escreveu um vasto artigo em 1999 sobre a corrida para decodificar o genoma humano, seguindo-se em 2006 uma história sobre “nossa maior aventura”: os rastros genéticos em que o Homo sapiens percorreu por milênios. Shreeve e outros reinventaram como explicar o DNA para públicos leigos no assunto - tentando substituir as metáforas do "modelo" usadas muitas vezes anteriormente.

"O genoma é mesmo similar a um teclado de piano: cada tecla toca uma nota e essa nota é uma proteína que esse gene está tocando", diz Shreeve. “O importante é compreender como esses genes são combinados em diferentes acordes e escalas e melodias e harmonias que compõem os processos de toda a vida. Há sapos de jazz, cobras clássicas e dinossauros de música country – existe apenas um tipo de molécula hereditária, mas que faz muitas coisas diferentes”.

Entretanto, cerca de 70% das menções a “DNA” da revista ocorrem depois de 2003, cuja publicação da primeira sequência completa do genoma humano acabou fazendo parte do Projeto Genoma Humano dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Para entender nosso próprio código genético, essa poderosa ferramenta, o DNA, poderia fornecer pistas para a identidade dos fenícios e viabilizar uma análise mais profunda dos cientistas das vidas da poderosa família Medici, cujos restos mortais foram exumados em 2004. A revista também deixou claro que a "revolução genética" forneceu mais bases de conhecimento no caso esmagador da evolução. "Temos percorrido um longo caminho desde que Darwin procurou evidências em seu pombal", afirma o escritor.

A revista não é o único instrumento em que a National Geographic explorou o DNA. Em 2003 e 2005, os documentários de televisão descreveram a aventura humana desde cerca de 60 mil anos atrás relativa a uma grande migração para fora da África. Livros que vão desde enciclopédias científicas a roteiros de genealogia explicaram a genética para leitores de todas as idades.

Além de tudo, a área de doações da National Geographic tem apoiado a pesquisa genética em curso. Nos últimos cinco anos, a National Geographic Society ofertou mais de 200 bolsas para pesquisadores, artistas e contadores de histórias cujo trabalho se relaciona à genética. E o Genographic Project da National Geographic, lançado em 2005, uniu-se ao esforço de quase um milhão de pessoas para criar a maior pesquisa genética antropológica do gênero.

Ética e sabedoria

A perspectiva acompanha o conhecimento e, como a genética amadureceu como ciência, a National Geographic também tem abordado suas implicações éticas.

Os cientistas que desenvolvem técnicas genéticas para ressuscitar espécies extintas devem utililizá-las para este fim? As técnicas criminais forenses, incluindo a identificação genética dos suspeitos, são mesmo cientificamente bem fundamentadas, ao ponto de se tornarem incontestáveis? Qual seria a missão adequada da indústria na pesquisa genética? De que forma os cientistas devem usufruir do poder extraordinário da técnica de edição de genes CRISPR?

Acima de tudo, como as pessoas não são definidas por seus genes? Como deixa claro a edição especial da National Geographic de abril de 2018, não há base genética para o conceito de raça. “É óbvio que só porque a raça é 'inventada' não quer dizer que ela seja menos poderosa”, escreve a jornalista de ciência Elizabeth Kolbert na edição especial. “É um pequeno consolo para as vítimas de racismo dizer que a categoria não tem base científica”.

Muitas verdades sobre a experiência humana que o DNA pode ajudar a trazer à luz. Por um lado, diz Shreeve, pesquisas futuras provavelmente enfatizarão que a aventura humana nunca foi estática. "Esse meio tipológico corrente de pensar em pessoas de determinados blocos, em verdade, está errado, história que a propria National Geographic ajudou a promover", diz ele. "O que sabemos agora é que todas as populações são fluentes".

O futuro vislumbrado por Shreeve também se direciona aos céus. “Se encontrarmos vida [extraterrestre], ela será baseada em DNA, e se for baseada em DNA, isso significa que ela está relacionada ao nosso tipo de vida ... ou é porque o DNA tem algo essencial que acontece em qualquer lugar? "

Com tanto conhecimento necessário a adquirir, Shreeve, como Grosvenor antes dele, sublinha o fato estabelecido de que a National Geographic haverá de explorar os mundos fantásticos existentes dentro da célula para sempre.

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